terça-feira, 10 de maio de 2022

O OVO DA SERPENTE

Por Marcelo Primo  

(Professor da UFS)



Dentre a torrente de episódios cotidianos lamentáveis que estão acontecendo por todo o Brasil motivados e associados ao nazismo, vem-me à cabeça um filme que, nos momentos atuais, deve ser revisitado: a saber, O ovo da serpente, de Ingmar Bergman. Por vários caminhos e temas, podemos fazer uma clara associação à ascensão clara e grotesca de nazistas brazucas: fracasso industrial, desemprego, fome, enfraquecimento das instituições, inflação crescente, impunidade de assassinos, fanatismo religioso e político e propaganda xenofóbica/racista. A lista poderia estender-se cada vez mais dos resultados de ações oriundas de uma crise de identidade que assola o nosso país, traduzida por uso de suásticas e artefatos remetentes a um episódio desumano da história que jamais será esquecido: a Alemanha de Hitler. Uma coisa é certa: nunca procederá a acusação de que faltaram avisos para o perigo iminente da escalada vertiginosa do autoritarismo no Brasil e aqui cabe uma fala do filme supracitado através do personagem Hans Vergerus: “[...] qualquer um que fizer o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como um ovo de serpente. Através das membranas finas pode-se distinguir o réptil já perfeitamente formado”. Vaticínio cinematográfico que vai na jugular daqueles que ainda fingem não ver o que está acontecendo...

Assim, somos instados a pensar em quais fatores políticos, sociais, econômicos e psicológicos que serviram e ainda servem para a tentativa de implementação de um peculiar e repugnante Reich neoliberal brasileiro. Mais do que isso, faz-se necessário investigar minuciosamente, por exemplo, quais sintomas característicos de uma sociedade que caminhas a passos largos para o autoritarismo e se isso é algo tão sutil e imperceptível que só o percebemos quando se realiza plenamente.  Quando Bergman traça e denuncia esses sintomas, ele se sensibiliza com o clima social da república de Weimar à época da pretendida reconstrução da Alemanha e permite traçarmos um paralelo com o nosso próprio clima político iludido por um discurso militarista salvador, calcado no falso moralismo, na volubilidade de humores, na ameaça de golpes políticos, e sem o menor sentimento de culpabilidade pelo estado de coisas presente.

 Em seus Estudos sobre a personalidade autoritária, Adorno nos dá a chave para a leitura da ascensão do nazi-fascismo no Brasil. Estamos sob as malhas de um discurso supremacista, amparado na valorização da violência como elemento regenerador da ordem e dos bons costumes, no terror policial organizado vigiando panopticamente os inimigos do regime, investidas contra partidos políticos que pensam diferente, projeção imaginária e paranoica de uma identidade nacional e mobilização sucessiva da sociedade civil advinda de uma simbiótica relação entre irracionalidade e racionalidade que todo regime totalitário comporta e representa. Dessa maneira, a nossa triste experiência histórica atual é o signo manifesto da atualidade e atemporalidade de O ovo da Serpente: determinadas ideias são engendradas por uma sociedade polarizada, que crê cegamente que a raiz de todo o mal está naquilo que é diferente e na liberdade individual alheia, cultuando líderes e segregando quem discorda do infame projeto de, com mão forte, “salvar” a nação brasileira.

          

            

          

 


Um comentário:

Ewerthon Vieira disse...

Está aqui, logo ali e aculá. Não falta mais nada, pois já estamos em curso no colapso da racionalidade e ascensão delirante dos sem pudor, mas quase nunca sem Deus e Pátria. Reflexão que toma sentido de urgência, Marcelo. Parabéns pelo texto!

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