Por Marcelo Primo[1]
(Professor da UFS)
Se quiséssemos ilustrar com fatos e imagens a epígrafe inaugural do livro de Jean Baudrillard intitulado A Transparência do Mal, que afirma com todas as letras que o mundo se encaminha para um estado delirante de coisas, daríamos a nossa contribuição para tal: apontando para o lamentável episódio ocorrido em Brasília protagonizado em 8 de janeiro passado por fanáticos maus perdedores que, simplesmente numa mistura de arroubo de estupidez, má fé e credulidade fizeram a nossa versão do Capitólio acontecido nos EUA em 2021. Atitudes extremas advindas de mentalidades e comportamentos extremos que culminaram numa das maiores vergonhas da história política do Brasil, sendo ventilada aos quatro cantos o caótico rescaldo fascista do pós-eleição que resultou num grotesco atentado contra a democracia. Dessa maneira, é bom estar sempre alerta acerca do que é possível fazerem quando se é motivado pelo mal: desrespeitar todas as fronteiras e limites do republicanismo e da civilidade em nome da tríade infame deus, pátria e família.
O non
sense ético e político generalizado engatilhado por um ressentimento de
quase a metade da nação teve proporções avassaladoras, transparecendo a falta
de cultura e prática democráticas características de boa parte da população
brasileira. Quando eu aqui numa noite em casa recebo uma mensagem de um amigo
compartilhando a notícia de que meliantes com uma faca rasgaram obras de Di
Cavalcanti e de outros artistas, estremeci e assimilei essa rasura como metáfora:
quiseram simplesmente rasgar as páginas da nossa recente história de abertura
democrática e, pior ainda, esses mesmos capachos políticos da destruição sequer
se apercebem que eles mesmos foram para a ponta da faca, aprendendo isso da
pior maneira à medida que estão sendo detidos sistematicamente. Movidos por uma
vontade cega, houve ainda quem comemorasse quando foi preso, beirando as raias
da patologia quando até gente com tornozeleira eletrônica encarou como se
tivesse obtido uma condecoração de guerra agir antidemocraticamente. Esse
paroxismo conservador que explodiu em suas diversas faces, vertentes, classes
sociais e faixas etárias só nos evidenciou uma coisa: as pessoas “de bem” não
hesitando em deixar transparecer em suas atitudes o mal, cada vez mais
banalizado e naturalizado por quem não saber aceitar uma derrota.
Em seu escrito Pompas Fúnebres, Jean Genet dizia que nem precisamos falar em mal
absoluto, pois seria uma tremenda de uma redundância. O mal já traz em si toda
a sua universalidade, não podendo ser relativizado através de pessoas que
preferem ser controladas por outrem do que pensar e agir por si mesmas. Quem
esperou por seu salvador messiânico simplesmente ficou a ver navios, tendo
agora de pagar o preço jurídico e político de tentar trazer à tona o que
levamos bons anos para nos desvencilharmos, a saber, o nosso período
ditatorial. Assim sendo, o episódio ocorrido em janeiro deste ano nunca será
datado, pelo contrário, sempre lembraremos para não esquecermos jamais: o que o
mal pode fazer uma vez levado ao extremo.

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