sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

DE EMIL CIORAN: O MAU DEMIURGO

 Emil Cioran 

(Trad. Marcelo Primo) 


O MAU DEMIURGO

ENCONTROS COM O SUICÍDIO

 

Emil Cioran (Acervo público)

      Somente nos matamos se, por alguns aspectos, sempre estivemos fora de tudo. Trata-se de uma inapropriação original da qual podemos não estar conscientes. Quem é chamado a se matar só pertence por acidente a este mundo; não se enquadra em nenhum mundo.

      É das noites onde o futuro é abolido, no qual de todos os seus instantes somente subsiste o que escolheremos para não ser mais.

      “Tenho bastante de ser eu”, repetem quando aspiram a fugir; e, quando fogem irrevogavelmente, a ironia quer que cometam um ato que reencontrem-se, que tornem-se de súbito totalmente si mesmos. Na fatalidade da qual quiseram escapar recaem no instante em que se matam, sendo o suicídio somente o triunfo, a festa desta fatalidade.

     Mais eu vou, mais eu vejo diminuírem minhas chances de me arrastar um dia após outro. Para dizer a verdade, sempre foi assim: não vivi no possível, mas no inconcebível. Minha memória amontoa horizontes desmoronados.

     Existe em nós mais uma tentação do que vontade de morrer, pois se fosse-nos dado querer a morte, quem não aproveitá-lo-ia na primeira contrariedade? Um outro impedimento ainda ocorre: a ideia de matar-se parece inacreditavelmente nova àquele que está dela possuído; imagina então executar um ato sem precedente. Esta ilusão ocupa-o, lisonjeia-o e faz-lhe perder um tempo precioso.

     O suicídio é uma realização brusca, uma libertação fulgurante: é o nirvana pela violência.

    Quando nos atrai a ideia de acabar, um espaço se estende diante de nós, uma vasta possibilidade para além do tempo e da própria eternidade, uma abertura vertiginosa, uma esperança de morrer para além da morte. Matar-se é, de fato, rivalizar com a morte, é demonstrar que podemos fazer melhor do que ela, é fazer-lhe uma brincadeira e, sucesso não negligenciável, se redimir aos seus próprios olhos. Tranquilizamo-nos, persuadimo-nos assim que não é o último, que merecemos algum respeito. Digo: até o momento, incapaz de tomar uma iniciativa, eu não tinha nenhuma estima por mim. Agora tudo muda: destruindo-me, eu destruo ao mesmo tempo todas as razões que eu tinha de desprezar-me, eu retomo a confiança, eu sou alguém para sempre...

    Visto que a minha missão é sofrer, não compreendo porque tento imaginar meu destino de outra maneira, ainda menos porque eu encolerizo-me contra sensações. Porque todo sofrimento é somente isso, em seu começo e fim em todo caso. No meio, está claro, ele é um pouco mais: um universo.

     Este furor em plena noite, a necessidade de uma última explicação consigo, com os elementos. De um lado, o sangue anima-se, trememos, saímos, repetimos que não há mais razão para tergiversar, adiar: esta vez será tudo de bom. Mal estamos fora, um imperceptível apaziguamento. Avançamos penetrados do gesto que vamos cumprir, da missão que nos arrogamos. Um nada de exultação sobrepõe-se ao furor quando dizemos que enfim chegamos a termo, que o futuro se reduz a alguns minutos, a uma hora no máximo e que foi decretado por sua própria autoridade a suspensão da totalidade dos instantes. Em seguida, vem a impressão reconfortante que inspira-vos a ausência do próximo. Todos dormem. Como abandonar um mundo no qual ainda se pode estar só? Esta noite, que devia ser a última, não ocorre de nos separarmos, não concebemos que ela possa se esvanecer. E queríamos defende-la do dia que a solapa e logo submerge-a.

