Emil Cioran
(Trad. Marcelo Primo)
O MAU DEMIURGO
ENCONTROS COM O SUICÍDIO
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| Emil Cioran (Acervo público) |
Somente nos matamos se, por alguns aspectos, sempre estivemos fora de tudo. Trata-se de uma inapropriação original da qual podemos não estar conscientes. Quem é chamado a se matar só pertence por acidente a este mundo; não se enquadra em nenhum mundo.
É das noites onde
o futuro é abolido, no qual de todos os seus instantes somente subsiste o que
escolheremos para não ser mais.
“Tenho bastante
de ser eu”, repetem quando aspiram a fugir; e, quando fogem irrevogavelmente, a
ironia quer que cometam um ato que reencontrem-se, que tornem-se de súbito
totalmente si mesmos. Na fatalidade da qual quiseram escapar recaem no instante
em que se matam, sendo o suicídio somente o triunfo, a festa desta fatalidade.
Mais eu vou, mais
eu vejo diminuírem minhas chances de me arrastar um dia após outro. Para dizer
a verdade, sempre foi assim: não vivi no possível, mas no inconcebível. Minha
memória amontoa horizontes desmoronados.
Existe em nós mais
uma tentação do que vontade de morrer, pois se fosse-nos dado querer a morte, quem não aproveitá-lo-ia
na primeira contrariedade? Um outro impedimento ainda ocorre: a ideia de
matar-se parece inacreditavelmente nova àquele que está dela possuído; imagina
então executar um ato sem precedente.
Esta ilusão ocupa-o, lisonjeia-o e faz-lhe perder um tempo precioso.
O suicídio é uma realização brusca, uma libertação fulgurante: é o nirvana pela violência.
Quando nos atrai a
ideia de acabar, um espaço se estende diante de nós, uma vasta possibilidade
para além do tempo e da própria eternidade, uma abertura vertiginosa, uma
esperança de morrer para além da morte. Matar-se é, de fato, rivalizar com a
morte, é demonstrar que podemos fazer melhor do que ela, é fazer-lhe uma
brincadeira e, sucesso não negligenciável, se redimir aos seus próprios olhos.
Tranquilizamo-nos, persuadimo-nos assim que não é o último, que merecemos algum
respeito. Digo: até o momento, incapaz de tomar uma iniciativa, eu não tinha
nenhuma estima por mim. Agora tudo muda: destruindo-me, eu destruo ao mesmo
tempo todas as razões que eu tinha de desprezar-me, eu retomo a confiança, eu
sou alguém para sempre...
Visto que a minha
missão é sofrer, não compreendo porque tento imaginar meu destino de outra
maneira, ainda menos porque eu encolerizo-me contra sensações. Porque todo sofrimento é somente isso, em seu começo e
fim em todo caso. No meio, está claro, ele é um pouco mais: um universo.
Este furor em
plena noite, a necessidade de uma última explicação consigo, com os elementos.
De um lado, o sangue anima-se, trememos, saímos, repetimos que não há mais
razão para tergiversar, adiar: esta vez será tudo de bom. Mal estamos fora, um
imperceptível apaziguamento. Avançamos penetrados do gesto que vamos cumprir,
da missão que nos arrogamos. Um nada de exultação sobrepõe-se ao furor quando
dizemos que enfim chegamos a termo, que o futuro se reduz a alguns minutos, a
uma hora no máximo e que foi decretado por sua própria autoridade a suspensão
da totalidade dos instantes. Em seguida, vem a impressão reconfortante que
inspira-vos a ausência do próximo. Todos dormem. Como abandonar um mundo no
qual ainda se pode estar só? Esta noite, que devia ser a última, não ocorre de
nos separarmos, não concebemos que ela possa se esvanecer. E queríamos
defende-la do dia que a solapa e logo submerge-a.
Se pudéssemos
mudar de natureza, tornarmo-nos não importa o quê, desde já faríamos parte dos
eleitos. Como a metamorfose é irrealizável, agarramo-nos à Predestinação,
vocábulo mágico se o fosse. Apenas pronunciando-o, temos a sensação de termos
ultrapassado o estágio das interrogações e das perplexidades e encontrado enfim
a chave de todo impasse.
