Saulo H. S. Silva[1]
O conhecimento acerca
da natureza política e social da vida humana possui uma particularidade que
outras áreas do saber não possuem. Seu objeto é como uma peça teatral onde os
atores são simultaneamente os espectadores. Cada espectador assimila a
realidade política de uma determinada maneira e essa forma de absorção
influencia o seu modo de agir. Por sua vez, a totalidade das perspectivas de
todos os espectadores de uma sociedade política está fracionada em diferentes
níveis de consciência e interação com a realidade objetiva. No Brasil, a
discrepância entre os níveis de consciência política está refletida nos debates
das opiniões difundidos pelos veículos de comunicação e redes sociais. É nesse
cenário que as tentativas de universalizar determinadas (des) informações, por
meio do apelo midiático ao público mais inocente, sufocam toda dissidência, rompem
com a veracidade do discurso e acabam por fazer ruir a própria possibilidade da
democracia.
Se desejardes
compreender as questões políticas de seu tempo por meio de um olhar mais
razoável e menos propício às alucinações de certos discursos, tenha sempre em
mente que a política real, no alvoroço de sua contínua efetivação, também deve
ser compreendida tendo em vista os atos de fala presentes nos argumentos dos
participantes desse grande teatro. A política efetiva é como uma trama cujo
enredo se desenvolve por meio da atuação de todos os tipos de atores e espectadores;
alguns são mais habilidosos, outros mais honestos e muitos não sabem o que são.
Nas repúblicas democráticas e liberais, onde o conceito de cidadania é a
exaltação da individualidade e a fragmentação da consciência moral, o problema
se instaura justamente nas personagens que não realizaram completamente o ideal
de individuação e análise crítica da realidade. Tais personagens são as mais
propícias às vicissitudes do discurso falso. Consequentemente, esse
ator-espectador assimila e difunde uma determinada opinião política, ou de
repercussão social, usando uma linguagem vaga e mal formulada a qual poderíamos
denominar de retórica frágil. Dessa forma, a razoabilidade do discurso se
esvazia e todo debate é nivelado à balança do senso comum, que tem um caráter
massificador.
Em A democracia contra ela mesma (2002), o filósofo francês Marcel
Gauchet tem defendido que “a privatização [...] caminha junto com uma
massificação dos comportamentos e dos modos de vida. Os direitos do homem, de
um lado, mas nada de sujeito autônomo do outro lado para exercê-los: tal parece
ser a fórmula, na direção da qual se dirigem nossas sociedades” (2009, p. 53).
A massificação da retórica frágil em uma sociedade que deveria ser regida pelo
pulular de individualidades não seria um modo pelo qual a democracia acaba por
sabotar a si mesma? Sobre essa questão, é razoável responder que a imposição do
discurso falso desempenha um papel importante no aprofundamento da corrupção entre
os cidadãos, para os quais as virtudes políticas passam a ser compreendidas
como uma façon de parler [maneira de
falar]. No contexto político brasileiro,
os sintomas dessa fragilização semântica são facilmente identificados quando os
diversos casos de corrupção que têm seguidamente desestabilizado a república
são justificados pelos porta-vozes do governo fazendo uso do discurso
divorciados da realidade. Assim, o ato de fala nunca é performativo porque não
se impõe na realidade haja vista a ação ordinária já anular a fala, e
vice-versa. Quando essa situação ganha o relevo de um fenômeno de massa
alimentado por aparelhos ideológicos responsáveis pela imposição dos falsos
discursos, a crise derivada da massificação da opinião mal formulada
corresponde à degeneração da própria sociedade democrática.
Um exemplo dessa
retórica frágil diz respeito à querela entre os apoiadores do governo da
Presidente Dilma Rousseff (PT) e a crítica oposicionista oriunda de setores
mais conservadores da sociedade e de membros do próprio governo.
Frequentemente, os sujeitos que participam desse enredo têm elencado argumentos
divorciados da realidade, mas por serem repetidamente difundidos por certos
aparelhos ideológicos ou pessoas mais qualificadas acabam por abusar da
ignorância de muitos. Insistentemente, a oposição acusa o governo do PT de
promover a usurpação do patrimônio público em casos e mais casos de fraudes,
mensalões, lobbys, pedaladas... Ao
passo que, por deixar de levar em conta os diversos casos de corrupção, de
liquidação desse mesmo patrimônio durante a administração de partidos da
oposição capitaneados pelo PSDB, DEM e parte do PMDB, essa oposição pragmática
fornece os elementos para a contra-argumentação dos defensores do governo. Se
esses fatos fossem transformados em demonstração geométrica, o conjunto
representando a verdade estaria vazio. As premissas de ambos os discursos não
formam um silogismo válido porque o termo médio se repete na conclusão; dos
dois lados existem casos de corrupção e esse fato torna a disputa uma mera
querela para saber quem levou a cabo e quem continuou os desmandos. E o final
de 2015 ainda revela outras lições da retórica frágil. Inicialmente, com a informação
de que o líder do PT no Senado, preso recentemente, na verdade era tucano. Caso
espantoso de dupla filiação! Do mesmo modo, os discursos de sequazes do governo
sobre a importância do PMDB para a governabilidade tende a escamotear o fato do
próprio PMDB trabalhar para destituir a presidente e tomar para si, não só o
Parlamento e a maioria dos ministros, como também a própria titularidade da
presidência.
Com efeito, da mesma
forma que os meios de comunicação deste século têm possibilitado uma verdadeira
revolução no que concerne à democratização da divulgação de informações, esses
mesmos meios de comunicação promovem a imposição do discurso mais frágil, do
gosto mais dúbio. Por conta disso, devemos desconfiar da afirmação de
Aristóteles segundo a qual “na maioria das vezes um grupo julga melhor que uma
única pessoa” (Política, 1286b).
Um modelo que combina a discrepância da consciência política com a constante
tentativa de impor opiniões por meio de argumentos vulgares não poderia deixar
de fornecer os elementos para a perpetuação da desigualdade. E apesar da
retórica frágil não estar limitada a uma classe social, a constante acentuação
das desigualdades no atual nível do capitalismo brasileiro, cuja moda é fechar
escolas públicas, sempre arrebentará a corda do lado mais fraco e a razão mais
frágil, em suas diversas facetas, mais facilmente será imposta como a verdade
de fato.
http://www.ufs.br/conteudo/ret-rica-fr-gil-democracia-brasil-18160.html
http://www.tribunadapraiaonline.com/news/saulo-sou-retorica-fragil-e-democracia-no-brasil/
[1]
Doutor em
Filosofia, Professor do Colégio de aplicação da UFS, Pós-doutorando em
Filosofia pela USP.

Um comentário:
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