(Foto: Marcos Vieira)
Talento é bom e faz bem, é algo inegável a
sensação que temos ao ver um bom filme, ou assistir uma boa aula, ou ver um bom
espetáculo, perdura por horas, às vezes por dias e a recíproca também é verdadeira,
quando nos deparamos com um lixo estético, às vezes ficamos chocados por dias.
Em Sergipe, o
menor estado do país, essas dicotomias são gritantes, tão óbvias, que vão desde
a mais fina flor da produção estética ao mais baixo clichê copiado dos mais
chulos padrões. Acho que essa dicotomia é o que de fato pode se considerar
“Sergipanidade”.
Fala-se muito no
termo, eu paulistana de nascimento e sergipana de fato, nunca entendi muito bem
o que é a tal “Sergipanidade”, sei que o sergipano é provinciano, mas ao mesmo
tempo é muito tolerante, o que torna o sergipano um ser extremamente
cosmopolita. Sei que ser sergipano é ser carola, e ao mesmo tempo é ser
ecumênico, sei que ser sergipano é ser da roça, mas, sem deixar de ser litorâneo,
ou seja, ser sergipano é ser uma grande contradição.
Você leitor,
nascido e criado no Estado de Sergipe, não entendeu muito bem o parágrafo
acima? Deixe me esclarecer:
O sergipano é
provinciano? Provavelmente você conhece alguém que eu conheço, ou você já
namorou alguém que eu conheço, ou você é vizinho de alguém que eu conheço. Se
eu falar algo de alguém, provavelmente estarei falando de algum parente
distante seu, ou quiçá até próximo, como diria Gilberto Amado, cuidado com o
que se fala nessa terra porque Sergipe é um incesto! Ou seja, esta proximidade
toda entre as pessoas torna as relações todas muito pessoais, não há
profissionalismo nem formalismo de fato uma vez que todos se conhecem.
Apesar de toda
esta proximidade, há uma tolerância social neste Estado que eu nunca vi em
outro lugar do planeta, e olha que eu conheço uma quantidade significativa de
lugares deste planeta, por incrível que pareça, o sergipano tolera!
Homossexuais frequentam casas de famílias religiosas super tradicionais assim
como espíritas e evangélicos se dão até bem, eu sou a prova viva disso,
frequentadora de candomblé tive minhas melhores amigas da escola oriundas da
Igreja Batista, e até hoje nos damos extremamente bem, isso em São Paulo eu
nunca vi, nem vivi. Uma prova que dentro de seu provincianismo o sergipano é
cosmopolita.
Sergipano é
carola? Imagina... É só vir aqui do lado da minha casa todo santo dia na igreja
Nssª Srª do Carmo para comprovar como a missa é mais concorrida que abadá do
pré-caju, dos 8 aos 80 anos de idade o sergipano adora missa! Mas caro leitor,
dê uma visitadinha nos terreiros de umbanda, nas cartomantes, nos carurus de
Cosme e Damião, nas festas de Iemanjá, na lavagem da catedral, nos centros de
terapia holística, nos centros espíritas para ver como a clientela é a mesma! O
que prova, o sergipano é ecumênico por essência!
Sergipano é da
roça, é sertanejo? É só aparecer uma festa no interior, uma vaquejada, uma
corrida de jegue, uma cavalgada para a capital esvaziar, e o nosso café típico?
Café sertanejo! Cuscuz, macaxeira, carne. E o nosso carnaval na verdade é o São
João. Mas ao mesmo tempo, sergipano não dispensa de se vestir na melhor beca
pra quebrar o típico caranguejo, costume bem litorâneo.
Mas talvez em
nenhum outro setor a contradição da tal “Sergipanidade” se revele tão
claramente quanto no que eu atuo: o setor artístico.
Ao mesmo tempo
em que convivemos com Caã, Veio, Ará, Unidos em Asa Branca, Renantic, Cezar
Leite, Pithyu, Respire e Conte Até 10, Almanaque, A Opera do Milho, Brincando,
Erivaldo de Carira, Scarlet Peace, Fábio Sampaio, Pioneiros da Roça, Zé Rozeno
e Marluce, Karne Krua, Nino Karva, Patrícia Polayne e uma série de outros
artistas e produtos culturais de excelência que manteriam seus méritos
artísticos e estéticos aqui ou em qualquer outro lugar do planeta, somos forçados
a conviver no mesmo ambiente com uma enxurrada de produção artística que beira
e muitas vezes extrapolam a barbárie estética. Eu não estou me referindo apenas
à indústria cultural que controla as bandas de forró e arrocha, não, essas me
incomodam muito menos do que os produtos culturais oriundos de clichês
arrogantes e ultrapassados de vanguardas defuntas dos anos 60 e 70, que de
fato, dentro da contemporaneidade, só encontram lugar na província.
E agora, querido
leitor, pobre de mim! Como “Sergipanidade” é essa grande e imensa contradição,
haja aguentar a gangorra estética do deleite das obras de J. Inácio ou da
delícia que é assistir a Unidos em Asa Branca e ao mesmo tempo me retorcer de
desgosto ao vislumbrar atitudes artísticas pretensamente revolucionárias que,
dentro das elucubrações mentais de meus colegas, mudarão por definitivo, a
partir de Aracaju, todos os paradigmas da arte universal ao mostrar a bunda no
palco, gruir como um animal selvagem durante um texto poético, ou expor um
monte de fezes em uma galeria de arte sob o título de “experimentação
existencial nº 7”.
Mas fazer o quê?
Essa é a tal “Sergipanidade”.
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