terça-feira, 14 de março de 2023

A POLÍTICA DE PREÇOS DOS COMBUSTÍVEIS E A ECONOMIA FRANKENSTEIN BRASILEIRA

 Saulo H. S. Silva[1] 






Em pouco mais de dois meses do novo Governo Lula, um intenso debate tem tomado conta da pauta governamental e mobilizado a opinião pública, a saber, a relação do governo com a Petrobras, cujo controle acionário majoritário ainda pertence ao próprio governo. E esse debate tem sido motivado pela discussão em torno da política de preços de combustíveis da empresa. Trata-se de um assunto fundamental porque os combustíveis estão na base da produção e do funcionamento da sociedade; portanto, consiste em tema de interesse geral que deveria submeter o interesse econômico privado à política do bem comum. Mas não é bem assim que se passa!

Desde o famigerado governo Temer que a política de preços da Petrobras foi estabelecida com base no preço internacional cuja cotação é em moeda estadunidense. Atualmente, o valor do Dólar está em média de 5,00 R$, essa cotação eleva os preços de tudo que tem o combustível como base de seu funcionamento. Algo que provoca carestia e pobreza em razão de que os valores dos salários pagos a trabalhadores não são dolarizados.  Situação que poderia denominar de “economia política Frankenstein”, ou monstruosa, formada por pedaços de coisas dispares a modelar um verdadeiro monstro disforme e horripilante que devora os pobres. Afinal, se 5,00 R$ consegue comprar apenas 1,00 US$, o valor da moeda brasileira está demasiadamente desvalorizado em relação à moeda estadunidense. Até aqui tudo bem, mas, se ainda por cima, os combustíveis extraídos e produzidos no Brasil são negociados com base em uma moeda que vale bem mais que a moeda local, a qual serve de base para todos os salários, obviamente, temos um misto de economia dolarizada cujo trabalho está fundamentado em Real e os custos da vida material baseados em Dólar.  

Como mencionei acima, o PPI— Preço de Paridade Internacional—, adotado a partir de 2016, consiste em uma fraude e em verdadeira usurpação contra aqueles que pagam por tal preço, mas que recebem em moeda que vale 4 vezes menos. Essa monstruosidade foi estabelecida junto a uma série de medias privativistas que o governo da época implementou. Essas medidas foram determinadas por interesses dos acionistas da empresa, cerca de 60%, dos quais 43,31% são estrangeiros e querem receber em Dólar (FONTE, Site da Petrobras, Jan/2023). Os resultados mais imediatos dessa política econômica foram o aumento exorbitante do preço dos combustíveis, consequentemente, a degradação das condições materiais da população e a elevação dos preços das mercadorias e serviços baseados em combustíveis, os quais passaram a ter como base o famigerado PPI adotado pela empresa.

Essa situação desastrosa retrata no Brasil a polêmica que estava na origem da economia política nascente, a saber, o problema da dualidade de interesses. O interesse privado, ávido em obter mais e mais lucros, e o interesse público, na maioria das vezes, suplantado pela avareza daqueles que objetivam simplesmente o lucro individual. Quem deve, nesse impasse, mediar o conflito de interesses? A resposta advogada neste pequeno artigo é que o mediador deve ser o Estado. E esse papel do Estado na economia sempre foi um dos assuntos fundamentais da economia política.

Assim, os fisiocratas, ainda no séc. XVIII, embebecidos do jusnaturalismo da época moderna europeia, tendiam a compreender que os fenômenos econômicos seguiam a um ordenamento natural e essa ordem natural, por si mesma racional, garantiria o equilíbrio entre os interesses particulares e coletivos.  É desse contexto que surgiu a famosa expressão, “laisser-faire, laisser-passer”, os fenômenos econômicos possuem ordenamento natural e o Estado não deve intervir, portanto, “deixar fazer, deixar passar”! O pensamento fisiocrata francês de François Quesnay e Jacques Turgot influenciou decisivamente a ciência econômica que muitos defendem estar estabelecida na publicação da obra A Riqueza das Nações (1776), do filósofo escocês Adam Smith.  O contraponto a tais formulações foi quase que imediato por conta das necessidades objetivas e materiais dos trabalhadores. O pensador David Ricardo, em Princípios de Economia Política (1817), já mostrava que os conflitos entre os interesses coletivos e os privados poderiam ser insolúveis e ele exemplificava isso em relação à elevação dos preços agrícolas tendo em vista as condições de subsistência dos trabalhadores. Pensadores representantes dos proprietários, por mais que tenham advogado contra a pobreza extrema do trabalhador, foram incapazes de analisar justamente esse conflito secular. Somente com as pesquisas de Karl Marx que foram estabelecidos os fundamentos para se pensar a economia política a partir do lado de quem trabalha e que verdadeiramente produz. Assim, a economia não deriva de leis naturais e nem é  regulada pelas mãos invisíveis do mercado.

Após essa digressão, penso ser fundamental compreender que a politica privativista que está na base da política de preços da Petrobras, além de trazer a carestia das mercadorias e o empobrecimento da população trabalhadora, denota também a oposição fundamental entre o interesse privado de acionistas que querem lucro a todo custo e o interesse coletivo daqueles cuja dolarização dos combustíveis impacta significativamente nas condições materiais da vida. Ao contrário, porém, da oposição de interesses da época moderna, baseada na economia produtiva, o problema aqui está na relação entre acionistas que nada produzem, mas que recebem lucros exorbitantes, e o interesse coletivo que paga com sangue e suor combustíveis a preços irreais. Cabe, portanto, ao Estado reequilibrar essa relação de modo que o interesse coletivo não esteja de joelhos para a avareza de acionistas inúteis e em sua maioria estrangeiros.

Há várias formas de resolver esse problema, a melhor delas seria a reestatização completa da empresa, devolvendo à mesma sua função pública de alavancar o crescimento econômico do país e colaborar com a redução da desigualdade por meio da produção de combustíveis acessíveis a uma população que recebe salários em Real. Uma saída alternativa, e paliativa, é simplesmente banir o famigerado PPI, responsável por edificar uma economia monstruosa, e reestabelecer os preços dos combustíveis a partir da base salarial real da população brasileira.







[1] Doutor em Filosofia e Professor do Colégio de Aplicação da UFS.


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