segunda-feira, 27 de setembro de 2021

NEGACIONISMO À BRASILEIRA

 Por Marcelo Primo* 




    Parafraseando Sêneca quando trata da questão da honra em um de seus Aforismos para a sabedoria de vida, Schopenhauer nos diz com todas as letras que “quanto mais alguém é desprezível e ridículo, tanto mais solta é a sua língua” (2002, p. 88). E em se tratando de refletirmos acerca da imagem do Brasil lá fora, uma coisa é certa: perante a comunidade internacional, quanto mais se profere com terríveis mentiras o que se passa por aqui ética, econômica e politicamente mais pioram os olhares já nada condescendentes com os caprichos comportamentais de nossos representantes.  Ainda à luz das teses de Schopenhauer, até quando insistirão num tipo mais barato de orgulho, que é o orgulho nacional de ser negacionista, quando tal postura revela toda a incompetência e empáfia daquele que, individualmente, é a persona responsável por tratar de tudo que esteja relacionado com o fortalecimento, prosperidade e autonomia da nação? Contudo, em episódios recentes, o que vimos foi mais uma série de impropérios e negacionismos que nos desalentam à medida que a nossa imagem lá fora derrete sucessivamente.

       O fato ocorrido há pouco tempo na Assembleia-Geral da ONU mais uma vez contribuiu para mostrar que o orgulho negacionista é, claramente, de ir na contramão do mundo. Dessa maneira, é inegável que cada vez mais implodem as nossas relações internacionais e desfiguram o retrato do Brasil. De hotéis de luxo a piqueniques com pizzas nas ruas, uma solene comitiva – na qual tinham alguns infectados pela COVID-19! - nos representou pari passu com a sua proposta (des) governamental: sem organização, sem planos de ação e sem pudor algum em omitir a séria crise econômica, social e política a qual nos assola dia após dia. Discursos revisados por várias mãos não salvaram de ser revelado o demérito de quem não consegue enxergar os próprios defeitos, quanto mais discursar solidamente sobre as questões mais delicadas e urgentes de todo um país. Em outros termos, foram varridas para debaixo do tapete todas as nossas mazelas quando foi apresentado irresponsavelmente às nações presentes na Assembleia supracitada um cenário positivo que, no momento atual, está bem longe de ser alcançado.

     Assim, eis os traços peculiares de um negacionismo à brasileira. Os nossos negacionistas negam que estão sendo renegados por todas as nações e governos sérios preocupados em tentar solucionar os seus problemas internos e externos. Pior ainda: não percebem que essa negação da negação resulta na afirmação da sua deplorável condição quando tripudiam a ciência com desvarios, quando desdenham a vida com escárnios e quando descartam a ética em nome de interesses particulares e de um orgulho vazio. Tudo isso evidencia que o negacionismo, vestido de verde e amarelo, sempre foca nas tentativas de ganhar terreno e aumentar o seu raio de ação em todas as esferas possíveis e não medindo esforços para tal. 

Por essas bandas, minha gente, negar é combater o evidente e, quando este é provado, negam que a prova foi negada...

 

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*Professor de Filosofia do Colégio de Aplicação da UFS e membro do Grupo de Ética e Filosofia Política da UFS.

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