Emil Cioran
(Trad. Marcelo Primo)
O MAU DEMIURGO
ENCONTROS COM O SUICÍDIO
![]() |
| Emil Cioran (Acervo público) |
Somente nos matamos se, por alguns aspectos, sempre estivemos fora de tudo. Trata-se de uma inapropriação original da qual podemos não estar conscientes. Quem é chamado a se matar só pertence por acidente a este mundo; não se enquadra em nenhum mundo.
É das noites onde
o futuro é abolido, no qual de todos os seus instantes somente subsiste o que
escolheremos para não ser mais.
“Tenho bastante
de ser eu”, repetem quando aspiram a fugir; e, quando fogem irrevogavelmente, a
ironia quer que cometam um ato que reencontrem-se, que tornem-se de súbito
totalmente si mesmos. Na fatalidade da qual quiseram escapar recaem no instante
em que se matam, sendo o suicídio somente o triunfo, a festa desta fatalidade.
Mais eu vou, mais
eu vejo diminuírem minhas chances de me arrastar um dia após outro. Para dizer
a verdade, sempre foi assim: não vivi no possível, mas no inconcebível. Minha
memória amontoa horizontes desmoronados.
Existe em nós mais
uma tentação do que vontade de morrer, pois se fosse-nos dado querer a morte, quem não aproveitá-lo-ia
na primeira contrariedade? Um outro impedimento ainda ocorre: a ideia de
matar-se parece inacreditavelmente nova àquele que está dela possuído; imagina
então executar um ato sem precedente.
Esta ilusão ocupa-o, lisonjeia-o e faz-lhe perder um tempo precioso.
O suicídio é uma realização brusca, uma libertação fulgurante: é o nirvana pela violência.

