Por Marcelo Primo*
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Parafraseando Sêneca quando trata da questão da honra em um de seus Aforismos para a sabedoria de vida, Schopenhauer nos diz com todas as letras que “quanto mais alguém é desprezível e ridículo, tanto mais solta é a sua língua” (2002, p. 88). E em se tratando de refletirmos acerca da imagem do Brasil lá fora, uma coisa é certa: perante a comunidade internacional, quanto mais se profere com terríveis mentiras o que se passa por aqui ética, econômica e politicamente mais pioram os olhares já nada condescendentes com os caprichos comportamentais de nossos representantes. Ainda à luz das teses de Schopenhauer, até quando insistirão num tipo mais barato de orgulho, que é o orgulho nacional de ser negacionista, quando tal postura revela toda a incompetência e empáfia daquele que, individualmente, é a persona responsável por tratar de tudo que esteja relacionado com o fortalecimento, prosperidade e autonomia da nação? Contudo, em episódios recentes, o que vimos foi mais uma série de impropérios e negacionismos que nos desalentam à medida que a nossa imagem lá fora derrete sucessivamente.
O fato ocorrido há pouco tempo na
Assembleia-Geral da ONU mais uma vez contribuiu para mostrar que o orgulho
negacionista é, claramente, de ir na contramão do mundo. Dessa maneira, é
inegável que cada vez mais implodem as nossas relações internacionais e
desfiguram o retrato do Brasil. De hotéis de luxo a piqueniques com pizzas nas
ruas, uma solene comitiva – na qual tinham alguns infectados pela COVID-19! -
nos representou pari passu com a sua proposta (des) governamental: sem
organização, sem planos de ação e sem pudor algum em omitir a séria crise
econômica, social e política a qual nos assola dia após dia. Discursos
revisados por várias mãos não salvaram de ser revelado o demérito de quem não
consegue enxergar os próprios defeitos, quanto mais discursar solidamente sobre
as questões mais delicadas e urgentes de todo um país. Em outros termos, foram
varridas para debaixo do tapete todas as nossas mazelas quando foi apresentado
irresponsavelmente às nações presentes na Assembleia supracitada um cenário
positivo que, no momento atual, está bem longe de ser alcançado.
Assim, eis os traços peculiares de um
negacionismo à brasileira. Os nossos negacionistas negam que estão sendo
renegados por todas as nações e governos sérios preocupados em tentar
solucionar os seus problemas internos e externos. Pior ainda: não percebem que
essa negação da negação resulta na afirmação da sua deplorável condição quando
tripudiam a ciência com desvarios, quando desdenham a vida com escárnios e
quando descartam a ética em nome de interesses particulares e de um orgulho
vazio. Tudo isso evidencia que o negacionismo, vestido de verde e amarelo,
sempre foca nas tentativas de ganhar terreno e aumentar o seu raio de ação em
todas as esferas possíveis e não medindo esforços para tal.
Por essas bandas, minha
gente, negar é combater o evidente e, quando este é provado, negam que a prova
foi negada...
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*Professor de Filosofia do Colégio de Aplicação da UFS e membro do Grupo de Ética e Filosofia Política da UFS.

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