      Se pudéssemos mudar de natureza, tornarmo-nos não importa o quê, desde já faríamos parte dos eleitos. Como a metamorfose é irrealizável, agarramo-nos à Predestinação, vocábulo mágico se o fosse. Apenas pronunciando-o, temos a sensação de termos ultrapassado o estágio das interrogações e das perplexidades e encontrado enfim a chave de todo impasse.

      Quando sentimos a vontade de acabar, seja ela fraca ou forte, somos levados a aí refletir, a nos explicarmos. De resto, aí somos levados bem mais quando ela é fraca, pois, muito intensa, ela invade o espírito e não deixa-lhe nem espaço nem lazer para considera-la ou evita-la.

      Esperar a morte é suportá-la, é engoli-la ao nível de um processo, é se resignar a um desenlace que ignoramos a data, o modo e o decoro. Estamos longe do ato absoluto. Nada de comum entre a obsessão do suicídio e o sentimento da morte – eu entendo este sentimento profundo, constante, de um fim em si, de uma fatalidade de perecer como tal, inseparável de um segundo plano cósmico e independente desse drama do eu, no centro de toda forma de autodestruição. O suicídio liberta sempre: ele é auge, é paroxismo da salvação. Deveríamos por decência escolhermos nós mesmos o momento de desaparecer. É aviltante extinguir-se como extinguem-se, é intolerável ser exposto a um fim sobre o qual nada podemos, quem espreita-vos, abate-vos, precipita-vos no inominável. Talvez o momento virá que a morte natural será completamente desconsiderada, em que enriqueceremos os catecismos com uma fórmula nova: “Dispensai-nos, Senhor, do favor e da força de acabar, a graça de eliminarmo-nos a tempo”. A conspiração milenar contra o suicídio é causa do encobrimento e da esclerose das sociedades. Pertence-nos compreender destruirmo-nos no bom momento, correr alegremente em direção a nosso espectro. Tanto que aí não nos resolveremos, mereceremos nossas humilhações. Quando foi esgotada a sua razão de ser, é odioso obstinar-se. Mas é então a indignidade da morte natural que percebemos, que, de alguma forma, observamo-nos. “Reencontrando, depois de vários anos, uma pessoa que conhecemos desde criança, o primeiro olhar faz quase sempre supor que algum grande mal a acometeu” (Leopardi). Durar é apequenar-se: a existência é perda do ser. Visto que nada desaparece quando fosse preciso, deveríamos lembrar da ordem ainda que sobrevivamos, encorajá-la e, na necessidade, ajudá-la a encurtar seus dias. A partir de um dado momento, perseverar é consentir em decair. Mas como estar certo de seus declínio? Não se pode desprezar-se sobre os sintomas? A consciência de decair não implica uma superioridade sobre a decadência? E, neste caso, ainda estamos decaídos? Como, mais uma vez, saber que começamos a degringolar, como determinar esse momento? – O erro é sem dúvida possível, mas ele pouco importa visto que, de toda maneira, jamais morremos à tempo. Vamos à deriva e é somente quando afundamos é que admitimos naufragar. E é muito tarde então para afundar por vontade própria.

     Isto faz pensar que vamos nos matar. Não há ponto mais confortante: desde que o abordamos, respiramos. Meditar sobre ele torna quase tão livre como o próprio ato. Mais eu estou à margem dos instantes, mais a perspectiva de abstrair-me para sempre reincorpora-me à existência, coloca-me na planície com os viventes, confere-me uma espécie de honorabilidade. Esta perspectiva, que não posso passar-me, tirou-me de todos os meus abatimentos, permitiu-me, sobretudo, atravessar todas as épocas que não tinha nenhum agravo contra ninguém que eu estava colmatado. Sem nenhuma ajuda, sem a esperança que ela dispensa, o paraíso parecia-me o pior dos suplícios. Quantas vezes eu não disse-me que, sem a ideia do suicídio, eu me mataria imediatamente! O espírito que ela toma, escolhe-a, idolatra-a, espera milagres. Tal como um homem afogando-se que se agarraria à ideia do naufrágio.

