quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

A TRANSPARÊNCIA DO MAL

 Por Marcelo Primo[1]

(Professor da UFS)




    Se quiséssemos ilustrar com fatos e imagens a epígrafe inaugural do livro de Jean Baudrillard intitulado A Transparência do Mal, que afirma com todas as letras que o mundo se encaminha para um estado delirante de coisas, daríamos a nossa contribuição para tal: apontando para o lamentável episódio ocorrido em Brasília protagonizado em 8 de janeiro passado por fanáticos maus perdedores que, simplesmente numa mistura de arroubo de estupidez, má fé e credulidade fizeram a nossa versão do Capitólio acontecido nos EUA em 2021. Atitudes extremas advindas de mentalidades e comportamentos extremos que culminaram numa das maiores vergonhas da história política do Brasil, sendo ventilada aos quatro cantos o caótico rescaldo fascista do pós-eleição que resultou num grotesco atentado contra a democracia. Dessa maneira, é bom estar sempre alerta acerca do que é possível fazerem quando se é motivado pelo mal: desrespeitar todas as fronteiras e limites do republicanismo e da civilidade em nome da tríade infame deus, pátria e família.

    O non sense ético e político generalizado engatilhado por um ressentimento de quase a metade da nação teve proporções avassaladoras, transparecendo a falta de cultura e prática democráticas características de boa parte da população brasileira. Quando eu aqui numa noite em casa recebo uma mensagem de um amigo compartilhando a notícia de que meliantes com uma faca rasgaram obras de Di Cavalcanti e de outros artistas, estremeci e assimilei essa rasura como metáfora: quiseram simplesmente rasgar as páginas da nossa recente história de abertura democrática e, pior ainda, esses mesmos capachos políticos da destruição sequer se apercebem que eles mesmos foram para a ponta da faca, aprendendo isso da pior maneira à medida que estão sendo detidos sistematicamente. Movidos por uma vontade cega, houve ainda quem comemorasse quando foi preso, beirando as raias da patologia quando até gente com tornozeleira eletrônica encarou como se tivesse obtido uma condecoração de guerra agir antidemocraticamente. Esse paroxismo conservador que explodiu em suas diversas faces, vertentes, classes sociais e faixas etárias só nos evidenciou uma coisa: as pessoas “de bem” não hesitando em deixar transparecer em suas atitudes o mal, cada vez mais banalizado e naturalizado por quem não saber aceitar uma derrota.

          Em seu escrito Pompas Fúnebres, Jean Genet dizia que nem precisamos falar em mal absoluto, pois seria uma tremenda de uma redundância. O mal já traz em si toda a sua universalidade, não podendo ser relativizado através de pessoas que preferem ser controladas por outrem do que pensar e agir por si mesmas. Quem esperou por seu salvador messiânico simplesmente ficou a ver navios, tendo agora de pagar o preço jurídico e político de tentar trazer à tona o que levamos bons anos para nos desvencilharmos, a saber, o nosso período ditatorial. Assim sendo, o episódio ocorrido em janeiro deste ano nunca será datado, pelo contrário, sempre lembraremos para não esquecermos jamais: o que o mal pode fazer uma vez levado ao extremo.        


[1] Professor de Filosofia do Colégio de Aplicação da UFS e integrante do Grupo de Ética e Filosofia Política da mesma instituição.

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