quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

EMIL CIORAN: BREVÁRIO DOS VENCIDOS

 Emil Cioran 

(Trad. Marcelo Primo)



“Tédio”(1918), de Walter Richard Sickert (1860-1942)


IV

 

51. O tédio é a substância da duração e o desespero a do combate na duração.

Os homens creem em alguma coisa para esquecerem o que são. Escondem-se em ideais, aninham-se em ídolos e matam o tempo à força de crenças. Nada os acabrunharia mais do que descobrirem-se, no amontoado de seus agradáveis enganos, face a face com a pura existência.

O desespero? É viver de maneira interjectiva. Eis porque o mar – interjeição líquida e infinitamente reversível – é a imagem direta da vida e do coração.

Nem saúde, nem doença: duas ausências que o vazio do tédio substitui. A única razão de ser do universo consiste em nos mostrar que, se ele desaparece, podemos substitui-lo pela música – uma irrealidade mais verdadeira.

 

In:___. Oeuvres. Paris: Gallimard, 1995, p. 563.


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