Quando sentimos a
vontade de acabar, seja ela fraca ou forte, somos levados a aí refletir, a nos explicarmos. De resto, aí somos
levados bem mais quando ela é fraca, pois, muito intensa, ela invade o espírito
e não deixa-lhe nem espaço nem lazer para considera-la ou evita-la.
Esperar a morte é
suportá-la, é engoli-la ao nível de um processo, é se resignar a um desenlace
que ignoramos a data, o modo e o decoro. Estamos longe do ato absoluto. Nada de
comum entre a obsessão do suicídio e o sentimento da morte – eu entendo este
sentimento profundo, constante, de um fim em si, de uma fatalidade de perecer
como tal, inseparável de um segundo plano cósmico e independente desse drama do
eu, no centro de toda forma de autodestruição. O suicídio liberta sempre: ele é
auge, é paroxismo da salvação. Deveríamos por decência escolhermos nós mesmos o
momento de desaparecer. É aviltante extinguir-se como extinguem-se, é
intolerável ser exposto a um fim sobre o qual nada podemos, quem espreita-vos,
abate-vos, precipita-vos no inominável. Talvez o momento virá que a morte
natural será completamente desconsiderada, em que enriqueceremos os catecismos
com uma fórmula nova: “Dispensai-nos, Senhor, do favor e da força de acabar, a
graça de eliminarmo-nos a tempo”. A conspiração milenar contra o suicídio é
causa do encobrimento e da esclerose das sociedades. Pertence-nos compreender
destruirmo-nos no bom momento, correr
alegremente em direção a nosso espectro. Tanto que aí não nos resolveremos,
mereceremos nossas humilhações. Quando foi esgotada a sua razão de ser, é
odioso obstinar-se. Mas é então a indignidade da morte natural que percebemos,
que, de alguma forma, observamo-nos. “Reencontrando, depois de vários anos, uma
pessoa que conhecemos desde criança, o primeiro olhar faz quase sempre supor
que algum grande mal a acometeu” (Leopardi). Durar é apequenar-se: a existência
é perda do ser. Visto que nada desaparece quando fosse preciso, deveríamos
lembrar da ordem ainda que sobrevivamos, encorajá-la e, na necessidade,
ajudá-la a encurtar seus dias. A partir de um dado momento, perseverar é
consentir em decair. Mas como estar certo de seus declínio? Não se pode
desprezar-se sobre os sintomas? A consciência de decair não implica uma
superioridade sobre a decadência? E, neste caso, ainda estamos decaídos? Como,
mais uma vez, saber que começamos a degringolar, como determinar esse momento?
– O erro é sem dúvida possível, mas ele pouco importa visto que, de toda
maneira, jamais morremos à tempo. Vamos à deriva e é somente quando afundamos é
que admitimos naufragar. E é muito tarde então para afundar por vontade
própria.
Isto faz pensar
que vamos nos matar. Não há ponto mais confortante: desde que o abordamos,
respiramos. Meditar sobre ele torna quase tão livre como o próprio ato. Mais eu
estou à margem dos instantes, mais a perspectiva de abstrair-me para sempre
reincorpora-me à existência, coloca-me na planície com os viventes, confere-me
uma espécie de honorabilidade. Esta perspectiva, que não posso passar-me,
tirou-me de todos os meus abatimentos, permitiu-me, sobretudo, atravessar todas
as épocas que não tinha nenhum agravo contra ninguém que eu estava colmatado.
Sem nenhuma ajuda, sem a esperança que ela dispensa, o paraíso parecia-me o
pior dos suplícios. Quantas vezes eu não disse-me que, sem a ideia do suicídio,
eu me mataria imediatamente! O espírito que ela toma, escolhe-a, idolatra-a,
espera milagres. Tal como um homem afogando-se que se agarraria à ideia do
naufrágio.
