segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

O VÍRUS DA BARBÁRIE

Marcelo Primo 


Gravura de autor desconhecido. 


Inaugurando o seu célebre Discurso do método, Descartes faz uma afirmativa, no mínimo, controversa para uma leitura do nosso cotidiano: o bom senso é o que há de mais e melhor distribuído dentre a humanidade e, mais do que isso, que ele seria congênito nas pessoas. Entretanto, dentre a torrente de negacionismos de todo tipo que vimos e ouvimos sucessivamente em todos os meios de comunicação, fica difícil nos alinharmos com a máxima cartesiana, pois o dito bom senso está passando bem longe de onde deveria estar sempre presente, mais especificamente, em discussões de cunho científico que não podem recusar a razão para tomarem resoluções urgentes de ordem prática como, por exemplo, a vacinação

.

Todos os dias, a ciência vem sendo negada por quem encabeça o governo, afirmando que quem quer se imunizar pode virar um réptil ou regurgitando crendices de ordem ideológica a respeito da origem de vacinas, gritando em alto e bom som que são contra as “Vachinas”. É importante lembrar, se recorrermos à história, que campanhas contra imunizações coletivas já vieram à tona desde os séculos XVIII e XIX entendendo a vacinação como uma falácia e despotismo médicos e perdendo a sua obrigatoriedade através da Liga Nacional Antivacinação, no Reino Unido em 1853. Tal campanha foi bastante eficaz com trabalhadores desinformados, estendendo-se ao Brasil quando foram fomentadas verdadeiras revoltas populares contra imunizações até ao ponto de, hoje, sugerirem que existem vacinas com restos de fetos. Nesse sentido, eis o bom senso cartesiano esvaindo-se diante da clara negligência em aplica-lo às coisas práticas, mesmo sendo natural à humanidade e com todo o poder de discernir o verdadeiro do falso. A certeza dá lugar a convicção cega, não levando em conta o ônus do que essa recusa da ciência pode acarretar, a saber, mortes em massa devido a mesquinhas disputas políticas em vários níveis como sobre compra de vacinas e quem tem prioridade para imunizar-se.

A crendice do Monstro da Vacinação, que comia as crianças e depois evacuava, ganha toda a sua força aqui nesta teocracia tropical. Por outro lado, agora veremos até onde os negacionistas vão com a sua descrença nos avanços científicos: simplesmente podem recusar a se vacinarem, apoiando-se em suas próprias literaturas e métodos para se protegerem desse vírus mutante e avassalador que é o do coronavírus. Contudo, negando um disseminam outro, que é o vírus da barbárie, este saltando à vista com suas táticas de desinformação, apoiando-se em autoritarismos, histerias e preconceitos sumários que podemos caracterizar como uma cegueira carola sem precedentes. 

Assim, o bom senso tão estimado por Descartes torna-se letra morta diante do absurdo aterrorizante que é a negação da ciência mesmo sem saber minimamente o que ela seja e a que fins ela se destina. Em outros termos, os que querem a liberdade de não vacinarem-se jamais pode tolher a liberdade daqueles que querem e realmente precisam.


 

Um comentário:

Anônimo disse...

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