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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

AS MEDICINAS DA FLORESTA E A DESCOLONIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL E RELIGIOSA BRASILEIRA

 Por Ivan Fontes Barbosa*


(Aplicação de rapé (foto: Lisa Leiding, 2016)


Um importante capítulo da História mundial é o processo de colonização material e simbólica do mundo não ocidental operado pelo ocidente. Este processo, inicialmente economicamente motivado, é multifacetado e a sua consolidação implicou a ativação de uma série de dispositivos culturais, que ampararam a eficácia desse empreendimento. A colonização passou pela incorporação de uma série de formas de pensar e sentir o mundo que governaram, e ainda governam, os limites e as possibilidades de os indivíduos estabelecerem uma relação com o mundo natural e social.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

A POLÍTICA E A PRESERVAÇÃO DA VIDA

 Por Saulo H. S. Silva




      Caríssimos leitores e leitoras, imaginem a condição dos homens antes do surgimento das sociedades organizadas, com posições definidas, regras mais ou menos conhecidas, trocas comerciais e com o desenvolvimento de uma série de artes e ciências que aprofundaram os laços sociais. 

    Obviamente, é possível conjecturar que nem sempre os homens viveram em sociedades com essas características descritas acima; e também é possível demonstrar tais afirmações por meio das descobertas de investigadores da história do gênero humano.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

O VÍRUS DA BARBÁRIE

Marcelo Primo 


Gravura de autor desconhecido. 


Inaugurando o seu célebre Discurso do método, Descartes faz uma afirmativa, no mínimo, controversa para uma leitura do nosso cotidiano: o bom senso é o que há de mais e melhor distribuído dentre a humanidade e, mais do que isso, que ele seria congênito nas pessoas. Entretanto, dentre a torrente de negacionismos de todo tipo que vimos e ouvimos sucessivamente em todos os meios de comunicação, fica difícil nos alinharmos com a máxima cartesiana, pois o dito bom senso está passando bem longe de onde deveria estar sempre presente, mais especificamente, em discussões de cunho científico que não podem recusar a razão para tomarem resoluções urgentes de ordem prática como, por exemplo, a vacinação

sábado, 25 de julho de 2020

UM EMPREENDIMENTO MORAL DE RODRIGUES DÓRIA: Contra usuários de cannabis

Ivan Fontes Barbosa

(DCS/UFS)

José Rodrigues da Costa Dória (1859-1938)

A medicina ocupou um papel de relativo destaque no primeiro quartel do século XX. A pesquisa de Nísia Lima e Gilberto Hochman (Condenado pela raça, absolvido pela medicina: o Brasil descoberto pelo movimento sanitarista da Primeira República) constatou que ela havia se tornado a ciência que propiciaria um alívio para intelectuais que, até então, não enxergavam alternativas para um país que parecia condenado pelos preconceitos raciais em relação à sua composição étnica. A cruzada higienista encetada pelos médicos buscou moralizar hábitos, orientar costumes alimentares e higiênicos, dominar o desvio e evitar a degeneração, justamente no contexto em que a ideia de superioridade das raças já não mais se sustentava como variável sociológica contundente para explicar as desigualdades e diferenças sociais.

O médico sergipano José Rodrigues da Costa Dória (1859-1938), nascido na cidade de Propriá pode ser considerado um importante empreendedor moral, cujo mote era a associação do uso do que ele nomeava de planta da felicidade aos setores populares negros e mestiços e a elevação ao status de verdade às suas impressões sobre as consequências morais e sociais de seu uso. Foi um ator decisivo na cruzada que estabilizou as imagens criminais e psicotrópicas da maconha em detrimento das representações farmacológicas e terapêuticas que orbitavam em torno dela no século XIX.

domingo, 19 de abril de 2020

CONTRIBUIÇÃO PARA UMA HISTÓRIA NATURAL DA PROIBIÇÃO DA MACONHA NO BRASIL

Ivan Fontes Barbosa

(Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFS) 




