Por Saulo H. S. Silva
(Professor da UFS)
Existe um dito latino famoso, “Si vis pacem, para bellum”— “se queres paz, prepare-se para a guerra”. Nessas últimas semanas, quando o mundo foi sacudido com um novo conflito militar, é possível recorrer a essa famosa sentença atribuída ao autor latino do séc. IV Flávio Vegécio, na obra Epitoma rei militaris. O atual conflito militar envolvendo forças russas que marcham pelo território da Ucrânia, em via de tomar a sua capital Kiev, parece-me aludir a esse dito porque, para além das diversas opiniões sobre o conflito, o contexto histórico que o envolve e determina a incursão russa pela Ucrânia possui características de uma ação, antes de tudo, defensiva.
Além disso, remete à ideia de que se a paz
não se consegue pela via do diálogo, a guerra é
a única saída. Sobre isso, toda essa contenda
já vem se arrastando, pelo menos, desde 2014,
quando a revolução colorida na Ucrânia depôs
o presidente Viktor Yanukovytch, o qual tinha
mais proximidade com a Rússia do
que com a
União Europeia. Desde esse evento, o território
que atualmente corresponde ao estado da
Ucrânia foi mergulhado em uma série de
interesses e conflitos, os quais parecem ser
insolúveis apenas pela diplomacia.
E as razões são óbvias e conhecidas, apesar de pouco difundidas efetivamente por meios de comunicação que se comportam como porta-vozes dos interesses estadunidenses. A esse respeito, quero refletir apenas sobre alguns dados do contexto histórico que conduziu a essa situação de guerra inevitável.
Para isso, não vou insistir na questão das intimas relações culturais e históricas que ligam Rússia à Ucrânia, e nem nos temas que envolvem a nacionalidade ucraniana, cujo território sempre fora fragmentado e ocupado por diversos povos até o século XX, ganhando a sua forma atual após se tornar mais uma república comunista soviética. Também não quero tratar sobre os males da guerra e do sofrimento das populações envolvidas; sofrimento, morte e guerra andam sempre juntos e infelizmente as populações pagam com suas próprias vidas pelos interesses dos donos do poder.
Portanto, são muitas as variantes que envolvem esse conflito; seria impossível escrever nesse curto espaço de tempo e de texto sobre todos esses detalhes e dados que importam, que deixo aqui apenas enquanto menção contextual.
Caro leito, desejo somente examinar a seguinte questão: o que de fato propiciou a guerra entre Rússia e Ucrânia? O fato é que, desde 1991, com a fragmentação da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o colapso econômico da região, e o fim do Pacto de Varsóvia, aliança militar formada pelos países do leste europeu, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar que na guerra fria equivaleria para o ocidente àquilo que o Pacto de Varsóvia significou para o leste socialista, iniciou uma progressiva campanha de expansão de sua atuação justamente em direção ao leste e à conquista de repúblicas outrora partícipes do Pacto de Varsóvia.
Ainda em 1990, ganhou o mundo as imagens da reunião do presidente da URSS, Mikhail Gorbatchev, com o Secretário de Estado dos EUA, James Baker. Na ocasião, Baker, falando em nome dos EUA, afirmou que a OTAN jamais se expandiria em direção ao leste. Logo após, em 1991, deu-se o fim do Pacto de Varsóvia e da URSS. Porém, a fragmentação do antigo leste socialista e a palavra dada pelo secretário Baker soram simplesmente como acontecimentos para “inglês ver” porque, ainda na década de 90, a OTAN iniciou uma ampla campanha de expansão para o leste, anexado para a sua cobertura militar diversas das antigas repúblicas soviéticas e em progressiva direção às fronteiras ocidentais da Rússia. Encurralando a Rússia, agora cercada por exércitos inimigos poderosamente armados e nas vizinhas de suas fronteiras.
Quem joga xadrez conhece um pouco da alegoria da guerra. Porque a guerra é como o xadrez, se o adversário ocupar todo o tabuleiro, necessariamente, encurralará o oponente e o mesmo terá demasiada dificuldade de movimentar as suas peças; a derrota será no próximo movimento!
Diria que o presidente Putin e a Rússia, fortalecidos com o crescimento econômico a partir dos anos 2000, com a maior aproximação da China de Xi Jinping e com o desenvolvimento de artefatos bélicos sem precedentes na história da tecnologia de guerra, resolveram dar uma espécie de basta nesse avanço. Sobretudo porque a OTAN já ameaçava se assenhorar da Ucrânia e encurralar de vez a Rússia, com exércitos inimigos ao logo de suas fronteiras. A gota d’água foi a chamada revolução colorida, na qual estava incluída vários grupos neofascistas e xenófobos, que derrubou o governo de Viktor Yanukovytch. Desde então, governada por presidentes que ampliaram a aproximação da Ucrânia com a OTAN.
A primeira resposta da Rússia foi a anexação da Criméia, ainda em 2014, e o apoio aos rebeldes da região de Donbass, onde dois estados afirmaram sua independência da Ucrânia, Luhansk e Donetsk. Um último suspiro de paz foi o acordo de Minsk, em 2014, que estabeleceu o cessar-fogo na região, mas o mesmo acordo fora rasgado pelo atual presidente da Ucrânia, o comediante Volodymyr Zelensky, continuando com a perseguição aos russos étnicos e declarando guerra à Rússia por meio da aproximação cada vez maior com a OTAN.
Nessa situação, estando a Rússia encurralada pelo inimigo, e sem diplomacia que resolvesse tal contenda, como haver paz sem guerra?
Enfim, a guerra tradicional de incursão e domínio de territórios então chegou, até porque ela parecia cada vez mais inevitável. E o exército russo marcha agora pela Ucrânia que, jogada como boi de piranha para testar a paciência dos russos, amarga a solidão e o caos da guerra armada pela OTAN. E fica a lição, a Ucrânia apostou com fichas que não eram suas, está agora isolada e ocupada, poderá ser novamente fatiada, domesticada e até mesmo anexada sem que seus “novos amigos do ocidente” movam uma única mão para ajudá-la.
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