Entre os
traços mais persistentes da história política moderna está a dificuldade da
humanidade em romper definitivamente com a guerra como linguagem fundamental
das relações entre os Estados. Apesar dos discursos civilizatórios, das
promessas de cooperação internacional e da retórica jurídica que envolve
tratados e organismos multilaterais, o que se observa, sobretudo nos momentos
de crise, é a reafirmação crua da força como princípio ordenador da política
global. A sucessão recente de conflitos, ameaças de anexação, sanções
econômicas devastadoras e intervenções diretas revela que a promessa de um
mundo regulado por normas universais continua subordinada à lógica do poder.
Esse
diagnóstico não é novo. Ele foi formulado com clareza já na modernidade, quando
se consolidaram duas linhas fundamentais da filosofia política. A primeira diz
respeito à soberania, entendida como poder supremo e indivisível do Estado
sobre seu território e sua população. A segunda refere-se ao reconhecimento de
que, no plano das relações entre Estados soberanos, não existe autoridade
superior capaz de impor leis comuns. Esse espaço, marcado pela ausência de um
poder comum, configura uma situação estrutural de anarquia internacional,
profundamente próxima de um estado de guerra. A política entre nações,
portanto, não se rege por ideais morais ou projetos normativos universais, mas
pela disputa contínua de interesses estratégicos.
É nesse
contexto que o pensamento de Nicolau Maquiavel adquire centralidade. Em O
Príncipe (1532), o autor florentino rompe deliberadamente com as tradições
idealistas ao insistir que a política deve ser pensada a partir da verità
effettuale della cosa, isto é, da maneira como o poder realmente opera. Sua
defesa das armas nacionais está diretamente ligada à preservação da soberania:
um Estado que depende de forças externas abdica de sua autonomia e se torna
refém de interesses alheios. Para Maquiavel, a soberania não é um princípio
jurídico abstrato, mas uma condição material sustentada pela capacidade de
defesa e pelo controle efetivo do poder. Thomas Hobbes radicaliza esse
diagnóstico ao formular, em Leviatã (1651), uma teoria da soberania
fundada na insegurança estrutural. Se o Estado civil surge para pôr fim à
guerra interna, no plano internacional essa superação jamais se completa. Entre
Estados soberanos, persiste uma condição análoga ao estado de natureza, marcada
pela desconfiança permanente e pela possibilidade constante do conflito. “Os
reis e as pessoas com autoridade soberana”, escreve Hobbes, “estão em contínua
atitude de guerra”. A paz, nesse horizonte, não passa de uma suspensão
provisória da violência.
Essa
tradição encontra formulação explícita no conceito de realpolitik,
cunhado por Ludwig von Rochau em Grundsätze der Realpolitik (1853). A
noção designa uma concepção de política orientada pela análise concreta das
forças em disputa, e não por princípios morais abstratos. No século XX, essa
perspectiva ganha sistematização no realismo político de Hans Morgenthau,
especialmente em Politics Among Nations (1948), obra na qual o autor
sustenta que a política internacional é regida pelo interesse definido em termos
de poder. As normas jurídicas e os discursos morais, quando existem, funcionam
sobretudo como instrumentos de legitimação da dominação.
Essa lógica
se intensifica quando analisada a partir da relação entre imperialismo e
capitalismo. Conforme argumenta Lênin em Imperialismo, fase superior do
capitalismo (1917), o imperialismo não é um desvio ocasional, mas uma
política estrutural do capitalismo em sua fase monopolista e financeira. A
expansão territorial, o controle de recursos estratégicos e a imposição de
regimes econômicos subordinados tornam-se mecanismos centrais de reprodução do
sistema. A ordem internacional comandada pelos Estados Unidos, com o apoio da
OTAN e de países europeus politicamente enfraquecidos, confirma essa dinâmica.
Trata-se, cada vez mais, de uma guerra sistemática contra o Sul Global, travada
por meios militares, econômicos, diplomáticos e informacionais.
Nesse
quadro, Cuba e Venezuela ocupam lugar emblemático na guerra permanente do
imperialismo contra a soberania dos povos. Cuba, há mais de seis décadas
submetida a bloqueios e sanções, permanece como exemplo histórico de punição
imposta a qualquer projeto que se recuse à órbita norte-americana. A Venezuela,
por sua vez, foi alvo de sanções prolongadas, sabotagens, ataques à
infraestrutura estratégica e operações que resultaram em mortes e destruição
material. Esse processo culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, ato
que evidencia o desprezo imperial pela autodeterminação dos povos. Longe de ser
episódica, essa violência está diretamente ligada ao interesse nas vastas
reservas de petróleo venezuelanas, as maiores do mundo, reiteradamente reivindicadas
por Donald Trump como objeto de apropriação. Maduro, presidente legítimo da
Venezuela, converte-se assim em prisioneiro político do imperialismo, expressão
extrema de uma realpolitik que subordina a soberania à pilhagem dos
recursos estratégicos.
Sob a
liderança de Donald Trump, essas práticas assumiram forma ainda mais explícita,
traduzindo-se em agressões sistemáticas contra países e territórios como Irã,
China, México, Panamá, Groenlândia, Colômbia e, de modo cada vez menos
dissimulado, o próprio Brasil. Tarifas punitivas, embargos econômicos,
chantagens diplomáticas, intervenções indiretas e a instrumentalização seletiva
de organismos internacionais passaram a compor uma política externa orientada
pela intimidação e pela coerção. Não se trata de episódios isolados ou de
desvios conjunturais, mas da intensificação consciente de uma realpolitik
beligerante, na qual a força se impõe como linguagem legítima das relações
internacionais e o sistema global se organiza em torno de um estado de guerra
permanente, ainda que frequentemente não declarado.
Diante
desse cenário, a fragilidade das instituições multilaterais torna-se
incontornável. A Organização das Nações Unidas, herdeira do ideal moderno de
uma ordem internacional fundada no direito, mostra-se incapaz de conter as
grandes potências. A ideia de um direito internacional regulador das relações
entre Estados, formulada ainda na modernidade por autores como Kant, em À
paz perpétua (1795), permanece como horizonte normativo, mas não como
realidade efetiva. Sem poder coercitivo real, tais normas sucumbem diante da realpolitik
imperial. Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição ambígua e vulnerável.
Embora seja uma potência regional, dotada de vasto território, recursos
naturais estratégicos e peso demográfico, encontra-se permanentemente
tensionado por pressões externas que visam enquadrar suas decisões políticas,
econômicas e ambientais aos interesses do centro imperial. O risco não é apenas
a perda de autonomia formal, mas a integração forçada a uma lógica de dominação
que transforma países do Sul Global em alvos prioritários de contenção,
exploração e disciplinamento.
Os
acontecimentos recentes confirmam, assim, uma verdade incômoda: a política
internacional segue sendo regida pela força, pela ameaça e pela guerra latente.
A soberania permanece como problema central da filosofia política e da história
contemporânea, e a realpolitik continua a operar como racionalidade
dominante. Enquanto o imperialismo estruturar a ordem mundial, a promessa de
uma política internacional fundada no direito, na cooperação e na paz seguirá
sitiada pela permanente possibilidade da barbárie.
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[1] Professor de Filosofia do Colégio de Aplicação da UFS e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia. É integrante do Grupo de Ética e Filosofia Política da UFS.