Há tantas razões
para suprimir-se como razões para continuar, com esta diferença, entretanto,
que estas últimas têm mais antiguidade e solidez. Elas pesam mais do que as
outras porque confundem-se com as nossas origens, enquanto que as primeiras,
frutos da experiência, sendo necessariamente mais recentes, são ao mesmo tempo
mais prementes e incertas.
O mesmo que diz:
“Não tenho a coragem de me matar”, taxará, um instante após, de fraqueza, um
feito diante do qual os mais valentes recuam. Matam-se, não cessa de repetir,
por fraqueza, para não ter que enfrentar a dor ou a vergonha. Somente não se vê
que são os fracos precisamente que, longe de tentar daí escapar, ao contrário,
acomodam-se é que é preciso vigor para extirpar-se de uma maneira decisiva. Na
verdade, é mais fácil matar-se do que vencer um preconceito tão antigo quanto o
homem ou, ao menos, quanto as religiões, tão tristemente impermeáveis no gesto
supremo. Tanto que a Igreja assistia, o alienado somente desfrutava de um
regime de favor, só ele tinha o direito de atentar em seus dias: seu cadáver
não era profanado nem pendurado. Entre o estoicismo antigo e o “livre
pensamento” moderno, entre, coloquemos, Sêneca e Hume, o suicídio sofreu, o
intermédio cátaro posto à parte, um longo eclipse – era sombria, com efeito,
para todos aqueles que, querendo morrer, não ousavam enfrentar a interdição de
suicidarem-se.
As fraquezas que
observamos e analisamos perdem a sua gravidade e sua força: uma vez escrutadas,
suportamo-las melhor. Excetuada a tristeza. A parte do jogo que entra na
melancolia está isenta. Intransigente, intratável, ela ignora a fantasia e o
capricho. Com ela, não há escapatória nem vaidade. E é belo falar e comentar,
ela não aumenta nem diminui. Ela é.
O que jamais
vislumbrou se matar aí decidir-se-á bem mais prontamente do que aquele que não
cessa de pensar nisso. Todo ato crucial sendo mais fácil de cumprir por
irreflexão do que por exame, o espírito do suicídio, uma vez que que aí se
sente impelido, não terá nenhuma defesa contra este impulso súbito. Estará cego
e sacudido pela revelação de uma saída definitiva que não tinha sido
considerada antes; -- enquanto o outro poderá sempre retardar um gesto que
infinitamente pesou e repesou, que conhece a fundo e pelo qual optará sem
paixão, caso aí resolva sempre.
Os horrores que
o universo regurgita são parte integrante de sua substância. Sem eles, ele
cessaria fisicamente de existir.
Tirando as últimas consequências, não é aí cometer um “belo” suicídio. Só
merece o epíteto o que surge do nada, sem motivo aparente, “sem razão”: o
suicídio puro. É ele – desafio com todas as maiúsculas – que humilha, que
esmaga Deus, a Providência e até o Destino.
Não nos matamos,
como é dito comumente, em um acesso de demência, mas em um acesso de insuportável lucidez, em um paroxismo
que pode, se atentarmos, ser assimilado à loucura, pois uma clarividência
excessiva, levada até o limite e da qual quereríamos desembaraçar-nos a
qualquer preço, ultrapassa a esfera da razão. O momento culminante da decisão
não testemunha, malgrado tudo, nenhum obscurecimento: os idiotas praticamente
não se matam, mas podem se matar por medo, por pressentimento da idiotia. O
próprio ato confunde-se então com o último sobressalto do espírito que acalmou-se, que reúne todos os seus
poderes, todas as suas faculdades antes de anular-se. No limiar da última
derrota, ele prova a si mesmo que não está completamente perdido. E ele
perde-se em plena posse instantânea de todos os seus meios.
Desaprendemos a
arte de nos matarmos friamente. Os
Antigos foram os últimos habilidosos nisso. Não concebemos mais do que o
suicídio apaixonado, fervoroso, o suicídio como condição inspirada. Em relação
ao desapego, é como convulsionários que aí ansiamos. Esses sábios antes da Cruz
sabiam romper com esse mundo ou aí resignarem-se sem drama nem lirismo. A sua
maneira perdeu-se, assim como o assento de sua imperturbabilidade: uma
Providência usurpadora veio expulsar o Fatum
de toda parte. E corremos para reencontrá-lo para aí buscar um sustento
quando nenhum outro saberia ajudar-nos e seduzir-nos.