O que faz um tipo de carne ser objeto de apreço ou interdição e proibição? O que faz o uso de uma planta ser desaprovado ou prescrito como medicação? Esses fenômenos sociais traduzem os dispositivos sociais de construção de uma gramática que modela as ações das pessoas. Não é na natureza da carne ou da planta, e seus efeitos sensoriais sobre as pessoas, que encontramos a resposta para as representações sociais que existem e circulam acerca delas. É um axioma da sociologia que todo fato social está inscrito na história e somente nela é possível entendermos as relações de força que determinaram a emergência de certas representações coercitivas sobre o mundo social.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O BRASIL, A COVID-19 E A FILOSOFIA IGNORANTE

Saulo H. S. Silva
(Doutor em Filosofia e Professor da UFS)

Francisco Goya (1746-1828) " O Sono da razão produz monstros" 

      É parte da crise da modernidade a ideia segundo a qual a filosofia estava em estado terminal e ensimesmada em decretar o seu próprio fim. O cientificismo exacerbado, o desenvolvimento tecnológico e sua suposta inutilidade frente à dinâmica da vida contemporânea fariam da antiga mãe das ciências uma espécie de estranha no ninho. Nesse caso, a inutilidade da filosofia é outra que aquela tratada por Platão, quando Adimanto questionara a Sócrates acerca da inutilidade dos filósofos para as cidades (A república, livro VI). Aqui, a inutilidade está ligada ao desapego pelo conhecimento na cidade corrompida; no mundo contemporâneo, a inutilidade da filosofia estaria ligada à sua insuficiência frente às ciências e ao avanço da técnica, ao fim da filosofia de sistema, que a pulverizou em diversas disciplinas especializadas, e às transformações da vida social determinadas pelo par consumo-produção. A não adequação a esse ambiente parecia orientar para um cenário de saída da filosofia, de império da razão instrumental e da novidade científica orientada pelo mercado.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

VÍCIO SOLITÁRIO*


Por Joaquim Tavares da Conceição
[Doutor em História (UFBA), Professor da
Universidade Federal de Sergipe].

                                                 "Combatida nos colégios internos, a masturbação                                                           preocupava médicos no século XIX, associada a                                                            doenças e distúrbios físicos e mentais".

