quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

AS MEDICINAS DA FLORESTA E A DESCOLONIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL E RELIGIOSA BRASILEIRA

 Por Ivan Fontes Barbosa*


(Aplicação de rapé (foto: Lisa Leiding, 2016)


Um importante capítulo da História mundial é o processo de colonização material e simbólica do mundo não ocidental operado pelo ocidente. Este processo, inicialmente economicamente motivado, é multifacetado e a sua consolidação implicou a ativação de uma série de dispositivos culturais, que ampararam a eficácia desse empreendimento. A colonização passou pela incorporação de uma série de formas de pensar e sentir o mundo que governaram, e ainda governam, os limites e as possibilidades de os indivíduos estabelecerem uma relação com o mundo natural e social.

A experiência religiosa, um elemento importante para pensar a constituição da moral nas formações sociais, é um fenômeno social assaz relevante para pensar esta relação. É por intermédio dela que projetos de vida, valores e visões de mundo que restringem e potencializam a sensibilidade e percepção humanas são orquestrados. Atos de amor, reconhecimento, solidariedade, estigmatização, preconceito e violência foram e ainda podem ser operados a partir da gramática fornecida por ela. Foi ela que legitimou o assassinato das mulheres, queimadas na fogueira, durante a inquisição. Foi ela, também, que criou expedientes de solidariedade e luta social que dignificam a história da espécie.

A questão que marca o cenário brasileiro, no que tange às práticas religiosas e espirituais, é o fato de o controle operado sobre elas ter sido hegemonicamente dominado pelo cristianismo. As religiões e os cultos de matrizes africana e dos povos originários da América, neste processo, ocuparam uma margem muito discreta de alcance e de reconhecimento. Perseguidas, no caso da experiência de matriz africana e, estigmatizadas, no caso da experiência indígena, elas precisaram sustentar um conjunto de argumentos e ações políticas para que pudessem alçar o status de moralmente legítimas e juridicamente legais.

O vertiginoso crescimento dos grupos vinculados aos usos das cognominadas medicinas da floresta (ayahuasca, jurema, rapé e sananga) na sociedade brasileira contemporânea é um indicador importante para pensar a resistência e reação, mesmo que politicamente pouco organizada, dessa experiência ao controle simbólico operado pelo cristianismo no Brasil. É razoável pensar que o processo de descolonização das prescrições cristãs possa se passar pela ampliação de novas formas de estabelecer relação com o mundo mediadas por uma antiga gramática pré-cabralina.

A experiência espiritual de matriz originária reencontra seu reconhecimento nessas ressurgentes e, em grande número, sincréticas práticas. Ela atesta como a contribuição indígena tem sido retomada e inserida no contexto das possibilidades da cultura permitir a ampliação/restrição das sensibilidades das pessoas em relação ao mundo e, em especial, a sua experiência religiosa e espiritual. O fechamento ou abertura para sentir o corpo, a título de exemplo, e delimitar os limites e expectativas de seus usos são definidas por intermédio destes valores. O elemento religioso opera na formação da moral de grande maioria da população brasileira e essa condiciona as ações dos sujeitos.  

Descolonizar experiências e práticas religiosas pode significar a ampliação das possibilidades da cultura brasileira em fornecer aos sujeitos novos sentidos e significados para as suas existências. É, potencialmente falando, um tardio e saudável reencontro com nossas origens. Uma fonte de referência não ocidental que coloca as atitudes, de cunho moral, espiritual e religioso, em um patamar da autenticidade e alinhamento com essa ancestralidade sombreada e invisibilizada pelos interesses e seus saberes, de natureza colonial/ocidental.



*É professor e pesquisador do Departamento de Ciências Sociais da UFS.

Um comentário:

Unknown disse...

Descolonizar as práticas religiosas e, creio eu, ainda mais além: trazer uma nova perspectiva de conexão com a própria temporalidade de cada indivíduo na aprendizagem da propriocepção.

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