Não há nada de
mais profundo nem de mais incompreensível do que o Desejo. É por isso que só
sentirmos viver quando nos desesperamos para destruí-lo.
Suprimir-se ou
não, tudo permanece inalterado. Mas a decisão de suprimir-se parece a cada um a
mais importante que jamais foi tomada. Isto não deveria ser assim. E, portanto,
é assim e nada poderá prevalecer contra esta aberração ou esse mistério.
Jamais tendo
coincidido senão com o intervalo que me separa dos seres e das coisas, com o
vazio que se abre em meio de cada uma de minhas sensações, como não
espantar-me-ia de ver-me subscrever ao que isso seja, endossar meus propósitos,
concordar com minhas hesitações, até mesmo com minhas convicções? Tanta
ingenuidade me aflige e me tranquiliza.
É preciso estar
ávido do absoluto para considerar o suicídio. Mas podemos considera-lo também
duvidando de tudo. Isso é compreensível: mais buscamos o absoluto, mais, a
despeito de não poder alcança-lo, mergulhamos na dúvida, a qual seria o inverso
de uma busca, a conclusão negativa de uma grande empreitada, de uma grande
paixão. O absoluto é perseguição; a dúvida, recuo. Esse recuo, perseguição para
trás, fere quando não sabemos parar, extremidades inacessíveis em uma abordagem
racional. Não era do início que procedeu; Eis a vertigem, como tudo que caminha
além de si. Avançar ou retroceder aos limites, sondar o fundo de não importa o
que é encontrar necessariamente a tentação da autodestruição.
Nesta pequena ilha
do Mediterrâneo, bem antes do dia, eu fazia, no caminho que me levava à falésia
mais abrupta, reflexões de zelador em férias: eu teria essa casa, a pintaria de
ocre, colocaria uma outra paliçada, etc. Malgrado minha ideia, eu me agarrava à menor bagatela: eu contemplava os
agaves, eu passeava, escamoteava com digressões a urgência de meu propósito. Um
cão começou à latir, depois festejou e me seguiu. Não podemos imaginar, se não
o sentimos, o conforto que traz-vos um animal que vem te fazer companhia
enquanto os outros dois viravam as costas.
Diante de uma
paisagem devastada pela luz, permanecer sereno supõe uma têmpera que eu não
possuo. O sol é meu fornecedor de ideias negras e o verão a estação que eu
sempre reconsiderei minhas relações com esse mundo e comigo mesmo, no maior
desgosto de um e de outro.
Quando
compreendemos que nada é, que as coisas não merecem nem mesmo o estatuto de
aparências, não temos mais necessidade de sermos salvos, nos salvamos e infelizes sempre.
Tento – sem
sucesso – não mais tirar vaidade de nada. Quando aí chego, entretanto, sinto
que não mais pertenço ao bando dos mortais. Estou então acima de tudo, dos
próprios deuses. Talvez seja isso a morte: uma sensação de grande, de extrema
superioridade.
Jean-Paul chama a noite mais importante da sua vida a
que ele descobriu que não tinha mais diferença entre morrer no dia seguinte ou
em trinta anos. Revelação tão capital quanto inútil. Se acontece de tempos em
tempos de aproveitar o mérito, repugna, em compensação, tirar as consequências
no imediato a diferença em questão aparecendo a cada um como irredutível, até
mesmo absoluta: existir é provar que
não compreendemos a que ponto é uma só coisa morrer agora ou não importa
quando. Sabendo bem que não sou nada, resta-me ainda persuadir-me
verdadeiramente. Alguma coisa por dentro recusa esta verdade da qual estou tão
certo. Essa recusa me indica que eu me evado em parte e o que em mim escapa à
minha jurisdição e a meu controle faz com que eu jamais esteja certo de poder
dispor plenamente de mim mesmo. É assim que dizendo o pró e o contra do único
gesto que importa, venho a ter má consciência de estar ainda vivo.