Ilustração da artista australiana Krista Bernna intitulada:
"A few words on the subject of onanism" (2006) .
Técnica: aquarela sobre papel.   
 Quando se apagam as luzes do dormitório, um jovem regente, responsável por vigiar os outros estudantes, toma sua posição estratégica. Enquanto finge dormir, observa atentamente as atitudes do suspeito, numa cama próxima. Algum tempo depois, começam os movimentos característicos e a respiração “frequente e suspirosa”. Está armado o flagrante. Silenciosamente, o regente levanta-se, aproxima-se da cama e surpreende o estudante no meio da manobra. Dá início, então, ao escândalo. Os pensionistas acordam sobressaltados e, sentados em seus leitos, testemunham o sermão público contra aquelas “imundas práticas”. “Confuso e envergonhado, o delinquente agradece os bons conselhos” e promete deixar para trás a masturbação.
A cena aconteceu no Seminário de Diamantina, provavelmente no início de 1860, em Minas Gerais, e foi usada como exemplo pelo médico João da Matta Machado em 1875. Ele ensinava que, se houvesse fortes suspeitas de masturbação contra um interno de colégio, deveria ser provocada a “confissão do delito” ou a acusação direta. E se esses meios se mostrassem ineficazes, não se poderia hesitar em utilizar o recurso extremo de surpreender o colegial em “flagrante delito” e expô-lo ao escárnio dos colegas. 
A prática do onanismo entre alunos de internatos era uma preocupação e objeto de estudo de muitos médicos no século XIX. Para eles, a vida reclusa contribuía para propagar e agravar a prática das “manobras secretas” entre os meninos e as meninas. Para reprimir o “terrível inimigo” entre os colegiais, os médicos indicavam um conjunto de “regras higiênicas” direcionado aos diretores dos colégios, aos professores e às famílias.
Na tese A libertinagem e seus perigos relativamente ao físico e moral do homem, publicada em 1853, o médico Marinonio de Freitas Britto registrou que a masturbação estava muito difundida entre os meninos e os moços na cidade de Salvador. Segundo ele, os indivíduos afeitos à masturbação alegavam que esta era uma forma de saciar seus prazeres sexuais sem o perigo de contraírem a sífilis. No mesmo ano, o médico Sulpício Germiniano Barroso também alertou para a prática generalizada e de efeitos assustadores que muitas vezes requeriam intervenção médica. “A julgar pela minha própria experiência, em dez masturbadores em quem a saúde se alterou imediata ou consecutivamente pode-se contar nove que se perderam no colégio ou em um internato”, reforçou em 1858 Antenor Augusto Ribeiro Guimarães. No Rio de Janeiro, João da Matta Machado dizia-se espantado, em 1875, com o desleixo dos educadores diante das “manobras secretas” entre colegiais.
Diante desse que foi considerado um problema de saúde pública, a medicina tentava fazer a sua parte. “Regras higiênicas” eram indicadas para extinguir ou prevenir o aparecimento da masturbação nos internatos. O receituário do dr. José Bonifácio Caldeira de Andrada Junior, por exemplo, recomendava: não aceitar no internato adolescente de costumes e hábitos suspeitos; proibir a leitura de livros eróticos e as conversas levianas; dividir os dormitórios de acordo com as idades (pequenos, médios e grandes); proibir o diálogo muito livre entre os alunos internos e os externos; prevenir o aparecimento precoce da sensualidade por meio de exercícios físicos; abolir alimentos excitantes; repreender ou expulsar do colégio o masturbador, segundo a gravidade do “crime”; e medicar os que necessitarem de cuidados médicos.
(Frontispício da quarta edição da obra
L' Onanisme: dissertation sur Les maldies 
produites  par la masturbation de Samuel Tissot) 
