Por Joaquim Tavares da Conceição
[Doutor em História (UFBA), Professor da
Universidade Federal de Sergipe].
"Combatida nos colégios internos, a masturbação preocupava médicos no século XIX, associada a doenças e distúrbios físicos e mentais".
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| Ilustração da artista australiana Krista Bernna intitulada: "A few words on the subject of onanism" (2006) . Técnica: aquarela sobre papel. |
Quando
se apagam as luzes do dormitório, um jovem regente, responsável por vigiar os outros estudantes, toma sua posição estratégica.
Enquanto finge dormir, observa atentamente as atitudes do suspeito, numa cama
próxima. Algum tempo depois, começam os movimentos característicos e a
respiração “frequente e suspirosa”. Está armado o flagrante. Silenciosamente, o
regente levanta-se, aproxima-se da cama e surpreende o estudante no meio da
manobra. Dá início, então, ao escândalo. Os pensionistas acordam sobressaltados
e, sentados em seus leitos, testemunham o sermão público contra aquelas
“imundas práticas”. “Confuso e envergonhado, o delinquente agradece os bons
conselhos” e promete deixar para trás a masturbação.
A
cena aconteceu no Seminário de Diamantina, provavelmente no início de 1860, em
Minas Gerais, e foi usada como exemplo pelo médico João da Matta Machado em
1875. Ele ensinava que, se houvesse fortes suspeitas de masturbação contra um
interno de colégio, deveria ser provocada a “confissão do delito” ou a acusação
direta. E se esses meios se mostrassem ineficazes, não se poderia hesitar em
utilizar o recurso extremo de surpreender o colegial em “flagrante delito” e
expô-lo ao escárnio dos colegas.
A
prática do onanismo entre alunos de
internatos era uma preocupação e objeto de estudo de muitos médicos no século
XIX. Para eles, a vida reclusa contribuía para propagar e agravar a prática das
“manobras secretas” entre os meninos e as meninas. Para reprimir o “terrível
inimigo” entre os colegiais, os médicos indicavam um conjunto de “regras
higiênicas” direcionado aos diretores dos colégios, aos professores e às
famílias.
Na
tese A libertinagem e seus perigos
relativamente ao físico e moral do homem, publicada em 1853, o médico
Marinonio de Freitas Britto registrou que
a masturbação estava muito difundida entre os meninos e os moços na cidade de
Salvador. Segundo ele, os indivíduos afeitos à masturbação alegavam que esta
era uma forma de saciar seus prazeres sexuais sem o perigo de contraírem a
sífilis. No mesmo ano, o médico Sulpício Germiniano Barroso também alertou para a prática generalizada e de efeitos
assustadores que muitas vezes requeriam intervenção médica. “A julgar pela
minha própria experiência, em dez masturbadores em quem a saúde se alterou
imediata ou consecutivamente pode-se contar nove que se perderam no colégio ou
em um internato”, reforçou em 1858 Antenor Augusto Ribeiro Guimarães. No Rio de
Janeiro, João da Matta Machado dizia-se espantado, em 1875, com o desleixo dos
educadores diante das “manobras secretas” entre colegiais.
Diante
desse que foi considerado um problema de saúde pública, a medicina tentava
fazer a sua parte. “Regras higiênicas” eram indicadas para extinguir ou
prevenir o aparecimento da masturbação nos internatos. O receituário do dr.
José Bonifácio Caldeira de Andrada Junior, por exemplo, recomendava: não
aceitar no internato adolescente de costumes e hábitos suspeitos; proibir a
leitura de livros eróticos e as conversas levianas; dividir os dormitórios de
acordo com as idades (pequenos, médios e grandes); proibir o diálogo muito
livre entre os alunos internos e os externos; prevenir o aparecimento precoce
da sensualidade por meio de exercícios físicos; abolir alimentos excitantes;
repreender ou expulsar do colégio o masturbador, segundo a gravidade do
“crime”; e medicar os que necessitarem de cuidados médicos.
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| (Frontispício da quarta edição da obra L' Onanisme: dissertation sur Les maldies produites par la masturbation de Samuel Tissot) |
Era
imperativo identificar os estudantes masturbadores a fim de reprimir, evitar o “contágio” e as consequências do “vício execrando”. A “campanha antimasturbatória” era fundamentada na moral religiosa
e reproduzia ensinamentos contidos em obras de médicos europeus, como o famoso
tratado Do onanismo ou das doenças
decorrentes da masturbação, escrito em 1758 pelo suíço Samuel Tissot. Este
tipo de literatura denunciava o prazer solitário como capaz de provocar “não
apenas as piores doenças, mas também as piores deformidades do corpo e, por
fim, as piores monstruosidades do comportamento”, nas palavras do filósofo
Michel Foucault (1926-1984).