A obsessão do
suicídio é própria daquele que não pode viver nem morrer e que a atenção jamais
se afasta desta dupla impossibilidade.
Enquanto ajo, creio
que o que executo comporta um “sentido”, pois de outra forma eu não poderia
executá-lo. Quando eu cesso de agir, transformando-me de agente em juiz, não
encontro mais o sentido em questão. Ao lado de meus arrebatamentos, há um outro
(o eu do eu) que é-lhe superior: para ele, o que faço e mesmo o que sou não
implica nem significação nem realidade. É como se tratasse de acontecimentos
longínquos, superados para sempre, dos quais desembaraçamos as razões aparentes
sem perceber a necessidade intrínseca. Poderiam simplesmente não sê-lo por
ser-nos tão exteriores. Esta mesma perspectiva, aplicada à totalidade de uma
existência, conduz retamente à ruminação sobre a extravagância de ser nascido.
Do mesmo modo, se
nos perguntássemos a propósito de não importa qual gesto o que resultará em um
ano, em dez, em cem ou em mil, seria impossível acaba-lo e até mesmo esboçá-lo.
Todo ato supõe uma visão limitada, salvo a de matar-se, porque procede, ele, de
uma visão vasta, tão vasta que ela torna vãos e irrealizáveis todos os outros
atos. Ao lado dela, tudo é futilidade e escárnio. Somente ela propõe uma saída,
isto é, um abismo – um abismo libertador.
Contar com o que
for, aqui ou alhures, é fornecer a prova que ainda arrastamos as correntes. O
réprobo aspira ao paraíso; esta aspiração rebaixa-o, compromete-o. Ser livre é livrar-se
para sempre da ideia de recompensa, é não esperar nada dos homens nem dos
deuses, é renunciar não somente a esse mundo e a todos os mundos mas à própria
salvação, é romper até à ideia, esta corrente entre as correntes.
O instinto de
conservação – pura obstinação e nada mais – importa combate-lo, denunciar os
estragos. Isso ocorrerá quanto mais reabilitarmos o suicídio, quanto mais
sublinharmos a excelência, quanto mais o tornamos jubiloso e acessível a todos.
Ato de forma alguma negativo, ao contrário, é ele que redime, que transfigura
todos os atos cometidos antes dele. Pelo mais inexplicável dos mal-entendidos,
a existência foi declarada sacra; não somente ela não é, mas ela somente vale à
medida que trabalhamos para desfazê-la. Ela é, no máximo, acidente – um
acidente que, pouco a pouco, cada um converteu em fatalidade. Quando sabemos a
que nos atermos a seu respeito, coramos por aí atrelarmo-nos e, entretanto,
atrelamo-nos por um longo e insensível processo que engaja mesmo os mais
precavidos em levar a sério. Deveríamos, por um processo inverso, reconduzi-la
ao seu estado de origem, à sua insignificância primitiva. Um esforço vizinho do
prodígio sê-lo-ia necessário: aquele que o fornecesse cessaria de ser escravo;
mestre de seus dias, pararia a sucessão quando bem apetecesse-lhe; sua
existência seria em sua discrição, pois ela encontraria seu ponto de partida,
seu estatuto verdadeiro: justamente o do acidente.
Viver completamente
sem objetivo! Eu entrevi essa condição e aí sempre atenho-me sem conseguir
permanecer: sou muito fraco para uma tal felicidade.
Se esse mundo
emanasse de um deus honorável, matar-se seria uma audácia, uma provocação sem
nome. Mas como há toda razão de pensar que trata-se da obra de um subdeus, não
vemos porque nos importarmos. O que salvar?