     Há tantas razões para suprimir-se como razões para continuar, com esta diferença, entretanto, que estas últimas têm mais antiguidade e solidez. Elas pesam mais do que as outras porque confundem-se com as nossas origens, enquanto que as primeiras, frutos da experiência, sendo necessariamente mais recentes, são ao mesmo tempo mais prementes e incertas.

     O mesmo que diz: “Não tenho a coragem de me matar”, taxará, um instante após, de fraqueza, um feito diante do qual os mais valentes recuam. Matam-se, não cessa de repetir, por fraqueza, para não ter que enfrentar a dor ou a vergonha. Somente não se vê que são os fracos precisamente que, longe de tentar daí escapar, ao contrário, acomodam-se é que é preciso vigor para extirpar-se de uma maneira decisiva. Na verdade, é mais fácil matar-se do que vencer um preconceito tão antigo quanto o homem ou, ao menos, quanto as religiões, tão tristemente impermeáveis no gesto supremo. Tanto que a Igreja assistia, o alienado somente desfrutava de um regime de favor, só ele tinha o direito de atentar em seus dias: seu cadáver não era profanado nem pendurado. Entre o estoicismo antigo e o “livre pensamento” moderno, entre, coloquemos, Sêneca e Hume, o suicídio sofreu, o intermédio cátaro posto à parte, um longo eclipse – era sombria, com efeito, para todos aqueles que, querendo morrer, não ousavam enfrentar a interdição de suicidarem-se.

    As fraquezas que observamos e analisamos perdem a sua gravidade e sua força: uma vez escrutadas, suportamo-las melhor. Excetuada a tristeza. A parte do jogo que entra na melancolia está isenta. Intransigente, intratável, ela ignora a fantasia e o capricho. Com ela, não há escapatória nem vaidade. E é belo falar e comentar, ela não aumenta nem diminui. Ela é.

        O que jamais vislumbrou se matar aí decidir-se-á bem mais prontamente do que aquele que não cessa de pensar nisso. Todo ato crucial sendo mais fácil de cumprir por irreflexão do que por exame, o espírito do suicídio, uma vez que que aí se sente impelido, não terá nenhuma defesa contra este impulso súbito. Estará cego e sacudido pela revelação de uma saída definitiva que não tinha sido considerada antes; -- enquanto o outro poderá sempre retardar um gesto que infinitamente pesou e repesou, que conhece a fundo e pelo qual optará sem paixão, caso aí resolva sempre.

       Os horrores que o universo regurgita são parte integrante de sua substância. Sem eles, ele cessaria fisicamente de existir. Tirando as últimas consequências, não é aí cometer um “belo” suicídio. Só merece o epíteto o que surge do nada, sem motivo aparente, “sem razão”: o suicídio puro. É ele – desafio com todas as maiúsculas – que humilha, que esmaga Deus, a Providência e até o Destino.

       Não nos matamos, como é dito comumente, em um acesso de demência, mas em um acesso de insuportável lucidez, em um paroxismo que pode, se atentarmos, ser assimilado à loucura, pois uma clarividência excessiva, levada até o limite e da qual quereríamos desembaraçar-nos a qualquer preço, ultrapassa a esfera da razão. O momento culminante da decisão não testemunha, malgrado tudo, nenhum obscurecimento: os idiotas praticamente não se matam, mas podem se matar por medo, por pressentimento da idiotia. O próprio ato confunde-se então com o último sobressalto do espírito que acalmou-se, que reúne todos os seus poderes, todas as suas faculdades antes de anular-se. No limiar da última derrota, ele prova a si mesmo que não está completamente perdido. E ele perde-se em plena posse instantânea de todos os seus meios.

        Desaprendemos a arte de nos matarmos friamente. Os Antigos foram os últimos habilidosos nisso. Não concebemos mais do que o suicídio apaixonado, fervoroso, o suicídio como condição inspirada. Em relação ao desapego, é como convulsionários que aí ansiamos. Esses sábios antes da Cruz sabiam romper com esse mundo ou aí resignarem-se sem drama nem lirismo. A sua maneira perdeu-se, assim como o assento de sua imperturbabilidade: uma Providência usurpadora veio expulsar o Fatum de toda parte. E corremos para reencontrá-lo para aí buscar um sustento quando nenhum outro saberia ajudar-nos e seduzir-nos.