Era imperativo identificar os estudantes masturbadores a fim de reprimir, evitar o “contágio” e as consequências do “vício execrando”. A “campanha antimasturbatória” era fundamentada na moral religiosa e reproduzia ensinamentos contidos em obras de médicos europeus, como o famoso tratado Do onanismo ou das doenças decorrentes da masturbação, escrito em 1758 pelo suíço Samuel Tissot. Este tipo de literatura denunciava o prazer solitário como capaz de provocar “não apenas as piores doenças, mas também as piores deformidades do corpo e, por fim, as piores monstruosidades do comportamento”, nas palavras do filósofo Michel Foucault (1926-1984).
Influenciados por esses argumentos, os médicos brasileiros listavam uma série de danos decorrentes da prática da masturbação. Mencionavam, entre outros, a magreza, a palidez, o encovamento dos olhos, salivações abundantes, vômitos, estatura diminuída e curvada para diante. Em relação ao comportamento, os onanistas tornavam-se tímidos, melancólicos, indolentes, buscando sempre o isolamento. No intelecto, o vício ocasionaria a completa estupidez e idiotismo, resultando na incapacidade para o exercício de qualquer atividade ou profissão que exigisse a mínima concentração.
 O opróbrio (vergonha pública) completava o quadro deplorável pintado pelos médicos, como descrito de forma dramática na tese Generalidades acerca da educação física dos meninos (1846), de autoria do dr. Joaquim Pedro de Mello: “Os indivíduos, que têm a infelicidade de se lançarem a tão torpe vício (...) trazem em seu semblante, em todo o seu corpo, e tão bem em sua inteligência estampada a ignominiosa marca, que a todos denuncia a sua lastimável paixão”.
Drasticamente, os médicos também consideravam a masturbação como capaz de causar ou contribuir para o aparecimento de doenças como a tuberculose e a epilepsia. “Abusos de toda espécie, os excessos venéreos, a masturbação e a sífilis são causa de tísica pulmonar”, afirmou o dr. Candido Teixeira de Azeredo Coutinho em tese defendida no Rio de Janeiro em 1857. Da mesma forma, Miguel Antonio Heredia de Sá, em Algumas reflexões sobre a cópula, onanismo e a prostituição do Rio de Janeiro (1845), procurou explicar como se dava a manifestação da tuberculose nos indivíduos que buscavam o prazer sozinhos: as pessoas “dadas desde a tenra infância à masturbação têm o tórax acanhado e incompletamente desenvolvido, contém quase sempre, ou sempre, catarros crônicos, e afecções mais ou menos profundas do órgão pulmonar, que repetindo-se termina na tísica”.
Na tese, o dr. Heredia de Sá registra o caso de um menino epilético e já idiota pelos efeitos do onanismo. Internado no Hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, o rapaz apresentava na expressão da face “o vício e o padecer; teria ao muito doze anos; seu corpo era franzino e atrofiado, mas os órgãos genitais eram prodigiosos e tão completamente desenvolvidos como se fossem de um homem”. O dr. Sulpício Germiniano Barroso, por sua vez, estava certo de que a epilepsia era uma afecção nervosa que, apesar de ter também outras causas, manifestava-se nos indivíduos apegados à masturbação. Para ilustrar, o médico descreve o caso de um rapaz que se entregou ao vício e acabou contraindo a doença: “todas as vezes que tinha poluções era acometido imediatamente do ataque, e a mesma coisa sucedia quando se masturbava: os acessos foram repetindo-se com tal intensidade que o indivíduo morreu em um deles”.
A chegada do século XX não fez desaparecer o alardeio repressivo contra a prática da masturbação entre internos de colégios. Em 1927, a médica Ítala Silva de Oliveira, em sua tese Da sexualidade e da educação sexual, alertou para a proliferação do vício que, segundo ela, campeava na penumbra dos dormitórios dos internatos. Mas na mesma época já havia médicos que se afastavam da tese dominante, que condenava a prática da masturbação, também agora influenciados pelas novas correntes de estudo europeias. O dr. Oscar Bastos Rabello, por exemplo, lembrou em sua tese de 1920 que o médico suíço Auguste Henri Forel (1848-1931) não via mal na prática. Se espaçada, higiênica e moderada, não havia qualquer base na medicina para condenar a masturbação.

