Emil Cioran
(Trad. Marcelo Primo)
![]() |
| “Tédio”(1918), de Walter Richard Sickert (1860-1942) |
IV
51. O tédio é a substância da duração e o desespero a do combate na duração.
Os homens creem em alguma coisa para esquecerem o que são. Escondem-se em ideais, aninham-se em ídolos e matam o tempo à força de crenças. Nada os acabrunharia mais do que descobrirem-se, no amontoado de seus agradáveis enganos, face a face com a pura existência.
O desespero? É
viver de maneira interjectiva. Eis porque o
mar – interjeição líquida e infinitamente reversível – é a imagem direta da
vida e do coração.
Nem saúde, nem
doença: duas ausências que o vazio do
tédio substitui. A única razão de ser do universo consiste em nos mostrar que,
se ele desaparece, podemos substitui-lo pela música – uma irrealidade mais verdadeira.
In:___. Oeuvres.
Paris: Gallimard, 1995, p. 563.

Nenhum comentário:
Postar um comentário