Saulo
H. S. Silva[1]
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| [Detail from Corrupt Legislation (1896) by Elihu Vedder. Library of Congress Thomas Jefferson Building, Washington, D.C.] |
Quando pensamos em política e falamos de corrupção, não devemos compreender apenas os desvios de dinheiro. O problema é muito mais grave! Na verdade, é como se houvesse um éthos da corrupção; em outras palavras, um costume social abjeto generalizado na sociedade. Se essa orientação está correta, os veículos de comunicação sempre serão utilizados como aparelhos ideológicos promotores da parcialidade. O sistema econômico e o sistema financeiro também farão parte dessa prática degenerada ao compreender a política como um grande negócio, no qual devem fazer apostas bem precisas para continuar obtendo lucros e dividendos. Sendo um éthos generalizado, é obvio que a política estará afundada em relações dessa natureza porque este é o caráter da coisa. Ora, em um cenário dessa natureza, onde os valores estão invertidos, a desesperança é inevitável e a luz no fim do túnel cada vez mais é ofuscada pelos sucessivos escândalos.
Infelizmente,
o Partido dos Trabalhadores (PT) não tentou mudar esse éthos, apesar de ter defendido a virtude moral (êthos) na política por tanto tempo. São
razões inexoráveis que têm possibilitado essa conclusão. Pessoas de caráter
ignóbil foram alçadas ao alto escalão do partido, como o próprio sicofanta Delcídio
do Amaral, ex-líder do PT no Senado. Além disso, foram realizados acordos
horrendos com gente da estirpe de Paulo Maluf e Fernando Collor. O partido se
rendeu ao sistema político e empresarial brasileiro, o mesmo que por tanto
tempo perseguiu o próprio Lula e o PT. Suponho que, nesse enredo todo, a cúpula
dos governos petistas acreditou piamente que poderia continuar no poder prestando
favores aos grandes e acenando ao povo para torná-lo cada vez mais pacífico. O
povo quer muito pouco, basta não oprimi-los e eles sempre manterão uma grande
fidelidade, mas os grandes .... Esses são difíceis. Pois, mesmo com todas as
concessões feitas pelo PT ao grande sistema, — não esqueçam que enquanto os
salários dos trabalhadores são achatados por impostos e inflação, os banqueiros
vêm tendo recordes de arrecadação — os grandes desejam oprimir o povo e nunca
engoliram o governo de acenos do PT. Como Maquiavel já dizia, "não se pode
satisfazer honestamente aos grandes [...]". Dessa forma, enquanto a
desprezível política de conciliação de classes estava sendo implementada a todo
vapor, os trabalhadores em geral esperavam mais do PT. Ao menos uma tentativa
de mudança verdadeira nas estruturas do poder. No entanto, ficaram as migalhas
das bolsas sociais e do maior acesso à universidade, entre outras coisas que, mesmo
importantes, são inúteis para provocar as verdadeiras transformações.
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| [A aliança do PT com o PP de Paulo Maluf na disputa eleitoral de São Paulo (2012), representa uma contradição à postura histórica do partido] |
Se não
bastasse esse envolvimento do Partido dos Trabalhadores com aquele sistema
deplorável, sempre combatido pelo próprio partido antes de assumir o governo
federal, o que chamou a atenção nas reações dos defensores de Lula e do governo
fora a ênfase em um argumento antirrepublicano. Intelectuais, artistas e gente
menos conhecida desenvolveram uma espécie de republicanismo seletivo
inaceitável, cuja premissa basilar era a de que um ex-presidente não deveria
ser tratado daquela maneira desrespeitosa. Ou seja, um ex-presidente é mais
cidadão que um cidadão que não foi presidente. Assim, está aberto o precedente
para o estabelecimento de distinções sociais fundamentadas na importância do
cargo ocupado. Nada mais antirrepublicano que a defesa de uma república
seletiva. Para as diversas pessoas que argumentaram dessa maneira, é preciso
esclarecer que os ditos direitos civis dos brasileiros já foram esquecidos há
muito tempo. Diria mais, eles nunca existiram para a grande parcela da
população. Perguntem ao povo pobre das periferias do Brasil! Quando a
característica basilar de um regime efetivamente republicano corresponde à
igualdade de todos perante a lei, a maneira como a condução coercitiva de Lula
pela Polícia Federal foi combatida constituiu-se em uma verdadeira hipocrisia.
Precisamente, é essa espécie de ideologia fraudulenta que tem aumentado a
desesperança do cidadão com os ventos que têm conduzido o país.
Por fim, é evidente que existe uma parcialidade
na justiça brasileira quando o assunto envolve a corrupção política. Está claro
que outros casos igualmente graves não têm a mesma atenção da justiça e da
mídia, como ocorre quando os desmandos são cometidos por gente ligada ao
Partido dos Trabalhadores. Talvez por isso, tenho
visto tanta declaração contra a mídia e a oposição política golpista. Muita
gente bem intencionada tem compreendido nesse imbróglio a repetição da
história. De fato, é possível que a história esteja a se repetir. Mas, para que
não retornemos de maneira indefinida, se faz necessário solapar as bases desse
círculo histórico abjeto. E foi justamente isso que os governos capitaneados
pelo PT nunca tentaram fazer.
[1]
Doutor em
Filosofia Política, Pós-doutorando em Filosofia pela USP. Professor do Colégio
de Aplicação da UFS. Em 2014 lançou o livro Tolerância
civil e religiosa em John Locke (EDUFS).


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