      Não há nada de mais profundo nem de mais incompreensível do que o Desejo. É por isso que só sentirmos viver quando nos desesperamos para destruí-lo.

     Suprimir-se ou não, tudo permanece inalterado. Mas a decisão de suprimir-se parece a cada um a mais importante que jamais foi tomada. Isto não deveria ser assim. E, portanto, é assim e nada poderá prevalecer contra esta aberração ou esse mistério.

     Jamais tendo coincidido senão com o intervalo que me separa dos seres e das coisas, com o vazio que se abre em meio de cada uma de minhas sensações, como não espantar-me-ia de ver-me subscrever ao que isso seja, endossar meus propósitos, concordar com minhas hesitações, até mesmo com minhas convicções? Tanta ingenuidade me aflige e me tranquiliza.

     É preciso estar ávido do absoluto para considerar o suicídio. Mas podemos considera-lo também duvidando de tudo. Isso é compreensível: mais buscamos o absoluto, mais, a despeito de não poder alcança-lo, mergulhamos na dúvida, a qual seria o inverso de uma busca, a conclusão negativa de uma grande empreitada, de uma grande paixão. O absoluto é perseguição; a dúvida, recuo. Esse recuo, perseguição para trás, fere quando não sabemos parar, extremidades inacessíveis em uma abordagem racional. Não era do início que procedeu; Eis a vertigem, como tudo que caminha além de si. Avançar ou retroceder aos limites, sondar o fundo de não importa o que é encontrar necessariamente a tentação da autodestruição.

    Nesta pequena ilha do Mediterrâneo, bem antes do dia, eu fazia, no caminho que me levava à falésia mais abrupta, reflexões de zelador em férias: eu teria essa casa, a pintaria de ocre, colocaria uma outra paliçada, etc. Malgrado minha ideia, eu me agarrava à menor bagatela: eu contemplava os agaves, eu passeava, escamoteava com digressões a urgência de meu propósito. Um cão começou à latir, depois festejou e me seguiu. Não podemos imaginar, se não o sentimos, o conforto que traz-vos um animal que vem te fazer companhia enquanto os outros dois viravam as costas.

     Diante de uma paisagem devastada pela luz, permanecer sereno supõe uma têmpera que eu não possuo. O sol é meu fornecedor de ideias negras e o verão a estação que eu sempre reconsiderei minhas relações com esse mundo e comigo mesmo, no maior desgosto de um e de outro.

    Quando compreendemos que nada é, que as coisas não merecem nem mesmo o estatuto de aparências, não temos mais necessidade de sermos salvos, nos salvamos e infelizes sempre.

     Tento – sem sucesso – não mais tirar vaidade de nada. Quando aí chego, entretanto, sinto que não mais pertenço ao bando dos mortais. Estou então acima de tudo, dos próprios deuses. Talvez seja isso a morte: uma sensação de grande, de extrema superioridade.

     Jean-Paul chama a noite mais importante da sua vida a que ele descobriu que não tinha mais diferença entre morrer no dia seguinte ou em trinta anos. Revelação tão capital quanto inútil. Se acontece de tempos em tempos de aproveitar o mérito, repugna, em compensação, tirar as consequências no imediato a diferença em questão aparecendo a cada um como irredutível, até mesmo absoluta: existir é provar que não compreendemos a que ponto é uma só coisa morrer agora ou não importa quando. Sabendo bem que não sou nada, resta-me ainda persuadir-me verdadeiramente. Alguma coisa por dentro recusa esta verdade da qual estou tão certo. Essa recusa me indica que eu me evado em parte e o que em mim escapa à minha jurisdição e a meu controle faz com que eu jamais esteja certo de poder dispor plenamente de mim mesmo. É assim que dizendo o pró e o contra do único gesto que importa, venho a ter má consciência de estar ainda vivo.

