Laure Daussy[1]
(Tradução de Marcelo Primo)
Reivindicar
seu ateísmo ou sua apostasia é sempre um tabu absoluto em vários países,
passível da pena de morte ou da vingança de outros crentes, sobretudo, no mundo
muçulmano.
“Enforquem, enforquem os ateus!” Esses últimos anos, incitada por extremistas religiosos, uma multidão enorme, barulhenta, descia às ruas de Dacca, em Bangladesh, para pedir a morte de blogueiros ateus. Todas as vezes, a imagem era sempre arrepiante. O seu pedido será rapidamente realizado: durante a última década, uma dezena de blogueiros ateus ou militantes laicos foram mortos nesse país, atacados com facões ou atingidos andando na rua. Como em Bangladesh, em vários países ser ímpio e reivindica-lo é mais do que nunca um ato de resistência. O relatório “Freedom of Thought”, publicado em outubro passado, denuncia uma situação cada vez mais alarmante. Palma de ouro dos piores países: sem surpresa, a Arábia Saudita e, logo depois, Irã, Afeganistão, mas também as Maldivas...o que muda seu olhar sobre esse país: entretanto, será preciso acrescer a pena de morte ao paraíso fiscal e aos coqueirais. No total, em 12 países, os ateus são passíveis da sentença capital; e em 22 países o ateísmo é criminalizado.
“Os piores países são os que nos quais a xaria[2]
é aplicada”, explica Julie Pernet, uma das autoras do relatório e assessora
no Centro de ação laica em Bruxelas. Na Arábia Saudita, ser ateu é francamente
assimilado a um ato terrorista desde 2014. “Mas
outros países, como a Índia, onde o nacionalismo hindu ocorre, e o Sri Lanka,
de maioria budista, não ficam atrás na repressão dos ateus”, ela sublinha. E a situação se agrava em diversos países: no
Paquistão, vê-se um aumento de violências e de acusações de blasfêmia; na Mauritânia,
passou-se de caso de prisão à pena de morte...
Um
silêncio cúmplice da comunidade internacional
Passados sete anos, esse
precioso relatório internacional realizado por uma federação de
livres-pensadores é o único instrumento que documenta a repressão contra os
ateus no mundo. E, à imagem dos ateus, não dão manchetes de jornais: “A situação das pessoas sem religião não
interessa muito ao mundo”, deplora Julie Pernet. Ser ateu é por definição
não pertencer a nenhuma comunidade religiosa. Ou seja, em nosso mundo sempre
mais iluminado, estar em um buraco negro: “Os
que são midiatizados são frequentemente de minorias religiosas oprimidas. É o
caso de Asia Bibi [acusada de blasfêmia no Paquistão e ameaçada de morte], por
exemplo. Ela é cristã, o Vaticano a defendeu, a comunidade cristã se mobilizou.
Mas quando se trata de ateus, aí deparamo-nos com pessoas sem comunidade, sem
nenhuma morada”, explica-nos Julie Pernet. A maior parte apodrece na
prisão, no silêncio cúmplice da comunidade internacional. Certos ativistas
exilados na Europa organizam-se: assim, a iraniana Maryam Namazie fundou em
2007 o Conselho dos ex-muçulmanos da Grã-Bretanha, que ajuda apóstatas no mundo
e reuniu em uma grande conferência ateus de 70 nacionalidades diferentes em
2017.
Entre os participantes,
Nadia El Fani, diretora franco-tunisiana, reivindicava em alto e bom som o seu
ateísmo no filme Nem Allah nem mestre (rebatizado Laicidade Inch’ Allah para
limitar as represálias). Ela não pôde entrar na Tunísia durante muitos anos
porque corria o risco de ser presa. Depois, ela ganhou todos os seus processos.
A Tunísia permanece ambivalente sobre o assunto: uma associação de
livres-pensadores pôde ser criada oficialmente: “mas eles se escondem, é sempre muito arriscado”, sublinha a
diretora. Nadia El Fani foi defendida na França, mas ela enfrentou um outro
inimigo dos ateus, sobretudo quando são “ex-muçulmanos”:
membros dos Indígenas da República tinham apelado para “cortar-lhe a garganta”.
Não é ainda o apelo ao assassinato como em Bangladesh, mas quase isso.
[1]
Postado no site do Charlie Hebdo e
impresso na edição no 1381 de 5 de janeiro de 2019. Fonte: https://charliehebdo.fr/2019/01/religions/etre-athee-ou-signer-sa-condamnation-a-mort/.
Trad. de Marcelo Primo.
[2] Isto é, o direito islâmico (N. do T.)

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