Natacha Devanda[1]
Contrariamente ao que poderia deixar-nos crer os religiosos de todos os lados, a moral não é o apanágio da religião. Basta de barrete, quipá ou o turbante desses pais-da-moral que pensam que se não crermos em um ser superior, o mundo será um verdadeiro caos. Neste século XXI, a religiosidade vai muito bem, grato por ela. E o mundo? Como vai o mundo?
“Você não crê em Deus? Mas então você não tem moral”. Esta frase muitos ateus ouviram um dia. A prova: eu a ouvi. Quando supervisora de externato em um liceu de periferia, adolescentes que perguntavam minha crença não sonhavam ter diante deles uma jovem adulta desprovida de fé. Senão passar por uma extraterrestre. Ou uma sheitan (“diabo, em árabe”). É verdade que no meu pescoço trago um pingente representando um Diablotin, com um tridente na mão e uma cauda de ponta. Nada de satânico nisso, somente um sentimento e apego materialista a uma joia de prata que minha mamãe me trouxe de Lanzarote (Ilhas Canárias).
É a primeira vez que fui
confrontada com essa esquisita equação: “Sem
fé, sem moralidade”. Esse resumo manco, Bobbie Kirkhart ouviu centenas de
vezes. Esta californiana sexagenária, ex- professora, foi a presidenta da Atheist Alliance International (Aliança
internacional ateia), situada nos Estados Unidos. Nesta sociedade tão puritana
“o que essas pessoas dizem é que só o medo do inferno as impedem de assassinar
seu próximo com golpes de chave de fenda! É absurdo”. Ou diz algo sobre a
necessidade da humanidade de cercarem-se de cadeias mentais.
Os dez mandamentos de
Moisés (o Decálogo), que fundam a doutrina das religiões ditas “do Livro” enumeram preceitos que são
encontrados em todas as religiões (não matar, não roubar, não transar com a
mulher do vizinho, etc.). Mas antes de serem regras religiosas são princípios
que permitem a vida em sociedade. Tabus inscritos nos códigos e a história da
humanidade antes mesmo que o monoteísmo existisse. Mas o animal humano é assim
feito que tem vontade – necessidade? – de crer. E que encontra todas as
justificativas para glorificar a sua crença e deslegitimar a dúvida e a razão.
Em 2011, durante seu one-man-show diante de uma juventude
idólatra, o papa Bento XVI fez uma brilhante ilustração: “a experiência ensina que um mundo sem Deus é um inferno onde prevalecem
os egoísmos, as divisões nas famílias, o ódio entre as pessoas e os povos, a
falta de amor, de alegria, de esperança [...]. Contrariamente, quando as
pessoas e os povos vivem na presença de Deus, adoram-no em verdade e escutam a
sua voz, aí é construída muito concretamente a civilização do amor [...]”. Declamou com profissionalismo,
isto é, sem fartar-se de rir desta grande lenda que esquece uma coisinha,
séculos de guerras religiosas. Você disse espiritual?
[1]
Postado na edição online e publicado na edição impressa no 1424 do Charlie Hebdo de 6 de novembro de 2019.
Fonte: https://charliehebdo.fr/2019/11/religions/athee-et-ethique-la-morale-na-pas-besoin-de-dieu/.
Tradução de Marcelo Primo.

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