segunda-feira, 27 de setembro de 2021

PATRIOTAS SEM PÁTRIA

Por  Antônio Carlos dos Santos* 

 

De Latuff

      O dia 7 de setembro de 2021 ficará na história como um dos mais sinistros de nossos tempos. A data é, deveras, significativa. Ela é, tradicionalmente, voltada ao protesto cívico. Ou seja, ela nos faz lembrar que há quase 200 anos nós nos tornamos independentes de Portugal, mas jamais atingimos um patamar de país com justiça social, democracia consolidada e economia estável, razão pela qual precisamos manifestar nosso inconformismo visando a melhorar nossas instituições e nosso povo enquanto nação. 

   Contudo, o que marcou esse dia, do nosso ponto de vista, foi a turba que marchou em várias cidades brasileiras em apoio ao atual mandatário do país, exigindo, entre várias aberrações, o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, dentre outros despautérios. Autointitulando-se de “patrióticos”, queriam, pelas vias democráticas, acabar com a própria democracia, já tão fragilizada. Saberiam o que significa “patriotas”? Teriam noção da expressão “pátria”? Ao que tudo indica, não. 

   A mobilização foi grandiosamente apocalíptica. Jornais da extrema-direita e da direita foram mobilizados com editoriais apelativos. Muitas igrejas, de fundamentação neopentecostal, sobretudo, foram incorporadas aos atos, motivadas por pastores que são guiados por cifras de rebanhos pobres e carentes de tudo. 

    Muitas rádios, especialmente as de currais eleitorais de políticos inescrupulosos, foram convocados a engrossar o canto desafinado de que era preciso apoiar o presidente. A pergunta que não quer calar é: para quê? 

   Como é largamente conhecido, a turba patriótica se alimenta de fake News. Em uma linguagem mais acadêmica, denomina-se pós-verdade. Trata-se de uma comunicação a partir da qual os fatos são ignorados em detrimento das versões sobre os mesmos fatos.

    Afastam-se, pois, da realidade, e põem-se no direito a falar de tudo e sobre qualquer coisa com a pretensão de que tudo o que é dito seja verdadeiro porque quem o diz atesta a tal verdade, que, enquanto suposta, confere o direito de, inclusive, mentir, sob o pretexto de ter “liberdade de expressão”. Não há erro maior do que confundir, propositalmente, verdade com opinião. 

    É por essa razão que essa turba não gosta do jornalismo investigativo e um de seus temas prediletos é dirigir críticas à imprensa e elogiar certos blogues, youtubers e influenciadores da mesma turma delirante. Não podemos esquecer a “Milícia virtual” (ou “gabinete do ódio”) financiado com dinheiro público, cuja sede é nada mais, nada menos, o próprio Palácio do Planalto. Como sabemos, esse dado foi amplamente divulgado na imprensa e objeto de inquéritos. 

    Nesta bolha, quase impenetrável, parece não haver argumento suficientemente forte que faça alguém mudar de ideia, por mais real e evidente que demonstrem os fatos e que sintamos as suas consequências em nossas vidas quotidianamente.

    Quais são os fatos? Diante da pandemia, o Brasil beira 600 mil mortos, em números oficiais. O mandatário do país, como é largamente conhecido, é contra a ciência e defensor de tratamento ineficaz para os acometidos do COVID-19. No plano econômico, ainda segundo números oficiais, temos 14,7 milhões de desempregados. A gasolina bate 7 reais e a inflação obriga a população pobre a comprar osso, no lugar de carne. Mas, o espantoso, é que este governo foi eleito com a bandeira de acabar com a corrupção, a tal ponto que o seu primeiro ministro da justiça ficou conhecido como o “justiceiro de Curitiba”.

    E o que vemos, atualmente, graças à CPI da COVID? Compra de vacinas superfaturas, 3 bilhões em emendas para os membros do Centrão, suspeita de superfaturamento de produtos agrícolas em 259%...A lista é grande e, ao que tudo indica, o lema “a mamata acabou” foi apenas o slogan de campanha eleitoral. 

   Um dos fundamentos da filosofia política clássica moderna é de que o Estado, enquanto artifício humano, só existe em função da preservação da vida de seus cidadãos. Mas, o atual mandatário do país ataca o seu próprio povo e ainda cerca de 30% desse mesmo povo continua a chamá-lo de “mito”. Como, em sã consciência, apoia-se um governo que, no lugar de preservar e cuidar da saúde de seu povo, o incentiva para a morte? 

   Para quem não confunde ciência com opinião, “patriota” é aquele ou aquela que tem profundo vínculo com a terra onde nasceu, sua pátria. Trata-se de um sentimento de pertencimento a um lugar, a um povo, a uma cultura, razão pela qual se preocupa com todos que nela vivem de forma crítica

     Assim, quem é patriótico quer que seu país melhore; quer lutar pela vida de seus  concidadãos; quer promover a justiça social para todos, e não apenas para a sua classe de pertencimento. Quem é patriótico quer defender a natureza, quer preservar a Amazônia e as terras dos indígenas – sempre ameaçadas por grileiros, garimpeiros e gente do agronegócio. 

     Quem é patriota defende as instituições políticas, a democracia, a justiça e a vida de todos para que ninguém seja ameaçado de morte. Quem é patriótico defende o alimento, o feijão, e jamais, o fuzil. Que tipo de patriota foi às ruas no último 7 de setembro? Das duas, uma: ou não sabe o que significa patriotismo ou, se sabe, delira com as fake News. Se sabe o que é ser patriota, por que não defende os que passam fome neste país? Apiedar-se com quem tem fome não é tarefa apenas de política pública, mas de todo ser humano, inclusive aquele que se diz cristão. 

     Mas, se sabe o que é ser patriota e ainda assim defende um governo que mata de fome ou de doença esse mesmo povo, então, só pode ser delírio. Na linguagem acadêmica, delírio vem do latim, delilare, donde vem a expressão lera. Quem é do campo, sabe. 

     A lera é a preparação da terra em fileiras para que a semente caia sobre elas. Mas, no momento de semear, há sempre algumas que caem fora da lera e, com isso, ficam sem pátria e jamais frutificarão. Quando não morrem por inanição, viram erva daninha.

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*É Professor de Ética e Filosofia Política da UFS e Líder do Grupo de Pesquisa em ética e filosofia política da mesma instituição.


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