domingo, 17 de abril de 2022

QUANTO VALE OU É POR QUILO?

 Por Marcelo Primo

(Professor da UFS) 



         Valho-me hoje do título de um belíssimo filme do Sérgio Bianchi para ilustrar o que vimos há poucos dias ser feito pelos pastores que infestaram e ainda infestam o MEC. Eles simplesmente colocaram um preço na educação brasileira: um quilo de ouro. Propinas e negociações espúrias de toda sorte foram feitas pelos ditos religiosos compromissados com os rumos educacionais do nosso país e, somente agora, tais transações estão sendo alvo de investigação. Sempre priorizados pelo agora ex-Ministro da Educação em nome da amizade, não tiveram o menor escrúpulo em negociarem liberações de recursos, mesmo sem cargos nas pastas. Registros mostram que, pelos trâmites normais e regulares, recursos como esses podem demorar meses ou anos para serem liberados, mas, em contrapartida, com uma espécie de “toque de Midas” dos pastores as verbas levam, no máximo, dias para serem empenhadas. Os porta-vozes dos deuses cumpriram toda a sua agenda formal e, em troca de sua atuação no Ministério, apoiariam as igrejas. Um verdadeiro gabinete que operava nas sombras e que atraiu a atenção de parlamentares da oposição, culminando no recurso ao STF e à PGR e solicitação de abertura de CPI.

        Diante desse escândalo vergonhoso motivado por interesses particulares que não hesitam em usar a educação como meio para essa bandalheira, recorro aqui a um anexo dos Escritos sobre Educação de Nietzsche, quando este diz claramente que “o interesse pela educação não adquirirá toda a sua força senão a partir do momento em que se renunciar a acreditar num deus e na sua providência” (2014, III.1, HH, 242, p. 306-307). Afirmação que é radical, sim, mas no sentido de ir na raiz da questão: quando se fazem determinadas coisas em nome de um deus ou deuses particulares, tudo será sacrificado a peso de ouro, inclusive a própria educação que, nestas paragens, está sendo cada vez mais sacralizada e, simultaneamente, precarizada. A infâmia maior está no fato de que, perante provas evidentes, negam o que foi dito, subestimando a inteligência dos que estão acompanhando dia após dia o caso. Interesses religiosos tomam o lugar do interesse por uma educação pública de qualidade, crítica e democrática, causando a maior desordem e confusão acerca dos objetivos maiores que devem reger um Ministério da Educação e da Cultura.

        Uma coisa é certa: os que estão hoje à frente da educação são uns verdadeiros inaptos para a tarefa que lhes foi incumbida. A razão e a ciência, virtudes supremas, foram substituídas por crendices e crentes empoderados que têm uma verdadeira fixação em vender o que há de mais valioso para a prosperidade de uma nação, a saber, a educação. E esta, para voltar a ser a maior das prioridades, é preciso muita dedicação, defesa e luta verdadeiras para mantê-la, desenvolvê-la, democratizá-la e, principalmente, nunca vendê-la a preço algum. Isso nunca acontecerá por milagres e, para aqueles que ainda acreditam numa educação milagrosa, nem tudo que reluz é ouro...


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