   A obsessão do suicídio é própria daquele que não pode viver nem morrer e que a atenção jamais se afasta desta dupla impossibilidade.

    Enquanto ajo, creio que o que executo comporta um “sentido”, pois de outra forma eu não poderia executá-lo. Quando eu cesso de agir, transformando-me de agente em juiz, não encontro mais o sentido em questão. Ao lado de meus arrebatamentos, há um outro (o eu do eu) que é-lhe superior: para ele, o que faço e mesmo o que sou não implica nem significação nem realidade. É como se tratasse de acontecimentos longínquos, superados para sempre, dos quais desembaraçamos as razões aparentes sem perceber a necessidade intrínseca. Poderiam simplesmente não sê-lo por ser-nos tão exteriores. Esta mesma perspectiva, aplicada à totalidade de uma existência, conduz retamente à ruminação sobre a extravagância de ser nascido.

    Do mesmo modo, se nos perguntássemos a propósito de não importa qual gesto o que resultará em um ano, em dez, em cem ou em mil, seria impossível acaba-lo e até mesmo esboçá-lo. Todo ato supõe uma visão limitada, salvo a de matar-se, porque procede, ele, de uma visão vasta, tão vasta que ela torna vãos e irrealizáveis todos os outros atos. Ao lado dela, tudo é futilidade e escárnio. Somente ela propõe uma saída, isto é, um abismo – um abismo libertador.

    Contar com o que for, aqui ou alhures, é fornecer a prova que ainda arrastamos as correntes. O réprobo aspira ao paraíso; esta aspiração rebaixa-o, compromete-o. Ser livre é livrar-se para sempre da ideia de recompensa, é não esperar nada dos homens nem dos deuses, é renunciar não somente a esse mundo e a todos os mundos mas à própria salvação, é romper até à ideia, esta corrente entre as correntes.

   O instinto de conservação – pura obstinação e nada mais – importa combate-lo, denunciar os estragos. Isso ocorrerá quanto mais reabilitarmos o suicídio, quanto mais sublinharmos a excelência, quanto mais o tornamos jubiloso e acessível a todos. Ato de forma alguma negativo, ao contrário, é ele que redime, que transfigura todos os atos cometidos antes dele. Pelo mais inexplicável dos mal-entendidos, a existência foi declarada sacra; não somente ela não é, mas ela somente vale à medida que trabalhamos para desfazê-la. Ela é, no máximo, acidente – um acidente que, pouco a pouco, cada um converteu em fatalidade. Quando sabemos a que nos atermos a seu respeito, coramos por aí atrelarmo-nos e, entretanto, atrelamo-nos por um longo e insensível processo que engaja mesmo os mais precavidos em levar a sério. Deveríamos, por um processo inverso, reconduzi-la ao seu estado de origem, à sua insignificância primitiva. Um esforço vizinho do prodígio sê-lo-ia necessário: aquele que o fornecesse cessaria de ser escravo; mestre de seus dias, pararia a sucessão quando bem apetecesse-lhe; sua existência seria em sua discrição, pois ela encontraria seu ponto de partida, seu estatuto verdadeiro: justamente o do acidente.

    Viver completamente sem objetivo! Eu entrevi essa condição e aí sempre atenho-me sem conseguir permanecer: sou muito fraco para uma tal felicidade.

   Se esse mundo emanasse de um deus honorável, matar-se seria uma audácia, uma provocação sem nome. Mas como há toda razão de pensar que trata-se da obra de um subdeus, não vemos porque nos importarmos. O que salvar? Grande aproveitador da eliminação da fé, o suicídio será cada vez mais fácil e, por aí, mesmo misterioso visto que terá usado seu prestígio de anátema. Picante e meritório outrora, ele adentra agora nos costumes, ganha terreno e, se cessa de ser insólito, em compensação seu futuro parece assegurado. No interior do universo religioso, ele apareceria como uma insanidade e uma traição, como a perversidade por excelência. Como crer e aniquilar-se? Recorramos à hipótese do subdeus que tem a vantagem de permitir os gestos extremos, a vitória radical sobre um mundo louco. Podemos imaginar esse criador, consciente enfim de sua confusão, declarar-se culpado: ele desiste, retira-se e, por um derradeiro cuidado de excelência, faz-se justiça. Ele desaparece assim como a sua obra, sem que o homem aí esteja para nada. Tal seria a versão melhorada do Julgamento final.

