quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

O NORMAL E O PATOLÓGICO

 Por Marcelo Primo[1]

(Professor da UFS)




       Diante dos acontecimentos ocorridos no pós-eleição, fica difícil não concluir que ações de contestação do resultado das urnas não estejam imbuídos de uma certa patologia quase que crônica. Se pensarmos com Canguilhem, em seu livro O normal e o patológico, que ambas as noções não podem ser separadas umas das outras, isso foi demonstrado através de uma histeria, cegueira e paranoia coletivas quando simplesmente o que foi esperado por quase metade do país não aconteceu: a reeleição de um candidato cujo projeto político-psico-patológico arrastou o Brasil para o fundo do poço. Levo aqui em consideração os perigos e limites de uma psiquiatrização de determinadas atitudes, já que nessa leitura é defendido que são projetos de poder que estão em disputa e não poderiam ser reduzidos a meros casos clínicos, mas cortinas de fumaça que sempre jogam contra a democracia defendendo seus próprios interesses. Contudo, não dá pra negar certas esquisitices em alguns atos de maus perdedores movidos pela estupidez e ressentimento, os quais rechearam as manchetes de todos os espaços de comunicação por dias e semanas, servindo de caricatura para mostrar do que é capaz alguém que não aceita uma derrota.

       De louvação a um pneu a andar marchando na chuva, ficar nos muros de quarteis orando aos deuses ou ficar no para-choque de um caminhão para mostrar toda a indignação contra um processo eleitoral que começou e terminou sob as regras da democracia, convenhamos, tem o seu quê de absurdo. De uma tentativa de golpe frustrada derivou toda sorte de reações entre adultos, crianças e adolescentes que atentaram duramente contra a ordem republicana uma vez que o mito de uma nação pautada nos valores de deus, pátria e família caiu por terra. Entretanto, não dá para subestimarmos que um legado conservador ficou nas mentes e nos corações dos que não suportam uma política livre de preconceitos, fanatismos e crendices. Um discurso paranoico reativo ousou estender seus tentáculos para claramente defender o retrocesso econômico, social e político permitido por um governo que não tinha competência e compromisso algum para tratar desses três pilares nos quais todo e qualquer país se sustenta e procura se desenvolver. Assim, a patologização da política ganhou traços de normalidade através da repetição dos mesmos absurdos de ordem psíquica e psicológica, não podendo ser dissociada do atual contexto no qual estamos e quase servindo de espelho no que concerne a uma boa parte da sociedade brasileira.

       Dessa maneira, fica um alerta: para além da comicidade de certas atitudes tomadas após o resultado das eleições, ficou um rescaldo e um recalque latentes oriundos de uma desconfiança misturada com religiosidade espúria acerca de decisões tomadas e resultados obtidos democraticamente. Patologias sociais aqui estão imiscuídas com a não admissão do que a maioria escolheu o que de fato e de direito pôde e, principalmente, quis escolher. Então não nos resta dúvidas: toda e qualquer investida contra a vontade e legitimidade da opção por um projeto consistente e progressista de governo só mostra o quão tênue é a linha que demarca o normal e o patológico.   



[1] Professor de Filosofia do Colégio de Aplicação da UFS e integrante do Grupo de Ética e Filosofia Política da mesma instituição.



 

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