Grande aproveitador da eliminação da fé, o suicídio será cada vez mais fácil e,
por aí, mesmo misterioso visto que terá usado seu prestígio de anátema. Picante
e meritório outrora, ele adentra agora nos costumes, ganha terreno e, se cessa
de ser insólito, em compensação seu futuro parece assegurado. No interior do
universo religioso, ele apareceria como uma insanidade e uma traição, como a
perversidade por excelência. Como crer e aniquilar-se? Recorramos à hipótese do
subdeus que tem a vantagem de permitir os gestos extremos, a vitória radical
sobre um mundo louco. Podemos imaginar esse criador, consciente enfim de sua
confusão, declarar-se culpado: ele desiste, retira-se e, por um derradeiro
cuidado de excelência, faz-se justiça. Ele desaparece assim como a sua obra,
sem que o homem aí esteja para nada. Tal seria a versão melhorada do Julgamento
final.
Os suicidados
prefiguram os destinados longínquos da humanidade. São anunciadores e, como
tais, devemos respeitá-los. A hora deles chegará. Celebraremos eles, renderemos
a eles uma homenagem pública e diremos que somente eles, no passado, entreviram tudo, tudo adivinharam. Diremos ainda que
eles tomaram a dianteira, que foram sacrificados para indicar a via, que foram
mártires à sua maneira: não foram mortos em tempos impossíveis e quando a morte
natural chegava ao seu apogeu? Eles souberam antes dos outros que a impossibilidade pura e simples será um
dia o quinhão de todos ao invés de ser uma maledicência, um privilégio. Precursores:
assim os chamaremos; e eles o foram como os que, sensíveis à soberania do mal,
incriminaram a Criação: os maniqueus no início da era cristã, e singularmente
os seus discípulos tardios, os cátaros. O admirável é que esta incriminação era
nos últimos mais frequente entre as pessoas do povo do que entre os letrados. Para
convencermo-nos, basta consultar o Manual
do Inquisidor de Bernard Gui ou não importa qual relato da época sobre as
ideias e ações dos “heréticos”. Aí veremos – detalhe confortante – tal mulher
de curtidor[1] ou
mercador de madeira às turras com Lucifer ou denunciando nos primeiros
ancestrais culpados do “ato mais satânico que for”. Esses sectários, ou
visionários, tão curiosamente desenganados em meio a seu fervor, investidos do
dom de identificar as armadilhas diabólicas sob todos nossos atos importantes,
sabiam na necessidade deixarem-se morrer de fome e este feito, de forma alguma
inabitual entre eles, marcava o auge de sua doutrina. Ficar em endura, jejuar até o completo
esgotamento era uma prática, consecutiva à iniciação, e que tinha como missão
preservar o “consolado”, com uma morte rápida, do perigo de apostasia ou que
quaisquer tipos de tentações. O desgosto do lado útil da sexualidade, o horror
em procriar faz parte da retomada em causa da Criação: para que multiplicar
monstros? Se tivesse triunfado e permanecesse fiel a si mesmo, o catarismo
teria resultado em um suicídio coletivo. Um tal êxito não seria possível: por
mais adiantados que fossem, os espíritos não estavam suficientemente maduros.
Mesmo hoje ainda estão longe de sê-lo e será preciso esperar ainda muito tempo
antes que a humanidade não fique endura.
Admitindo que ela jamais fique assim.
No concílio de
1211 contra os Bogomilos, anatematizaram os que dentre eles sustentavam que “a
fêmea concebe em seu ventre pela cooperação de Satã, que Satã aí reside desde
então sem retirar-se até o nascimento da criança”. Não ouso supor que o Demônio
possa interessar-se por nós ao ponto de fazer-nos companhia durante meses, mas
eu não saberia duvidar que fomos concebidos sob seu olhar e que ele não tenha
efetivamente assistido nossos caros genitores.
Esta sensação de
estar bloqueado pela eternidade, de cumprir a sua sentença antes de nascer, de
ser muito deposto para ter do que sentir pena, esta certeza que matando-nos não
matamos ninguém – é a tentação do mau suicídio,
daquele que surge não da tristeza segundo Deus mas segundo o diabo, para
conservar a distinção do Apóstolo. É também o desconsolo, em seu mais alto grau
e que parece sem remédio, que ele permaneceria intacto, incólume, devendo criar
um outro universo. Qual é esta prece “breve e veemente” que a Filocália
recomenda contra as fraquezas e os terrores?