Nos internatos, dali para frente, a perseguição ao onanismo seria fundamentalmente religiosa. 

(Figura de livro sobre onanismo representando
os efeitos da masturbação no homem).
Olhos
Não se poderia hesitar em utilizar o recurso extremo de surpreender o colegial em “flagrante delito” e expô-lo ao escárnio dos colegas. 

Entre os danos decorrentes, mencionavam a magreza, a palidez, o encovamento dos olhos, salivações abundantes, vômitos, estatura diminuída e curvada para diante.

O doutor estava certo de que a epilepsia manifestava-se nos indivíduos apegados à masturbação: “os acessos foram repetindo-se com tal intensidade que o indivíduo morreu em um deles”.



Saiba Mais
COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. Rio de Janeiro: Graal, 2004.
GONDRA, José Gonçalves. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na Corte Imperial. Rio de Janeiro: Eduerj, 2004.
FOUCAULT, Michel. Os anormais. Curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2002.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo. Corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

*O artigo foi publicado originalmente na Revista de História da Biblioteca Nacional.

sábado, 11 de maio de 2013

MÉDICOS CUBANOS, BEM-VINDOS AO BRASIL


Por, Hermann Hoffman 

(Acadêmico de Medicina em cuba)







No Brasil, os cartazes ilustram diariamente uma situação que não queríamos que fosse verdade: NÃO TEMOS MÉDICOS PARA O ATENDIMENTO. No tatame, o Governo versus Conselho Federal de Medicina (CFM).
A dor da indignação supera a dor física naqueles que necessitam dos serviços médicos no Sistema Único de Saúde (SUS). Muitas vezes por um simples problema, outras, por está ante a situação mais difícil de ser enfrentada: a morte aproximando-se pela falta de assistência médica. Os pacientes, sem o atendimento adequado, são entregues à própria sorte, restando apenas a esperança de encontrar algum alívio mediante o auxílio dado por enfermeiros, técnicos e agentes comunitários.
A pregunta que a sociedade faz frente tal situação é: Cadê o médico? A resposta nem sempre é tão fácil e pequena como a pergunta. O médico não está porque sempre chega atrasado à unidade de saúde, pois tem três locais de trabalho, (quase 30% dos médicos brasileiros possuem quatro ou mais empregos e o tempo fica curto, é necessário inventar um dia de 48 horas), ou pior, porque simplesmente não existem médicos que ofereçam cobertura assistencial nas áreas de difícil provimento.
Na busca de uma solução, aqueles que logicamente deveriam ser aliados desta luta de máxima importância no Brasil, são os principais que impõem freios e fazem a oposição aos propósitos do Governo Federal.
A batalha já é épica. Por um lado, o Conselho Federal de Medicina, defendendo a proposta desumana e irresponsável que o Brasil não necessita de mais médicos e assim criando obstáculos para registrar novos profissionais formados no exterior. Por outro, o Governo Federal, que há poucos dias anunciou que irá contratar mais de 6 mil médicos cubanos para trabalharem no Brasil, como também a disposição para aumentar o número das escolas de medicina no país e humanizar a revalidação dos diplomas de milhares de brasileiros que estudam em países como Argentina, Bolívia e Cuba.

MAIS CÉDULAS VERDES QUE CÉLULAS VIVAS
Ainda não completaram seis meses da publicação de dois estudos do CFM em parceria com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). As pesquisas tratam da “demografia médica no Brasil”, e revelam situações absurdas que conspiram contra o próprio colégio médico, ineficiente para regular a distribuição médica no Brasil e agora culpa o Governo. Somando-se a tudo, o CFM também tem promovido atos públicos, com parlamentares e profissionais da saúde, contra a entrada dos médicos de outros países.
A recente nota do CFM contra a entrada de médicos estrangeiros defende que as entidades médicas envidarão todos os esforços possíveis e necessários, inclusive as medidas jurídicas cabíveis para evitar que o Governo concretize o convênio para a chegada dos médicos cubanos no Brasil.
O jogo do colégio médico é de visível interesse e agressividade, onde valem mais as cédulas verdes (dólares) que as células vivas (vida).

O TIRO SAIU PELA CULATRA
Segundo estudos, em 2011 o Brasil tinha menos de 2 médicos para cada mil habitantes, somente em 2021 chegará próximo a (2,5). Em 2050, baseado em projeções, teremos 4,3 médicos por 1.000. Ora, diante de uma realidade como esta, devemos esperar quase 8 anos para ter menos de 3 médicos por 1.000 ?
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-americana da Saúde (Opas), esta última que apoia a entrada no Brasil de médicos cubanos, nossa vizinha, a Argentina, em 2005, possui mais de 3 médicos por 1.000 habitantes, quantidade que o Brasil somente alcançará em 2031 neste ritmo. Já Cuba, a título de comparação, ainda em 2008 ostentava quase 7 médicos por 1.000 habitantes.
É confiando na legitimidade dos números apresentados pelo CFM, “demografia médica no Brasil”, que não vem a ser uma crença, o que os setores da gestão governamental defendem: aumentando do número total de médicos em atividade e saúde irá melhorar.

