terça-feira, 15 de março de 2022

O RETORNO DO DISCO DE VINIL E O RECONECTAR COM A MÚSICA

 Por Saulo H. S. Silva

(Professor da UFS) 

 

(Foto por Saulo)

 

 Já faz algum tempo que se fala da volta do Disco de vinil, no início era algo que se remontava a uma espécie de saudosismo de colecionadores e amantes da música tal qual era ouvida antes da revolução do CD e da música digital. Isso porque, faltava consumo que justificasse a produção de novos discos para oferta de mercado; porém, esse cenário tem mudado e o vinil hoje já possui venda superior ao CD. Segundo matéria publicada no Site da Revista Rolling Stones (11/09/2020), “a receita de vinil representou 62% de todo o valor de música física” no ano de 2020.

Mas, o que esses dados significam? Para além da restrita análise economicista presa ao mercado, uma das razões de se falar na volta ao disco é a tentativa de se reconectar de forma mais direta com a música. O que significa reconectar com a música? Pode parecer ironia usar um termo do vocabulário digital para falar em algo como o retorno a uma experiência mais analógica com a música, que remete a uma forma de percepção musical oposta aos formatos digitais amplamente difundidos na internet. A grande questão é que a música em forma digital permite cada vez mais o acúmulo de arquivos musicais que extrapolam a possibilidade de percepção auditiva adequada para compreender o que de fato o artista quer passar e como ele construiu sua obra musical.

Logo após os álbuns disponíveis em formato de CD tomarem conta do mercado e aposentar a grande maioria dos toca-discos, surgiram os CDs regraváveis, com espaço cada vez maior para acúmulo de arquivos musicais. E o que era um álbum, com um padrão estético pensado, que incluía fotografia, designer artístico, o encarte com a letra da música e seus compositores, a informação de todos os músicos e da equipe de produção, virou um simples arquivo perdido entre tantos outros no interior de um CD regravável, de um pen drive, ou no HD de um computador.

Quando os arquivos são executados, e se forem executados, serão todos de uma vez, já não será importante saber acerca da música, do álbum, do artista, do ano de lançamento, porque tudo é fugaz e basta que o som agrade. No formato digital, a música se torna algo fugaz, a percepção da mesma é pobre, simplesmente se coloca uma playlist e vai tudo no automático; o som é apenas mais um complemento das distrações. Nada mais é permanente, todo sucesso é rapidamente passageiro! E toda democratização que o MP3 possibilitou acaba se perdendo na superficialidade de sua própria reprodução, e a música perde muito de seu caráter de arte e se torna um mero produto para reproduzir nas mídias. Ainda mais quando a audição da música se dá por meio de sites como YouTube, onde a seleção de faixas é muitas vezes determinada pelo site, reduzindo de vez o papel do ouvinte na escolha.

A passagem do formato analógico de ouvir música demarca uma quebra de percepção. Da degustação do álbum, onde a audição envolve literalmente pegar a música, colocar a agulha no disco e ver a mesma retirando o som a partir dos sulcos do LP. O cuidado para não arranhar, a seleção manual de faixas, a leitura do encarte, os detalhes da capa. Tudo isso remete à ideia da preservação da obra e da percepção direta da mesma porque justamente seguramos a música! Ela não é apenas um arquivo perdido entre tantos outros, que pode ser acumulado, apagado, recopiado, descartando ou perdido, sem mesmo ter sido ouvido. A volta do vinil remonta, portanto, à necessidade que temos de contato mais direto com arte musical, e esse contato significa outra percepção, aquela que  compreende a música como uma obra de arte. Ainda que também seja reproduzido, cada cópia do disco possui em si uma unidade, um valor artístico completo e depositado no disco que guarda em si um aspecto aurático.

Enquanto a reprodução digital é meramente acumulativa, fugaz e superficial, o disco possui uma quantidade máxima de faixas, não é possível registrar uma infinidade de músicas, e elas estão dividas nos dois lados do disco. Tudo isso permite uma audição mais linear, onde se degusta cada faixa e a cada lado do LP, uma nova expectativa é gerada. Não é possível juntar tudo que o Caetano Veloso ou Gal Costa produziram em única mídia, é preciso ouvir cada álbum e assim amadurecer a compreensão da obra completa do artista, ou da fase específica onde determinado disco foi gravado. Algo que está relacionado a uma série de fatores como o momento político do país, os tipos de linguagens músicas mais difundidos, os movimentos da época, o que o artista quer dizer com a produção do álbum em sua totalidade.

O disco, assim, remonta a uma audição ruminante e degustativa. Ouvir um álbum específico do Pink Floyd como o “Wish Were Here” (1975) é compreender então a época em que ele foi pensado e gravado, o clima da banda, indicações que fazem parte do argumento da obra. Essa experiência é completamente diferente daquela onde a audição desse mesmo disco — cujo título diz respeito à lembrança do antigo líder da banda, Syd Barrett — é feita junto com mais uma série de outras músicas, de outros álbuns, tudo misturado e sem qualquer outra informação além da necessidade do som agradar e distrair. Assim, o álbum deixa de existir e, de certa forma, também a sua história, engolidos pela superficial fugacidade do viver contemporâneo que também abarca a produção musical.

Enfim, a expressão “volta do vinil” remete mais à necessidade de uma nova experiência com a música que ao imperativo de mercado. Também não é simplesmente mania de colecionador. Mesmo que tenha iniciado assim, hoje já é uma realidade que abrange tanto o colecionador quanto o iniciante no mundo do vinil, ambos procuram uma nova relação com a música a partir de uma experiência estética que o reconecte com o prazer de degustar a arte musical. 

 

 

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