quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

ATEÍSMO

Tradução de Marcelo de Sant’Anna Alves Primo




 “O ateísmo de Sade, escreve Annie Le Brun, na base inabalável do de Don Juan de Molière: para um e para o outro, a inexistência de Deus é tão certa como dois e dois são quatro. Aliás, Sade não deixa jamais em nenhuma ocasião de recomeçar a demonstração. Demonstração de que é o único escritor a fazer com tanta força, com “esta força de convicção manifestando senão quando todo o ser está sob o que é dito”[1]; “Não escreve somente, cada vez que o pode, que Deus não é, ele pensa e age, ele testa e morre em consequentemente; e esta inabalável certeza de seu orgulho é certamente o que menos lhe perdoaram”[2]. A extrema solidão que é a marca de seu “modo de pensar” encontrar-se-á aí também, nenhum ateu consentindo por muito tempo a se reprovar deste espírito infernal. “Eu queria poder citar M. de Sade”, escreve o astrônomo La Lande em 1805 em seu Segundo suplemento ao Dicionário dos ateus[3], “há muito espírito, raciocínio, erudição, mas seus romances infames de Justine e Juliette o fazem rejeitar uma seita a qual não se fala senão de virtude”. Este ateísmo radical de Sade, curiosamente, será muito mal recebido, em um completo contrassenso, pelo naturalismo anticlerical da segunda metade do século XIX: “é a última palavra do catolicismo”, já dizia Flaubert em Les Gouncourt em 1860”; é o espírito de inquisição, o espírito de tortura, o espírito da Igreja da Idade Média, o horror da natureza. Não há uma árvore em Sade nem um animal”. (Sabemos o quanto é falso). Em 1880, Zola escreve em De la moralité en littérature: “Ele (Sade) aparece como uma consequência fatal, trazida por uma longa evolução. Mas isso não basta: é preciso, para compreendê-lo, estabelecer claramente que ele era um católico voltado, um filho da Igreja voltado contra a sua mãe. Em suas orgias, ele insulta deus com uma lufada de excrementos e insulta como homem o qual o ateísmo é frágil; quero dizer que não há indiferença científica, que ele acumula furiosamente infâmias para sufocar nele esta ideia de Deus que não quer morrer. Aliás, ele crê no diabo, certamente tem um medo horrendo. Um cérebro parecido deveu ser atormentado continuamente pela imagem do inferno [...] Para mim, ele sai logicamente do catolicismo, chega à agonia do século dezoito, após as negações dos filósofos, e faz o papel de Satã triunfante, o velho Satã da Idade Média, monstruoso e lascivo, “violentando as mulheres à golpe de tridente, esmagando as criancinhas com um afago, pregando o incesto e o assassínio, sonhando com a desorganização e a derrocada final [...] A demência religiosa se passou nele, e acontece o mesmo cada vez que o sangue corre no amor. Abríeis a história do mundo: encontrareis nas religiões, nas centenas de seitas em que os homens disputam todas as aberrações e todas as crueldades imagináveis. Quando uma crença não diviniza a carne, ela a tortura, e logo ocorrem as monstruosidades, sob o aguilhão do sexo”[4]. Estranha interpretação que é encontrada quase literalmente em Huysmans, que fala em A rebours do “sadismo, esse bastardo do catolicismo”, prosseguindo assim: “A forca do sadismo, o apelo que ele representa repousa então inteiramente no regozijo proibido de transferir para Satã as homenagens e preces que são devidas a Deus; repousa então na inobservância dos preceitos católicos que são seguidos às avessas”[5]. A partir de Apollinaire e, sobretudo, do Surrealismo, poder-se-ia crer que Sade foi poupado definitivamente por este gênero de elucubração: “Sade, enfim o amor salvo da lama do céu”, escreve Char em 1930. Infelizmente virão Pierre Klossowski e Sade mon prochain (1947, ed. Modificada em 1967) o qual o título de uma das partes “sob a máscara do ateísmo” exprime bem a tendência: “o ateísmo racional é o herdeiro das normas monoteístas que mantém a economia unitária da alma[6] e, no final das contas, pelo viés de “fato primitivo irredutível da sodomia”, se “a aberração afetiva denuncia o Deus único, garantidor de normas, como uma aberração da razão” é uma “denúncia que se inscreve no circuito de uma cumplicidade, segundo uma lei do próprio pensamento” (todas as palavras são sublinhadas por Klossowski). À sua maneira sensata e racional, um pouco breve mas conscienciosa, Simone de Beauvoir bem respondeu: “Malgrado o interesse do estudo de Klossowski, estimo que ele trai Sade quando toma sua recusa apaixonada de deus pela expressão de uma necessidade; é sustentado de bom grado hoje que o sofisma que atacar Deus é afirmá-lo; mas, na verdade, é uma noção inventada pelos homens que o ateu contesta. Sade explicou claramente quando escreveu: “A ideia de deus é o único erro que não posso perdoar aos homens”; e se esta mistificação é a que ele ataca, é como bom herdeiro de Descartes procedendo do simples ao complexo, do erro grosseiro a erros mais falaciosos; ele sabe que para livrar o individuo dos ídolos os quais a sociedade o aliena, é preciso começar por assegurar a sua autonomia perante ao céu; se o homem não tivesse sido aterrorizado pelo grande espantalho ao qual rende estupidamente um culto, não teria tão facilmente sacrificado sua liberdade e sua verdade; escolhendo Deus negou a si mesmo e é essa a sua culpa imperdoável”. Clairwill responde mais sadianamente à objeção: “Desde que não creiamos em Deus, diz-lhe Juliette, as profanações que tu desejas não são mais do que infantilidades absolutamente inúteis” JJP Ver: Heine (Maurice), Klossowski (Pierre), Sollers (Philippe).

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

LACOMBE, Christian. Dictionnaire Sade. Paris: L’Harmattan, 2021, p. 81-83.



[1] Le Brun (Annie), Soudain un bloc d’abîme, Sade. Paris: Jean-Jacques Pauvert em Pauvert, 1986, p. 63 (N. do A).

[2] Heine (Maurice), Le Marquis de Sade, prefácio e edição de Gilbert Lely. Paris: Gallimard, 1959 (N. do A).

[3] De La Lande (Jerome). Second Supplement au Dictionnaire des Athées, 1805 (N. do T.)

[4] Zola (Émile). “Da moralité en littérature”, em Émile Zola, Documents littéraires, Charpentier, Paris, 1881 (N. do T.)

[5] Ibid. (N. do A.)

[6] Klossowski (Pierre). Sade mon prochain. Paris: Editions du Seuil, 1947 (N. do A.)

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