      Os suicidados prefiguram os destinados longínquos da humanidade. São anunciadores e, como tais, devemos respeitá-los. A hora deles chegará. Celebraremos eles, renderemos a eles uma homenagem pública e diremos que somente eles, no passado, entreviram tudo, tudo adivinharam. Diremos ainda que eles tomaram a dianteira, que foram sacrificados para indicar a via, que foram mártires à sua maneira: não foram mortos em tempos impossíveis e quando a morte natural chegava ao seu apogeu? Eles souberam antes dos outros que a impossibilidade pura e simples será um dia o quinhão de todos ao invés de ser uma maledicência, um privilégio. Precursores: assim os chamaremos; e eles o foram como os que, sensíveis à soberania do mal, incriminaram a Criação: os maniqueus no início da era cristã, e singularmente os seus discípulos tardios, os cátaros. O admirável é que esta incriminação era nos últimos mais frequente entre as pessoas do povo do que entre os letrados. Para convencermo-nos, basta consultar o Manual do Inquisidor de Bernard Gui ou não importa qual relato da época sobre as ideias e ações dos “heréticos”. Aí veremos – detalhe confortante – tal mulher de curtidor[1] ou mercador de madeira às turras com Lucifer ou denunciando nos primeiros ancestrais culpados do “ato mais satânico que for”. Esses sectários, ou visionários, tão curiosamente desenganados em meio a seu fervor, investidos do dom de identificar as armadilhas diabólicas sob todos nossos atos importantes, sabiam na necessidade deixarem-se morrer de fome e este feito, de forma alguma inabitual entre eles, marcava o auge de sua doutrina. Ficar em endura, jejuar até o completo esgotamento era uma prática, consecutiva à iniciação, e que tinha como missão preservar o “consolado”, com uma morte rápida, do perigo de apostasia ou que quaisquer tipos de tentações. O desgosto do lado útil da sexualidade, o horror em procriar faz parte da retomada em causa da Criação: para que multiplicar monstros? Se tivesse triunfado e permanecesse fiel a si mesmo, o catarismo teria resultado em um suicídio coletivo. Um tal êxito não seria possível: por mais adiantados que fossem, os espíritos não estavam suficientemente maduros. Mesmo hoje ainda estão longe de sê-lo e será preciso esperar ainda muito tempo antes que a humanidade não fique endura. Admitindo que ela jamais fique assim.

     No concílio de 1211 contra os Bogomilos, anatematizaram os que dentre eles sustentavam que “a fêmea concebe em seu ventre pela cooperação de Satã, que Satã aí reside desde então sem retirar-se até o nascimento da criança”. Não ouso supor que o Demônio possa interessar-se por nós ao ponto de fazer-nos companhia durante meses, mas eu não saberia duvidar que fomos concebidos sob seu olhar e que ele não tenha efetivamente assistido nossos caros genitores.

     Esta sensação de estar bloqueado pela eternidade, de cumprir a sua sentença antes de nascer, de ser muito deposto para ter do que sentir pena, esta certeza que matando-nos não matamos ninguém – é a tentação do mau suicídio, daquele que surge não da tristeza segundo Deus mas segundo o diabo, para conservar a distinção do Apóstolo. É também o desconsolo, em seu mais alto grau e que parece sem remédio, que ele permaneceria intacto, incólume, devendo criar um outro universo. Qual é esta prece “breve e veemente” que a Filocália recomenda contra as fraquezas e os terrores?