Por que não me
mato? – Se eu soubesse exatamente o
que me impede, eu não teria mais questões a fazer-me visto que tê-lo-ia
respondido a todas.
Para não mais atormentarmo-nos, é preciso
deixarmo-nos ir a um profundo desinteresse, cessarmos de estar intrigados pelo
aqui embaixo ou pelo além, cair no não-estou-nem-aí[2]
dos mortos. Como ver um vivente sem imaginá-lo cadáver, como contemplar um
cadáver sem colocar-se em seu lugar? Ser ultrapassa
o entendimento, ser dá medo.
Alguém
completamente bom jamais resolverá
tirar a sua vida. Essa proeza exige um fundo – ou resquícios – de crueldade. O
que se mata poderia, em certas condições, matar: suicídio e assassinato são da
mesma família. Mas o suicídio é mais refinado, pois a crueldade para si é mais
rara, mais complexa, sem contar que aí se junta a embriaguez se sentir esmagado
por sua própria consciência. O homem com os instintos comprometidos pela
bondade não intervém em seu destino nem deseja criar um outro; ele suporta o
seu, aí resigna-se e continua, longe da exasperação, da arrogância, da
malignidade que, de todo, convidam à autodestruição e facilitam-na. A ideia de
acelerar seu fim não lhe passa de modo algum de tanto que é modesto. Com
efeito, é preciso uma modéstia doentia para aceitar morrer de uma maneira que
não a de seu próprio punho.
Como conceber que
uma prece não seja mais do que um monólogo, que um êxtase tenha um valor além
dele mesmo, que nossa salvação ou nossa perda importe a um deus? E, contudo, é
o que seria preciso poder admitir mesmo um segundo por dia.
O futuro, esse
precipício, a tal ponto aterra-me que eu adoraria vê-lo desaparecer até a
ideia. Pois, no fundo, ela, bem mais do que o deslizamento no abismo que ela
recobre, que me põe em transes e impede-me de saborear o presente. Minha razão
vacila diante de tudo o que acontece, diante de tudo o que deve acontecer. Não
é o que me espera, é a espera em si, é a iminência como tal que me consome e me
assusta. Para encontrar um semblante de paz, preciso me agarrar a um tempo sem porvir, a um tempo decapitado.
Eu bem remoí a
fórmula da tripla renúncia: “Eu rejeito esse mundo, eu rejeito o mundo dos
ancestrais, eu rejeito o mundo dos deuses” – quando meço o espaço que me separa
do burel e do deserto, eu pareço um sannyásin[3]
de feira.
O arrependimento não seria um sinal de
envelhecimento precoce? Se isso for verdade, eu sou senil de nascimento.
Não escrutamos o
fundo de uma coisa se não a vislumbrarmos à luz da desolação.
Somente contam os
instantes em que o desejo de ficar consigo é tão poderoso que acharíamos melhor
explodir os miolos do que trocar uma palavra com alguém.
O difícil, para o
que renunciou pela metade é fazer o resto. A existência pesa-lhe sem dúvida,
mas não esgotou a surpresa de existir. Daí decorrem suas irresoluções e o
arrependimento de ter parado a meio caminho sem chance alguma de levar adiante
o plano concebido de longa data. Um fracasso da renúncia.
São nossos sofrimentos que dão algum peso a
nossos pensamentos e os impedem de darem piruetas; são ainda eles que fazem-nos
proclamar que não há realidade em parte alguma, que eles mesmos carecem. Assim,
sugerem-nos um estratagema de defesa: triunfamos sobre eles declarando-os
irreais, associando-os aos logros gerais. Seriam eles suportáveis, qual
necessidade teriam de diminui-los e desmascara-los? Como não temos outra saída
senão assimila-los seja no pesadelo, seja por capricho, o mais cômodo é optar
pelo último. Tudo bem pesado, vale mais não ter nada. Se alguma coisa fosse, viveríamos na apreensão de não
poder nos ocuparmos. Visto que nada é, todos os instantes são perfeitos e nulos
e é indiferente desfrutar ou não.
