Saulo H. S. Silva
(Doutor em Filosofia e Professor da UFS)![]() |
| Francisco Goya (1746-1828) " O Sono da razão produz monstros" |
É parte da crise da modernidade a ideia segundo a qual a
filosofia estava em estado terminal e ensimesmada em decretar o seu próprio fim.
O cientificismo exacerbado, o desenvolvimento tecnológico e sua suposta
inutilidade frente à dinâmica da vida contemporânea fariam da antiga mãe das ciências
uma espécie de estranha no ninho. Nesse caso, a inutilidade da filosofia é outra
que aquela tratada por Platão, quando Adimanto questionara a Sócrates acerca da
inutilidade dos filósofos para as cidades (A
república, livro VI). Aqui, a inutilidade está ligada ao desapego pelo
conhecimento na cidade corrompida; no mundo contemporâneo, a inutilidade da filosofia
estaria ligada à sua insuficiência frente às ciências e ao avanço da técnica,
ao fim da filosofia de sistema, que a pulverizou em diversas disciplinas
especializadas, e às transformações da vida social determinadas pelo par
consumo-produção. A não adequação a esse ambiente parecia orientar para um
cenário de saída da filosofia, de império da razão instrumental e da novidade
científica orientada pelo mercado.