    Por que não me mato? – Se eu soubesse exatamente o que me impede, eu não teria mais questões a fazer-me visto que tê-lo-ia respondido a todas.

    Para não mais atormentarmo-nos, é preciso deixarmo-nos ir a um profundo desinteresse, cessarmos de estar intrigados pelo aqui embaixo ou pelo além, cair no não-estou-nem-aí[2] dos mortos. Como ver um vivente sem imaginá-lo cadáver, como contemplar um cadáver sem colocar-se em seu lugar? Ser ultrapassa o entendimento, ser dá medo.

     Alguém completamente bom jamais resolverá tirar a sua vida. Essa proeza exige um fundo – ou resquícios – de crueldade. O que se mata poderia, em certas condições, matar: suicídio e assassinato são da mesma família. Mas o suicídio é mais refinado, pois a crueldade para si é mais rara, mais complexa, sem contar que aí se junta a embriaguez se sentir esmagado por sua própria consciência. O homem com os instintos comprometidos pela bondade não intervém em seu destino nem deseja criar um outro; ele suporta o seu, aí resigna-se e continua, longe da exasperação, da arrogância, da malignidade que, de todo, convidam à autodestruição e facilitam-na. A ideia de acelerar seu fim não lhe passa de modo algum de tanto que é modesto. Com efeito, é preciso uma modéstia doentia para aceitar morrer de uma maneira que não a de seu próprio punho.

     Como conceber que uma prece não seja mais do que um monólogo, que um êxtase tenha um valor além dele mesmo, que nossa salvação ou nossa perda importe a um deus? E, contudo, é o que seria preciso poder admitir mesmo um segundo por dia.

     O futuro, esse precipício, a tal ponto aterra-me que eu adoraria vê-lo desaparecer até a ideia. Pois, no fundo, ela, bem mais do que o deslizamento no abismo que ela recobre, que me põe em transes e impede-me de saborear o presente. Minha razão vacila diante de tudo o que acontece, diante de tudo o que deve acontecer. Não é o que me espera, é a espera em si, é a iminência como tal que me consome e me assusta. Para encontrar um semblante de paz, preciso me agarrar a um tempo sem porvir, a um tempo decapitado.

     Eu bem remoí a fórmula da tripla renúncia: “Eu rejeito esse mundo, eu rejeito o mundo dos ancestrais, eu rejeito o mundo dos deuses” – quando meço o espaço que me separa do burel e do deserto, eu pareço um sannyásin[3] de feira.

    O arrependimento não seria um sinal de envelhecimento precoce? Se isso for verdade, eu sou senil de nascimento.

    Não escrutamos o fundo de uma coisa se não a vislumbrarmos à luz da desolação.

   Somente contam os instantes em que o desejo de ficar consigo é tão poderoso que acharíamos melhor explodir os miolos do que trocar uma palavra com alguém.

    O difícil, para o que renunciou pela metade é fazer o resto. A existência pesa-lhe sem dúvida, mas não esgotou a surpresa de existir. Daí decorrem suas irresoluções e o arrependimento de ter parado a meio caminho sem chance alguma de levar adiante o plano concebido de longa data. Um fracasso da renúncia.

   São nossos sofrimentos que dão algum peso a nossos pensamentos e os impedem de darem piruetas; são ainda eles que fazem-nos proclamar que não há realidade em parte alguma, que eles mesmos carecem. Assim, sugerem-nos um estratagema de defesa: triunfamos sobre eles declarando-os irreais, associando-os aos logros gerais. Seriam eles suportáveis, qual necessidade teriam de diminui-los e desmascara-los? Como não temos outra saída senão assimila-los seja no pesadelo, seja por capricho, o mais cômodo é optar pelo último. Tudo bem pesado, vale mais não ter nada. Se alguma coisa fosse, viveríamos na apreensão de não poder nos ocuparmos. Visto que nada é, todos os instantes são perfeitos e nulos e é indiferente desfrutar ou não.

