Por, Saulo Henrique Souza Silva
(Publicado na edição do dia 15/05/2013 do Jornal da Cidade)
(No Portal UFS: http://www.ufs.br/conteudo/aumento-tarifa-transporte-coletivo-aracaju-problema-tica-10493.html)
(ClickSergipe: http://www.clicksergipe.com.br/blog.asp?postagem=83256&tipo=artigo)
(Tribuna da Praia): http://www.tribunadapraiaonline.com/news/artigo-o-aumento-da-tarifa-do-transporte-coletivo-em-aracaju-e-o-problema-da-etica/
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| Pontos de ônibus localizados na Av. Ivo do Prado (Centro de Aracaju) |
Existe
uma preocupação cíclica da população aracajuana que retorna todo início de ano.
Trata-se do aumento da tarifa do transporte coletivo. Dessa vez, o valor
aprovado pela Câmera de Vereadores, após idas e vindas da empreitada pela Prefeitura,
a Câmara e o Tribunal de Justiça, elevou o preço da passagem de 2,25 R$ para 2,45
R$, o que equivale a 8,88% de aumento. Só faltava a assinatura do prefeito João
Alves Filho para que o projeto fosse sancionado e, consequentemente, agradar
aos empresários e desagradar à população. Se colocarmos na balança o valor da
passagem de um lado e a estrutura oferecida pelo sistema de transporte público
do outro, veremos o tamanho da disparidade, pagar-se-á bastante por muito pouco
oferecido. Por conseguinte, não podemos deixar de deduzir que essa tarifa de
2,45 R$ deve ser considerada antiética e abusiva.
Para
não cometermos o erro da superficialidade em assunto tão importante, é
necessário deixarmos claro que o termo ética (do grego ἠθικἁ) possui duas acepções distintas, porém
complementares. Por um lado, a ética pode ser compreendida como a ciência que
investiga o móvel da conduta humana, os costumes (algo que os latinos denominavam
de mores). Sobre isso, o filósofo
holandês Benedictus de Spinoza, na terceira parte de sua Ética, defende que essa investigação tem por objetivo tratar da “(...)
natureza e da força da afeções (...) das ações e dos apetites humanos” (2007,
parte III). Seguindo essa orientação,
podemos constatar que existe certo tipo de costume nas ações das pessoas que
estão no comando das responsabilidades do transporte coletivo em Aracaju haja
vista que os aumentos incidem, os problemas continuam os mesmo, e nunca se
discute com seriedade as soluções e as possibilidades para melhorar
efetivamente a mobilidade urbana. Isso impera com a força de uma norma porque
faz parte dos mores de nossos
governantes como um conjunto de prescrições admitidas e seguidas em um
determinado contexto, em razão disso, as emergências que surgem são remendadas
de improviso ou atenuadas com simples medidas paliativas. Se encerrássemos o
entendimento da ética nessa qualificação, não haveria necessariamente problemas
de ordem valorativa da ação, faz parte da orientação moral dos nossos
governantes, são comportamentos que podem ser descritos. Entretanto, não se
deve entender a ética somente como uma ciência descritiva, ela também é,
fundamentalmente, prescritiva, ou seja, toma como objeto os julgamentos humanos
classificando-os como bons ou maus, definindo quais ações efetivamente podem
ser qualificadas com o valor da virtude moral.
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A foto mostra que a chuva não
tem problema com o teto do ônibus. |
Por
essa razão, o próprio Spinoza, na última parte da obra supracitada, pretende
demonstrar quais os poderes nossa mente tem para “(...) refrear e regular os
afetos”, pois assim ver-se-á o quanto o “sábio é mais potente que o ignorante”
(Ibidem, Parte V, prefácio). Dessa forma, ao tomarmos os costumes de
nossos governantes sobre o ponto de vista prescritivo podemos classificá-los
como antiéticos e reprováveis porque refletem pontos negativos referentes à
política municipal para o transporte público que marcou consideravelmente a
gestão de Marcelo Déda, prolongou-se pela administração do prefeito Edvaldo
Nogueira e, como se percebe, continuará com João Alves Filho a atormentar a
vida dos usuários, em sua maioria, trabalhadores e estudantes. Ou seja, o
problema do transporte público em Aracaju é antigo, falta vontade política de resolvê-lo,
sobretudo, quando a proposta do aumento da tarifa deixa de lado a discussão
mais séria que deve envolver toda a sociedade e que versa sobre como a
população avalia o transporte e como ele deve ser melhorado. É antiético sancionar
um aumento dessa natureza e deixar de lado essas questões, assim não se faz
política, mas negócio. Aprofundemos então essa qualificação valorativa de
nossos governantes.