Influenciados
por esses argumentos, os médicos brasileiros listavam uma série de danos
decorrentes da prática da masturbação. Mencionavam, entre outros, a magreza, a
palidez, o encovamento dos olhos, salivações abundantes, vômitos, estatura
diminuída e curvada para diante. Em relação ao comportamento, os onanistas
tornavam-se tímidos, melancólicos, indolentes, buscando sempre o isolamento. No
intelecto, o vício ocasionaria a completa estupidez e idiotismo, resultando na
incapacidade para o exercício de qualquer atividade ou profissão que exigisse a
mínima concentração.
O opróbrio (vergonha pública) completava o
quadro deplorável pintado pelos médicos, como descrito de forma dramática na
tese Generalidades acerca da educação
física dos meninos (1846), de autoria do dr. Joaquim Pedro de Mello: “Os
indivíduos, que têm a infelicidade de se lançarem a tão torpe vício (...)
trazem em seu semblante, em todo o seu corpo, e tão bem em sua inteligência
estampada a ignominiosa marca, que a todos denuncia a sua lastimável paixão”.
Drasticamente,
os médicos também consideravam a masturbação como capaz de causar ou contribuir
para o aparecimento de doenças como a tuberculose e a epilepsia. “Abusos de
toda espécie, os excessos venéreos, a masturbação e a sífilis são causa de
tísica pulmonar”, afirmou o dr. Candido Teixeira de Azeredo Coutinho em tese
defendida no Rio de Janeiro em 1857. Da mesma forma, Miguel Antonio Heredia de
Sá, em Algumas reflexões sobre a cópula,
onanismo e a prostituição do Rio de Janeiro (1845), procurou explicar como
se dava a manifestação da tuberculose nos indivíduos que buscavam o prazer
sozinhos: as pessoas “dadas desde a tenra infância à masturbação têm o tórax
acanhado e incompletamente desenvolvido, contém quase sempre, ou sempre,
catarros crônicos, e afecções mais ou menos profundas do órgão pulmonar, que
repetindo-se termina na tísica”.
Na
tese, o dr. Heredia de Sá registra o caso de um menino epilético e já idiota
pelos efeitos do onanismo. Internado no Hospital da Santa Casa da Misericórdia
do Rio de Janeiro, o rapaz apresentava na expressão da face “o vício e o
padecer; teria ao muito doze anos; seu corpo era franzino e atrofiado, mas os
órgãos genitais eram prodigiosos e tão completamente desenvolvidos como se
fossem de um homem”. O dr. Sulpício Germiniano Barroso, por sua vez, estava
certo de que a epilepsia era uma afecção nervosa que, apesar de ter também
outras causas, manifestava-se nos indivíduos apegados à masturbação. Para
ilustrar, o médico descreve o caso de um rapaz que se entregou ao vício e
acabou contraindo a doença: “todas as vezes que tinha poluções era acometido
imediatamente do ataque, e a mesma coisa sucedia quando se masturbava: os
acessos foram repetindo-se com tal intensidade que o indivíduo morreu em um
deles”.
A
chegada do século XX não fez desaparecer o alardeio repressivo contra a prática
da masturbação entre internos de colégios. Em 1927, a médica Ítala Silva de
Oliveira, em sua tese Da sexualidade e da
educação sexual, alertou para a proliferação do vício que, segundo ela,
campeava na penumbra dos dormitórios dos internatos. Mas na mesma época já
havia médicos que se afastavam da tese dominante, que condenava a prática da
masturbação, também agora influenciados pelas novas correntes de estudo
europeias. O dr. Oscar Bastos Rabello, por exemplo, lembrou em sua tese de 1920
que o médico suíço Auguste Henri Forel (1848-1931) não via mal na prática.
Se espaçada, higiênica e moderada, não havia qualquer base na medicina para
condenar a masturbação.
Nos
internatos, dali para frente, a perseguição ao onanismo seria fundamentalmente
religiosa.
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| (Figura de livro sobre onanismo representando os efeitos da masturbação no homem). |
Olhos
Não se poderia hesitar em utilizar o
recurso extremo de surpreender o colegial em “flagrante delito” e expô-lo ao
escárnio dos colegas.
Entre os danos decorrentes,
mencionavam a magreza, a palidez, o encovamento dos olhos, salivações
abundantes, vômitos, estatura diminuída e curvada para diante.
O doutor estava certo de que a
epilepsia manifestava-se nos indivíduos apegados à masturbação: “os acessos
foram repetindo-se com tal intensidade que o indivíduo morreu em um deles”.
Saiba Mais
COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. Rio de
Janeiro: Graal, 2004.
GONDRA, José Gonçalves. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na Corte Imperial. Rio de
Janeiro: Eduerj, 2004.
FOUCAULT, Michel. Os anormais. Curso no Collège de France
(1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2002.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo. Corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará,
2001.
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2 comentários:
ótimo texto. Me lembro de qd morava no oriente médio ter visto um programa de tv sobre masturbação feminina e ser um assunto tão tabu, que as entreistadas nao mostravam o rosto e tinha a fala distorcida e logo depois houve uma campanha publica violenta comtra o programa
Pois é Maíra, este é um tema bem interessante, sobretudo, para compreendermos como o preconceito acaba por desvirtuar uma prática tão natural, em homens e mulheres!
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