DISTORÇÃO NA DISTRIBUIÇÃO
Quando já é certo que necessitamos de mais médicos, é igualmente correto que a distribuição geográfica deve ser justa.
Em 2011, dos quase 372 mil médicos registrados no Brasil, aproximadamente 209 mil estavam concentrados na Região Sudeste, e pouco mais de 15 mil na Região Norte, o cenário fiel da péssima distribuição no território nacional.



terça-feira, 9 de abril de 2013

O DIA DA VERGONHA NACIONAL



Por, Hermann Hoffman
(Acadêmico de Medicina em Cuba)


  




O último 02 de abril deve ser batizado como o dia da vergonha nacional. A data foi marcada por uma reunião no auditório Petrônio Portella, do Senado Federal, e contou com a assistência de quase 500 médicos, além da minguada presença de parlamentares, como o senador Paulo Davim (PV/RN) e o deputado Eleuses Paiva (PSD/SP), representantes dos interesses da categoria. A confraria, que foi denominada "ato em favor da saúde pública e dignidade na medicina”, visou buscar forças para impedir que jovens brasileiros formados nos exterior venham a trabalhar em localidades onde muitos médicos formados no Brasil não querem ir. O ato no Senado, que marcou o dia da vergonha nacional, também intencionou potencializar os obstáculos para impedir o avanço de um acordo no qual o Brasil contratará mais de 6 mil médicos cubanos para trabalhar nos interiores do país.
Toda a agitação do Conselho Federal de Medicina (CFM) tem revoltado a sociedade brasileira, sobretudo quando o presidente da entidade, Roberto Luiz d’Ávila, diz que o Brasil não precisa de médicos. Tal hipocrisia está sendo repetida por outras entidades nos últimos meses após o Governo Federal ter anunciado propostas para melhorar a oferta de médicos e a distribuição geográfica a partir da criação de novas modalidades de revalidação dos diplomas, eliminando o injusto Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida), instrumento letal do CFM para impedir a atuação dos brasileiros formados em medicina no exterior. Segundo d’Ávila, referindo-se a contratação de médicos estrangeiros e revalidação dos diplomas, afirma que o emprenho do Governo Federal "trata-se de proposta improvisada, imediatista e midiática, que ignora as questões estruturais do trabalho médico no SUS”. Atualmente, existem mais de 10 mil jovens brasileiros estudando medicina no exterior, em países como a Argentina, Cuba, Bolívia, Paraguai, Peru, China, Rússia, entre de outros.
Por sua vez, datado de 04 de abril, após somente 48 horas do dia da vergonha, o CFM encaminhou um ofício, com uma pobre redação, para a Presidenta Dilma. O documento inicia mencionando o "compromisso dos médicos com o país”. Sobre isso, não sabemos mensurar qual o compromisso, de quais médicos sobre qual país. No documento órfão de audiência governamental o CFM além de outros pontos, também faz sugestões ao Governo Federal para interiorizar os médicos.
É importante que a sociedade brasileira tome conhecimento destas verdades. As entidades médicas do Brasil, gerenciadas pelo CFM, que ultimamente posam de vítimas, não admitem que o filho de trabalhador, do operário e do construtor possa ser médico, pela mesma lógica que as velhas oligarquias não admitiam que um metalúrgico e sem curso superior fosse presidente do Brasil.
Neste ritmo, está claro para a sociedade que realmente necessita dos serviços médicos qual é o grande problema do Brasil na esfera da saúde pública: mais médicos comprometidos e qualificados, humanos e solidários, dispostos a exercer a nobre profissão nas localidades mais necessitadas. Partindo deste princípio, beneficiar a sociedade não é reunir 500 médicos (em Roraima, por exemplo, existem somente 596 médicos) enclausurados no "puro” ar condicionado do Senado Federal para discutir como atrapalhar a vida dos que querem trabalhar para a sociedade. Beneficiar e proteger a sociedade das doenças é ver todos estes médicos reunidos desenvolverem um trabalho social e voluntário nas comunidades carentes. O desafio está lançado!
 

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