sexta-feira, 16 de julho de 2021

FANÁTICOS E POMBOS: O ATEÍSMO É DO PRÓPRIO HOMEM

 Antonio Fischetti 1




    O homem não é o único que pode crer em uma entidade superior. Os animais também têm esta capacidade: é o chamado “pensamento mágico” e isso é um jeitoso condicionamento. Todos bestas, dirão!

    Contrariamente ao que poderíamos crer, a religião não é própria do homem. A prova é que é possível tornar um pombo crente. Peguem um pombo (mas isso vale também para outros animais), esperem que ele levante por acaso a pata direita (por exemplo), e deem a ele um grão agora. Esse pombo rapidamente levantará a pata direita quando tiver fome. Isso se chama condicionamento. Mas qual relação com a religião? Bem, pode-se aí ver as premissas de um “pensamento mágico” que consiste em crer na existência de um poder que permite realizar seus desejos, mesmo a despeito de toda ação lógica (no caso, obter um grão levantando a pata).

    É possível imaginar o mesmo cenário na humanidade. Imaginemos um homem pré-histórico que foi à caça. De repente, ele maquinalmente arranha a testa. Logo em seguida, descobre um belo auroque (2) oferecendo-se à sua lança. Sem dúvida de que, em suas próximas partidas à caça, ele arranhará a testa esperando ter essa sorte. Pelo mesmo princípio, ele poderá também dançar para chamar a chuva, ajoelhar-se perante o sol para não ter mais dor de dente ou lançar a cabeça contra uma parede da gruta para encontrar uma mulher...

   Certamente, isso é ficção. Em todo caso, a superstição é um fenômeno aparentemente natural, já que é vista também nas crianças. Você mesmo, você nunca disse na escola primária: se eu pulo um vidro andando sobre um azulejo, eu terei uma boa nota no teste de matemática? Felizmente, este pensamento mágico é compensado pela necessidade de compreender, igualmente visceral. Todas as crianças passam por um estado em que perguntam sempre “por que”? Os pais e professores tentam trazer explicações.

    Mas os curas, os rabinos ou os imames (3) respondem “porque”... Admito que o paralelo é um pouco ousado, mas isto me faz pensar na frase de Primo Levi: “aqui não há porquê”. A religião é o aprisionamento do pensamento. O saber libera – em todo caso, ajuda a viver: para comer, as leis da agricultura são mais úteis do que as orações...Mas o saber tem uma falta: cada “porque” encerra uma dúzia de outros e daí não se sai jamais. Inversamente, a religião limita o horizonte, mas conforta mesmo não dando nada de concreto.

    É o que diferencia o crente humano do pombo: este último cessará rapidamente de levantar a pata se não obtém mais grão como recompensa de seu gesto. Já o crente continuará a orar mesmo se não receber nada em troca... (e ele pensa bem mais alto, questão grão: esperando a vida eterna, é como um pombo que levantaria a pata na esperança de uma guloseima mística que pombo algum jamais viu). A religião não demarca o humano do animal mas, ao contrário, ela o leva a um estado arcaico do pensamento, que o subjuga ainda mais do que uma criança supersticiosa ou do que um pombo condicionado.



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1 Tradução livre de Marcelo Primo. Texto postado na internet no dia 6 de novembro de 2019 no site charliehebdo.fr e impresso na edição 1424 de 2019 do Charlie Hebdo.

 2 O auroque também conhecido como aurochsen ou uruz é uma espécie de bovino selvagem extinto que habitou a Europa, Ásia e norte da África. É considerado o ancestral do gado doméstico, tornando-se extinto em 1627, quando os últimos espécimes morreram na Polônia (N. do T.) 

3 Termo com três significados: 1) Título atribuído ao sacerdote muçulmano responsável pelas preces numa mesquita; 2) esse sacerdote; imã; 3) Título dos sucessores de Maomé, guias ou líderes espirituais de uma comunidade islâmica, utilizado para designar aqueles que se consideram os líderes dos muçulmanos (N. do T.)


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