Em
primeiro lugar, o aumento é antiético não efetivamente pelo valor cobrado, mas pelas
reais condições do sistema de transporte público da cidade que são péssimas e
deficientes de quaisquer estruturas para atender de forma digna o cidadão. Os ônibus, em sua maioria, desculpem-me
leitor pelos termos chulos, são latas velhas sobre rodas evacuando poluentes pelo
escapamento, quando chove molha quem está dentro, quando faz sol permanecer no
ônibus é um problema! Além disso, esses veículos também possuem a rotina de atrasarem
sempre, porque a frota não suficiente e nem existe rigor nos horários dos mesmos
para servir adequadamente aos usuários, sobretudo, aqueles que possuem
dificuldades de locomoção: o debate sobre a acessibilidade é urgente e deve
estar incluso na pauta de discussão sobre as melhorias do sistema de transporte
público. Aliado a tudo isso, falta capacitação adequada aos funcionários das
empresas, dos motoristas e cobradores até as pessoas que trabalham nos terminais
da cidade. Terminais esses que, além de mal sinalizados, com os banheiros
imundos, e sem um número suficiente de agentes para auxiliar o usuário sobre
possíveis dúvidas, padecem com assaltos e arrastões, tamanha a falta de
segurança e descaso do poder público. Esses fatores depreciativos acarretam
transtornos infindáveis para a população como: a superlotação, o incômodo de esperar
dezenas de minutos em (des) abrigos espalhados pela cidade, a sensação de
insegurança, o desrespeito corriqueiro vivenciado pelos usuários, entre outros
inconvenientes. Tais fatores negativos nunca foram resolvidos pelos governos
que se alternam no controle do poder executivo municipal de maneira circular.
Entretanto, os aumentos na tarifa são frequentes, mesmo contrariando a opinião
do povo que os elegeram como representantes. Em casos dessa natureza, nossos
governantes parecem seguir a máxima do tirano Creonte da Antígona de Sófocles para quem a cidade “pertence a quem governa” (2010,
p. 56), mesmo que a lei a ser erigida seja demasiadamente injustiça.
Em segundo lugar, os benefícios e as modernizações do sistema parecem ser levados a cabo para agradar aos donos das empresas, aos empresários que controlam o transporte público da cidade, ao invés do povo, que é quem, de fato, mereceria a atenção do poder governamental. Afinal, cadê a tão famosa licitação de ônibus novos, propagandeada por diversos governos? Cadê os veículos com ar-condicionado? Cadê a regularização dos horários, o maior número de oferta de linhas? Cadê, enfim, senhor prefeito e vereadores, o termino das superlotações que tanto desagrada à população? Como todos sabem, essas medidas tão desejadas pelos cidadãos não serão implementadas pelos gestores municipais em curto prazo. Não há vontade política para tanto! Por sua vez, na última eleição municipal (2012), o debate a respeito do VLT (Valadares Filho) e BRT (João Alves) deu a linha de muitos dias de discussão nos programas eleitorais dos candidatos mais cotados para assumirem a Prefeitura de Aracaju. Ao final das eleições, ninguém mais fala de VLT e BRT, e a discussão séria sobre a mobilidade urbana que vem sendo propagada pelos militantes do movimento Não Pago continua a ser velada pela grande mídia sergipana que assume o papel ideológico de determinar as ideias necessárias à manutenção das relações sociais existentes. No entanto, esses grupos políticos que sempre estiveram à frente do governo municipal continuarão a enfatizar que as coisas estão melhorando, que medidas estão sendo pensadas... Sobre isso, tomando emprestada as palavras de Karl Marx na Ideologia alemã, a categoria empresarial repete sem cessar “(...) com a mais cândida ingenuidade suas velhas e pretensiosas fraseologias (...) reunamos, então, palavra por palavra, as peças documentais” (2007, p. 25-6) e veremos o que efetivamente a população ganha com todas essas fraseologias de políticos interessados e empresários gananciosos. A resposta é simples: 8,88% de aumento na tarifa.
