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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

DE EMIL CIORAN: O MAU DEMIURGO

 Emil Cioran 

(Trad. Marcelo Primo) 


O MAU DEMIURGO

ENCONTROS COM O SUICÍDIO

 

Emil Cioran (Acervo público)

      Somente nos matamos se, por alguns aspectos, sempre estivemos fora de tudo. Trata-se de uma inapropriação original da qual podemos não estar conscientes. Quem é chamado a se matar só pertence por acidente a este mundo; não se enquadra em nenhum mundo.

      É das noites onde o futuro é abolido, no qual de todos os seus instantes somente subsiste o que escolheremos para não ser mais.

      “Tenho bastante de ser eu”, repetem quando aspiram a fugir; e, quando fogem irrevogavelmente, a ironia quer que cometam um ato que reencontrem-se, que tornem-se de súbito totalmente si mesmos. Na fatalidade da qual quiseram escapar recaem no instante em que se matam, sendo o suicídio somente o triunfo, a festa desta fatalidade.

     Mais eu vou, mais eu vejo diminuírem minhas chances de me arrastar um dia após outro. Para dizer a verdade, sempre foi assim: não vivi no possível, mas no inconcebível. Minha memória amontoa horizontes desmoronados.

     Existe em nós mais uma tentação do que vontade de morrer, pois se fosse-nos dado querer a morte, quem não aproveitá-lo-ia na primeira contrariedade? Um outro impedimento ainda ocorre: a ideia de matar-se parece inacreditavelmente nova àquele que está dela possuído; imagina então executar um ato sem precedente. Esta ilusão ocupa-o, lisonjeia-o e faz-lhe perder um tempo precioso.

     O suicídio é uma realização brusca, uma libertação fulgurante: é o nirvana pela violência.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

EMIL CIORAN: BREVÁRIO DOS VENCIDOS

 Emil Cioran 

(Trad. Marcelo Primo)



“Tédio”(1918), de Walter Richard Sickert (1860-1942)


IV

 

51. O tédio é a substância da duração e o desespero a do combate na duração.

Os homens creem em alguma coisa para esquecerem o que são. Escondem-se em ideais, aninham-se em ídolos e matam o tempo à força de crenças. Nada os acabrunharia mais do que descobrirem-se, no amontoado de seus agradáveis enganos, face a face com a pura existência.

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