quinta-feira, 26 de novembro de 2020

EU SOU PROFESSOR, EU SOU SAMUEL!

Por Marcelo Primo 


Foto de manifestante na França 


     Em seu livro Nada é Sagrado, tudo pode ser dito1, Raoul Vaneigem faz questão de afastar qualquer ambiguidade quanto à tese principal que norteia toda a obra: a liberdade de expressão concedida à humanidade nunca foi, não é e nunca será sinônimo de credenciar qualquer prática desumana. Tolerar todas as opiniões equivale intolerar irredutivelmente barbáries de qualquer espécie. Nesse sentido, o direito de tudo escrever, pensar, ver e ouvir é consequência de uma exigência anterior: não existe direito à tortura, à matança, a maus tratos, a opressões, a constrangimentos, a privações, a explorações, e aqui especificamente, a decapitaçõesA suposta liberdade de predação é um sem sentido grotesco que deve ser erradicado em nome de uma urgente humanização. 

        Contudo, o que menos observamos foi humanização no lamentável episódio na França que envolveu o professor de história de 47 anos chamado Samuel Paty, decapitado no meio da rua, perto da escola onde trabalhava. Motivo: após mostrar charges de um jornal humorístico em uma aula justamente sobre liberdade de expressão, o que faz imediatamente vir à memória que o próprio jornal supracitado já tinha sofrido um atentado em maiores proporções resultando em 12 vítimas do extremismo religioso2O professor avisou aos alunos que se sentissem incomodados para saírem da sala, um deles ficou para assistir e transmitiu o conteúdo da aula para os seus pais. O pai do aluno emitiu um decreto religioso específico contra infiéis, sendo seguido por um jovem de 18 anos que já tinha postado anteriormente fotos de decapitação em suas redes sociais.  Esse é um exemplo evidente de que as plataformas digitais tornaram-se o campo privilegiado da disseminação do ódio, colocando este episódio brutal na cronologia recente de atentados ao livre pensamento.  

          Spinoza já nos dizia há quase 400 anos atrás em seu Tratado Teológico-Político: ninguém pode transferir para outrem o seu direito ou faculdade de raciocinar livremente e ajuizar sobre o que for. Um poder que negue aos indivíduos a liberdade de dizer e de ensinar o que pensam será um poder assentado na violência. Mais do que isso, o fim do Estado é a liberdade, garantindo que a mente e o corpo dos indivíduos exerçam em segurança as suas respectivas funções e capacidades, dando livre curso à razão e que não disseminem entre si a discórdia e a intolerância. Em vez dos incomodados usarem os meios legais para defenderem-se de afrontas ignominiosas, preferiram decapitar o corpo do professor e, por metáfora, decapitaram o pensar agindo por suas próprias leis.  

     Em nome dos intelectuais, fica a lição da última lição de Samuel Paty: nos tempos atuais, ensinar é arriscar-se, pois agora não eliminam mais somente as obras, mas também os autores. Todavia, sigamos sempre, pois nunca irão nos calar.  


Notas

1 VANEIGEM, Raoul. Nada é sagrado, tudo pode ser dito: reflexões sobre a liberdade de expressão. Trad. de Marcos Cionilo. São Paulo: Parábola Editorial, 2004, 100p. 

2 Sobre o que um estado verdadeiramente laico poderia fazer para combater esse atentados, ver o texto “Morte ao medo islamita”, in: Charb: pequeno tratado de intolerância. Trad. de Jorge Bastos. São Paulo: Planeta, 2015, p. 272-274.

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