No mais profundo do
desgosto de mim mesmo, digo-me que calunio-me talvez, que não vejo ninguém que,
à mercê das mesmas obsessões, pôde afetar uma aparência de vivente durante
tantos anos.
A única maneira de
desviar alguém do suicídio é puxá-lo. Jamais perdoará o seu gesto, abandonará o
seu projeto ou retardará a execução, tê-lo-á como um inimigo, como um traidor.
Pensastes voar em seu auxílio, salvá-lo e ele vê em sua intenção somente
hostilidade e desprezo. O mais estranho é que pedia sua aprovação, que
mendigava sua cumplicidade. O que ele
esperava exatamente? Você não abusou sobre a natureza de seu desespero? Que
erro da parte dele reportar-se a você! Nesse estado de solidão, o que deveria
atingi-lo é a impossibilidade de entender-se com qualquer um do que Deus.
Estamos todos atingidos, tomamos como real o que não
é. O vivente enquanto tal é um insensato é um cego duplamente: inapto para
discernir o lado ilusório das coisas, percebe o sólido e o pleno por toda
parte. Desde que por milagre ele aí vê claramente, abre-se à vacuidade e aí
sente-se bem. Mais rica do que a realidade que ela substitui, ela substitui o
todo sem o todo, ela é o fundamento e
a ausência, variante abissal do ser. Mas o infeliz quer que a tenhamos como uma
deficiência, daí nossos medos e nossos fracassos. O que ela é então para nós?
No máximo impasse diáfano, inferno impalpável.
Aplicado em extenuar,
reduzir a nada seus apetites, somente conseguiu desarranja-los, despojá-los de
tudo que eles tinham de são, de estimulante: um animal de rapina contrariado,
minado, afligindo seus instintos de outrora. As suas garras sendo embotadas,
mas não a vontade de servir, toda a sua violência é convertida em desolação
(porque a desolação não é nada senão a agressividade partida, humilhada,
impotente para se fazer valer). Ele começou por sabotar as suas paixões, depois
foi a vez das crenças. O processo era inexorável. Esta revelação que presidiu
os seus dias: aderir seja ao que for faz
parte do infantilismo ou do delírio – poderia ser que fosse legítimo. Ele
ainda talvez subscreve; ela não é menos atroz, intolerável. Ela permite durar
mas não existir, ela faz parte dessas certezas que não nos restabelecemos
jamais. Batalhador e conflituoso por natureza, ele não batalha e não disputa
mais, ao menos com os outros. Os golpes que foram-lhe destinados é ele mesmo
que desfere-os, é ele mesmo que encaixa-os. Seu eu é alvo. Sem eu? Qual eu? Não
há mais quem atingir: nem mais vítima, nem mais sujeito, nada senão
uma sucessão de atos sem agente, um desfile anônimo de sensações...Um
libertado? Um fantasma? Um farrapo?
“De que serve ao
homem ganhar o mundo se perde a sua alma?” Ganhar o mundo, perder sua alma! –
Eu fiz melhor: perdi um e outro.
Ainda que eu tente,
será somente a manifestação de uma decadência, patente ou camuflada. Durante
muito tempo fiz a teoria do homem-fora-de-tudo[4].
Este homem eu me tornei, eu agora encarno-o. Minhas dúvidas não deram em nada,
minhas negações tomaram corpo. Vivo o que antes imaginava viver. Enfim encontrei
um discípulo.
Referência bibliográfica: CIORAN, EMIL. “Le mauvais
demiurge”. In: ___.Oeuvres. Paris:
Gallimard, 1203-1217.
[1]
“Mégissier”, no original. Curtidor ou surrador de peles finas (N. do T.)
[2]
“Je-m’en-foutisme”, no original (N. do T.)
[3]
“Sannyâsin”, no original. Termo em sânscrito que significa “renunciante”. Diz-se
daqueles que desapegaram totalmente do corpo, da vida, do sexo, do dinheiro,
enfim, de todos os laços, dos frutos das ações e dos haveres (N. do T.)
[4] “l’homme-en-dehors-de-tout”,
no original (N. do T.)

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