sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

SOBERANIA SITIADA: REALPOLITIK E A PERSISTÊNCIA DA GUERRA NA POLÍTICA GLOBAL


Saulo H. S. Silva[1]  




Entre os traços mais persistentes da história política moderna está a dificuldade da humanidade em romper definitivamente com a guerra como linguagem fundamental das relações entre os Estados. Apesar dos discursos civilizatórios, das promessas de cooperação internacional e da retórica jurídica que envolve tratados e organismos multilaterais, o que se observa, sobretudo nos momentos de crise, é a reafirmação crua da força como princípio ordenador da política global. A sucessão recente de conflitos, ameaças de anexação, sanções econômicas devastadoras e intervenções diretas revela que a promessa de um mundo regulado por normas universais continua subordinada à lógica do poder.

Esse diagnóstico não é novo. Ele foi formulado com clareza já na modernidade, quando se consolidaram duas linhas fundamentais da filosofia política. A primeira diz respeito à soberania, entendida como poder supremo e indivisível do Estado sobre seu território e sua população. A segunda refere-se ao reconhecimento de que, no plano das relações entre Estados soberanos, não existe autoridade superior capaz de impor leis comuns. Esse espaço, marcado pela ausência de um poder comum, configura uma situação estrutural de anarquia internacional, profundamente próxima de um estado de guerra. A política entre nações, portanto, não se rege por ideais morais ou projetos normativos universais, mas pela disputa contínua de interesses estratégicos.

É nesse contexto que o pensamento de Nicolau Maquiavel adquire centralidade. Em O Príncipe (1532), o autor florentino rompe deliberadamente com as tradições idealistas ao insistir que a política deve ser pensada a partir da verità effettuale della cosa, isto é, da maneira como o poder realmente opera. Sua defesa das armas nacionais está diretamente ligada à preservação da soberania: um Estado que depende de forças externas abdica de sua autonomia e se torna refém de interesses alheios. Para Maquiavel, a soberania não é um princípio jurídico abstrato, mas uma condição material sustentada pela capacidade de defesa e pelo controle efetivo do poder. Thomas Hobbes radicaliza esse diagnóstico ao formular, em Leviatã (1651), uma teoria da soberania fundada na insegurança estrutural. Se o Estado civil surge para pôr fim à guerra interna, no plano internacional essa superação jamais se completa. Entre Estados soberanos, persiste uma condição análoga ao estado de natureza, marcada pela desconfiança permanente e pela possibilidade constante do conflito. “Os reis e as pessoas com autoridade soberana”, escreve Hobbes, “estão em contínua atitude de guerra”. A paz, nesse horizonte, não passa de uma suspensão provisória da violência.

Essa tradição encontra formulação explícita no conceito de realpolitik, cunhado por Ludwig von Rochau em Grundsätze der Realpolitik (1853). A noção designa uma concepção de política orientada pela análise concreta das forças em disputa, e não por princípios morais abstratos. No século XX, essa perspectiva ganha sistematização no realismo político de Hans Morgenthau, especialmente em Politics Among Nations (1948), obra na qual o autor sustenta que a política internacional é regida pelo interesse definido em termos de poder. As normas jurídicas e os discursos morais, quando existem, funcionam sobretudo como instrumentos de legitimação da dominação.

Essa lógica se intensifica quando analisada a partir da relação entre imperialismo e capitalismo. Conforme argumenta Lênin em Imperialismo, fase superior do capitalismo (1917), o imperialismo não é um desvio ocasional, mas uma política estrutural do capitalismo em sua fase monopolista e financeira. A expansão territorial, o controle de recursos estratégicos e a imposição de regimes econômicos subordinados tornam-se mecanismos centrais de reprodução do sistema. A ordem internacional comandada pelos Estados Unidos, com o apoio da OTAN e de países europeus politicamente enfraquecidos, confirma essa dinâmica. Trata-se, cada vez mais, de uma guerra sistemática contra o Sul Global, travada por meios militares, econômicos, diplomáticos e informacionais.

Nesse quadro, Cuba e Venezuela ocupam lugar emblemático na guerra permanente do imperialismo contra a soberania dos povos. Cuba, há mais de seis décadas submetida a bloqueios e sanções, permanece como exemplo histórico de punição imposta a qualquer projeto que se recuse à órbita norte-americana. A Venezuela, por sua vez, foi alvo de sanções prolongadas, sabotagens, ataques à infraestrutura estratégica e operações que resultaram em mortes e destruição material. Esse processo culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, ato que evidencia o desprezo imperial pela autodeterminação dos povos. Longe de ser episódica, essa violência está diretamente ligada ao interesse nas vastas reservas de petróleo venezuelanas, as maiores do mundo, reiteradamente reivindicadas por Donald Trump como objeto de apropriação. Maduro, presidente legítimo da Venezuela, converte-se assim em prisioneiro político do imperialismo, expressão extrema de uma realpolitik que subordina a soberania à pilhagem dos recursos estratégicos.

Sob a liderança de Donald Trump, essas práticas assumiram forma ainda mais explícita, traduzindo-se em agressões sistemáticas contra países e territórios como Irã, China, México, Panamá, Groenlândia, Colômbia e, de modo cada vez menos dissimulado, o próprio Brasil. Tarifas punitivas, embargos econômicos, chantagens diplomáticas, intervenções indiretas e a instrumentalização seletiva de organismos internacionais passaram a compor uma política externa orientada pela intimidação e pela coerção. Não se trata de episódios isolados ou de desvios conjunturais, mas da intensificação consciente de uma realpolitik beligerante, na qual a força se impõe como linguagem legítima das relações internacionais e o sistema global se organiza em torno de um estado de guerra permanente, ainda que frequentemente não declarado.

Diante desse cenário, a fragilidade das instituições multilaterais torna-se incontornável. A Organização das Nações Unidas, herdeira do ideal moderno de uma ordem internacional fundada no direito, mostra-se incapaz de conter as grandes potências. A ideia de um direito internacional regulador das relações entre Estados, formulada ainda na modernidade por autores como Kant, em À paz perpétua (1795), permanece como horizonte normativo, mas não como realidade efetiva. Sem poder coercitivo real, tais normas sucumbem diante da realpolitik imperial. Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição ambígua e vulnerável. Embora seja uma potência regional, dotada de vasto território, recursos naturais estratégicos e peso demográfico, encontra-se permanentemente tensionado por pressões externas que visam enquadrar suas decisões políticas, econômicas e ambientais aos interesses do centro imperial. O risco não é apenas a perda de autonomia formal, mas a integração forçada a uma lógica de dominação que transforma países do Sul Global em alvos prioritários de contenção, exploração e disciplinamento.

Os acontecimentos recentes confirmam, assim, uma verdade incômoda: a política internacional segue sendo regida pela força, pela ameaça e pela guerra latente. A soberania permanece como problema central da filosofia política e da história contemporânea, e a realpolitik continua a operar como racionalidade dominante. Enquanto o imperialismo estruturar a ordem mundial, a promessa de uma política internacional fundada no direito, na cooperação e na paz seguirá sitiada pela permanente possibilidade da barbárie.

_______________________________

[1] Professor de Filosofia do Colégio de Aplicação da UFS e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia. É integrante do Grupo de Ética e Filosofia Política da UFS.


Em Alta