Em segundo lugar, os benefícios e as modernizações do sistema parecem ser levados a cabo para agradar aos donos das empresas, aos empresários que controlam o transporte público da cidade, ao invés do povo, que é quem, de fato, mereceria a atenção do poder governamental. Afinal, cadê a tão famosa licitação de ônibus novos, propagandeada por diversos governos? Cadê os veículos com ar-condicionado? Cadê a regularização dos horários, o maior número de oferta de linhas? Cadê, enfim, senhor prefeito e vereadores, o termino das superlotações que tanto desagrada à população? Como todos sabem, essas medidas tão desejadas pelos cidadãos não serão implementadas pelos gestores municipais em curto prazo. Não há vontade política para tanto! Por sua vez, na última eleição municipal (2012), o debate a respeito do VLT (Valadares Filho) e BRT (João Alves) deu a linha de muitos dias de discussão nos programas eleitorais dos candidatos mais cotados para assumirem a Prefeitura de Aracaju. Ao final das eleições, ninguém mais fala de VLT e BRT, e a discussão séria sobre a mobilidade urbana que vem sendo propagada pelos militantes do movimento Não Pago continua a ser velada pela grande mídia sergipana que assume o papel ideológico de determinar as ideias necessárias à manutenção das relações sociais existentes. No entanto, esses grupos políticos que sempre estiveram à frente do governo municipal continuarão a enfatizar que as coisas estão melhorando, que medidas estão sendo pensadas... Sobre isso, tomando emprestada as palavras de Karl Marx na Ideologia alemã, a categoria empresarial repete sem cessar “(...) com a mais cândida ingenuidade suas velhas e pretensiosas fraseologias (...) reunamos, então, palavra por palavra, as peças documentais” (2007, p. 25-6) e veremos o que efetivamente a população ganha com todas essas fraseologias de políticos interessados e empresários gananciosos. A resposta é simples: 8,88% de aumento na tarifa.
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| Um dos famosos (des) abrigo de ônibus em Aracaju. |
No
entanto, a modernização do transporte público, em partes, foi efetivada pelo
município, porém, ela agrada muito mais aos empresários de que aos usuários.
Digo isso em respeito à implantação da bilhetagem eletrônica lançada no ano de
2007 com um custo de aproximadamente R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais)
conforme o prefeito Edvaldo Nogueira anunciou à imprensa aracajuana em 13 de
junho de 2007 (basta consultar os jornais e matérias na internet desse período).
Todo esse dinheiro gasto visou modernizar o sistema, mas também acabar com os
tão indesejados cambistas que negociavam tickets
de passagem a um preço mais barato que o valor oficial. Porém, por que não
gastar 6.000.000, 00 para melhorar a estrutura de algo que afeta mais a
população, ao invés de empregar para acabar com os cambistas? Se ao menos a
bilhetagem eletrônica fosse implementada junto com a concepção de integração
temporal, na qual o usuário pode trocar de ônibus fora de um terminal sem pagar
nova passagem. Mas, essa media que certamente agradaria à população e
complementaria o sistema de integração espacial adotado em Aracaju foi
simplesmente deixada de lado, afinal ela não agrada aos empresários, e os
políticos, ao que parece, seguem a cartilha deles, não é à toa o poder e as
atribuições de fiscalização concedidas ao SETRANSP em detrimento da SMTT de
Aracaju que seria o órgão mais apropriado para esse tipo de atividade.
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| O transporte além da capacidade é algo corriqueiro, mas o poder público...! |
Com
feito, muito tem que ser discutido e realizado sobre o problema do transporte
público na cidade de Aracaju, sobretudo, porque a cada dia mais veículos
particulares competem por espaço nas vias estreitas da cidade, dividindo-as com
os ônibus que não possuem faixas exclusivas para deslocamento. O aprofundamento
dessa situação tem tornado o trânsito de Aracaju em um verdadeiro pandemônio.
Por conseguinte, é necessário que a sociedade civil se organize e reivindique
aquilo que nos discursos pomposos os políticos sempre estão a afirmar de si
mesmos e a negar dos adversários, em poucas palavras, é preciso que cobremos
uma verdadeira postura ética frente aos problemas que afetam a comunidade,
nesse caso é necessário uma postura ética frente ao problema do transporte
público. Fiquemos de atalaia!




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