Por Ivan Fontes Barbosa*
| (Aplicação de rapé (foto: Lisa Leiding, 2016) |
Um importante capítulo da História mundial é o processo de colonização material e simbólica do mundo não ocidental operado pelo ocidente. Este processo, inicialmente economicamente motivado, é multifacetado e a sua consolidação implicou a ativação de uma série de dispositivos culturais, que ampararam a eficácia desse empreendimento. A colonização passou pela incorporação de uma série de formas de pensar e sentir o mundo que governaram, e ainda governam, os limites e as possibilidades de os indivíduos estabelecerem uma relação com o mundo natural e social.
A
experiência religiosa, um elemento importante para pensar a constituição da moral
nas formações sociais, é um fenômeno social assaz relevante para pensar esta
relação. É por intermédio dela que projetos de vida, valores e visões de mundo
que restringem e potencializam a sensibilidade e percepção humanas são
orquestrados. Atos de amor, reconhecimento, solidariedade, estigmatização,
preconceito e violência foram e ainda podem ser operados a partir da gramática
fornecida por ela. Foi ela que legitimou o assassinato das mulheres, queimadas
na fogueira, durante a inquisição. Foi ela, também, que criou expedientes de
solidariedade e luta social que dignificam a história da espécie.
A
questão que marca o cenário brasileiro, no que tange às práticas religiosas e
espirituais, é o fato de o controle operado sobre elas ter sido hegemonicamente
dominado pelo cristianismo. As religiões e os cultos de matrizes africana e dos
povos originários da América, neste processo, ocuparam uma margem muito discreta
de alcance e de reconhecimento. Perseguidas, no caso da experiência de matriz africana
e, estigmatizadas, no caso da experiência indígena, elas precisaram sustentar
um conjunto de argumentos e ações políticas para que pudessem alçar o status de moralmente legítimas e juridicamente
legais.
O vertiginoso
crescimento dos grupos vinculados aos usos das cognominadas medicinas da
floresta (ayahuasca, jurema, rapé e sananga) na sociedade brasileira
contemporânea é um indicador importante para pensar a resistência e reação,
mesmo que politicamente pouco organizada, dessa experiência ao controle
simbólico operado pelo cristianismo no Brasil. É razoável pensar que o processo
de descolonização das prescrições cristãs possa se passar pela ampliação de
novas formas de estabelecer relação com o mundo mediadas por uma antiga
gramática pré-cabralina.
A
experiência espiritual de matriz originária reencontra seu reconhecimento nessas
ressurgentes e, em grande número, sincréticas práticas. Ela atesta como a
contribuição indígena tem sido retomada e inserida no contexto das
possibilidades da cultura permitir a ampliação/restrição das sensibilidades das
pessoas em relação ao mundo e, em especial, a sua experiência religiosa e
espiritual. O fechamento ou abertura para sentir o corpo, a título de exemplo,
e delimitar os limites e expectativas de seus usos são definidas por intermédio
destes valores. O elemento religioso opera na formação da moral de grande
maioria da população brasileira e essa condiciona as ações dos sujeitos.
Descolonizar
experiências e práticas religiosas pode significar a ampliação das
possibilidades da cultura brasileira em fornecer aos sujeitos novos sentidos e
significados para as suas existências. É, potencialmente falando, um tardio e
saudável reencontro com nossas origens. Uma fonte de referência não ocidental que
coloca as atitudes, de cunho moral, espiritual e religioso, em um patamar da
autenticidade e alinhamento com essa ancestralidade sombreada e invisibilizada pelos
interesses e seus saberes, de natureza colonial/ocidental.
*É professor e pesquisador do Departamento de Ciências Sociais da UFS.
Um comentário:
Descolonizar as práticas religiosas e, creio eu, ainda mais além: trazer uma nova perspectiva de conexão com a própria temporalidade de cada indivíduo na aprendizagem da propriocepção.
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