    No mais profundo do desgosto de mim mesmo, digo-me que calunio-me talvez, que não vejo ninguém que, à mercê das mesmas obsessões, pôde afetar uma aparência de vivente durante tantos anos.

    A única maneira de desviar alguém do suicídio é puxá-lo. Jamais perdoará o seu gesto, abandonará o seu projeto ou retardará a execução, tê-lo-á como um inimigo, como um traidor. Pensastes voar em seu auxílio, salvá-lo e ele vê em sua intenção somente hostilidade e desprezo. O mais estranho é que pedia sua aprovação, que mendigava sua cumplicidade.  O que ele esperava exatamente? Você não abusou sobre a natureza de seu desespero? Que erro da parte dele reportar-se a você! Nesse estado de solidão, o que deveria atingi-lo é a impossibilidade de entender-se com qualquer um do que Deus.

     Estamos todos atingidos, tomamos como real o que não é. O vivente enquanto tal é um insensato é um cego duplamente: inapto para discernir o lado ilusório das coisas, percebe o sólido e o pleno por toda parte. Desde que por milagre ele aí vê claramente, abre-se à vacuidade e aí sente-se bem. Mais rica do que a realidade que ela substitui, ela substitui o todo sem o todo, ela é o fundamento e a ausência, variante abissal do ser. Mas o infeliz quer que a tenhamos como uma deficiência, daí nossos medos e nossos fracassos. O que ela é então para nós? No máximo impasse diáfano, inferno impalpável.

     Aplicado em extenuar, reduzir a nada seus apetites, somente conseguiu desarranja-los, despojá-los de tudo que eles tinham de são, de estimulante: um animal de rapina contrariado, minado, afligindo seus instintos de outrora. As suas garras sendo embotadas, mas não a vontade de servir, toda a sua violência é convertida em desolação (porque a desolação não é nada senão a agressividade partida, humilhada, impotente para se fazer valer). Ele começou por sabotar as suas paixões, depois foi a vez das crenças. O processo era inexorável. Esta revelação que presidiu os seus dias: aderir seja ao que for faz parte do infantilismo ou do delírio – poderia ser que fosse legítimo. Ele ainda talvez subscreve; ela não é menos atroz, intolerável. Ela permite durar mas não existir, ela faz parte dessas certezas que não nos restabelecemos jamais. Batalhador e conflituoso por natureza, ele não batalha e não disputa mais, ao menos com os outros. Os golpes que foram-lhe destinados é ele mesmo que desfere-os, é ele mesmo que encaixa-os. Seu eu é alvo. Sem eu? Qual eu? Não há mais quem atingir:  nem mais vítima, nem mais sujeito, nada senão uma sucessão de atos sem agente, um desfile anônimo de sensações...Um libertado? Um fantasma? Um farrapo?

     “De que serve ao homem ganhar o mundo se perde a sua alma?” Ganhar o mundo, perder sua alma! – Eu fiz melhor: perdi um e outro.

   Ainda que eu tente, será somente a manifestação de uma decadência, patente ou camuflada. Durante muito tempo fiz a teoria do homem-fora-de-tudo[4]. Este homem eu me tornei, eu agora encarno-o. Minhas dúvidas não deram em nada, minhas negações tomaram corpo. Vivo o que antes imaginava viver. Enfim encontrei um discípulo.  

 

Referência bibliográfica: CIORAN, EMIL. “Le mauvais demiurge”. In: ___.Oeuvres. Paris: Gallimard, 1203-1217. 

 

                                                         



[1] “Mégissier”, no original. Curtidor ou surrador de peles finas (N. do T.)

[2] “Je-m’en-foutisme”, no original (N. do T.)

[3] “Sannyâsin”, no original. Termo em sânscrito que significa “renunciante”. Diz-se daqueles que desapega­ram totalmente do corpo, da vida, do sexo, do dinheiro, enfim, de todos os laços, dos frutos das ações e dos haveres (N. do T.)

[4] “l’homme-en-dehors-de-tout”, no original (N. do T.)

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