Por Marcelo Primo
(Professor da UFS)
Em janeiro deste ano, o Papa Francisco fez uma declaração forte, conservadora e preconceituosa, em vários níveis, acerca das pessoas que não querem ter filhos: 1) que tal escolha tira a nossa humanidade; 2) que a consequência direta de tal escolha é a queda da natalidade; 3) que nos diminuímos quando rejeitamos a paternidade ou maternidade; 4) por fim, que o sofrimento das nações se deve à ausência de filhos. Observando e analisando as supostas razões para que sempre tenhamos de criar independente de qualquer circunstância e nos fiemos às nossas obras, mesmo nos arriscando a um sofrimento inútil por serem evitáveis, vêm à tona a seguinte questão: por que não seríamos eticamente bons se não criássemos, simplesmente abstendo-nos dessa empreitada? O grande e temido “mal-estar” filosófico em enveredar por esse caminho seria tais questionamentos serem vistos como uma imoralidade e esta, como não poderia deixar de ser, sendo definida pelo jargão das Éticas afirmativas.
Inspiro-me aqui nesta fala em um livro A Ética e suas negações, escrito pelo filósofo Julio Cabrera, em particular no primeiro capítulo “Paternidade e abstenção. Logo de saída, ele lança a tese: a Ética do ser tem sido a palavra de ordem na história da Filosofia e ninguém ainda aventou e encarou de frente a possibilidade de uma moralidade do não ser, isto é, o que decorre diretamente de uma negação radical do ser. Mais do que isso, sempre foi evitado um diálogo acerca de uma autêntica Ética do não ser, devido à Ética tradicional ter sido sustentada como se a vida fosse algo obsessivo, sem ser tratada como uma escolha. A questão da obrigação moral de ser pai, sob um enfoque religioso, é transposta para o âmbito de uma Teodiceia ou uma ética da criação: é melhor engendrar mundos imperfeitos do que nada criar mesmo que, mediante categorias afirmativas, seja absolutamente impossível isso ser demonstrado. Por que é inaceitável que pessoas, vivendo o ser, simplesmente não quiseram gerar novas vidas por uma deliberada recusa da procriação? Isso se deve porque a vida, sendo vista e entendida – ainda - enquanto dever, torna-se o dever inescapável de toda e qualquer moralidade.
Nas imaginações afirmativas e nas concepções emanatistas, o criador do mundo precisa de sua obra para se sentir pleno, para autoconhecer-se, para realizar-se como se seus objetivos ontológicos afirmativos fossem alcançados povoando o mundo de filhos. Contudo, por que são considerados incompletos seres humanos que se recusam a procriarem? Qual o fundamento dessa dita incompletude? De qualquer maneira, uma coisa é certa: a sociedade vê como inquestionável a moralidade da paternidade e maternidade e a procriação como algo sempre positivo. E, a contrario, qualquer apreciação crítica acerca desses valores como elemento desestruturador da moral, já que sempre decidem ética, religiosa e juridicamente por nós o direito à vida, esquecendo que todo direito tem de ser conquistado ou reivindicado.
É sabido que muitos filósofos e filósofas que não quiseram ter filhos entenderam que não seria de bom tom ocuparem-se em erigir uma Ética. Será que tanto uma abstenção quanto outra estariam ligadas?
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