Por Antônio Carlos dos Santos*
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O
dia 7 de setembro de 2021 ficará na história como um dos mais sinistros de
nossos tempos. A data é, deveras, significativa. Ela é, tradicionalmente,
voltada ao protesto cívico. Ou seja, ela nos faz lembrar que há quase 200 anos
nós nos tornamos independentes de Portugal, mas jamais atingimos um patamar de
país com justiça social, democracia consolidada e economia estável,
razão pela qual precisamos manifestar nosso inconformismo visando a
melhorar nossas instituições e nosso povo enquanto nação.
Contudo, o que marcou esse dia, do nosso ponto de vista, foi a turba que marchou em várias cidades brasileiras em apoio ao atual mandatário do país, exigindo, entre várias aberrações, o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, dentre outros despautérios. Autointitulando-se de “patrióticos”, queriam, pelas vias democráticas, acabar com a própria democracia, já tão fragilizada. Saberiam o que significa “patriotas”? Teriam noção da expressão “pátria”? Ao que tudo indica, não.
A mobilização foi grandiosamente apocalíptica. Jornais da extrema-direita e da direita foram mobilizados com editoriais apelativos. Muitas igrejas, de fundamentação neopentecostal, sobretudo, foram incorporadas aos atos, motivadas por pastores que são guiados por cifras de rebanhos pobres e carentes de tudo.
Muitas rádios, especialmente as de currais eleitorais de políticos
inescrupulosos, foram convocados a engrossar o canto desafinado de que era
preciso apoiar o presidente. A pergunta que não quer calar é: para quê?
Como é largamente conhecido, a turba patriótica se alimenta de fake
News. Em uma linguagem mais acadêmica, denomina-se pós-verdade. Trata-se de
uma comunicação a partir da qual os fatos são ignorados em detrimento das
versões sobre os mesmos fatos.
Afastam-se, pois, da realidade, e põem-se no direito a falar de tudo e
sobre qualquer coisa com a pretensão de que tudo o que é dito seja verdadeiro
porque quem o diz atesta a tal verdade, que, enquanto suposta, confere o
direito de, inclusive, mentir, sob o pretexto de ter “liberdade de expressão”.
Não há erro maior do que confundir, propositalmente, verdade com opinião.
É por essa razão que essa turba não gosta do jornalismo investigativo e
um de seus temas prediletos é dirigir críticas à imprensa e elogiar certos
blogues, youtubers e influenciadores da mesma turma delirante. Não podemos
esquecer a “Milícia virtual” (ou “gabinete do ódio”) financiado com dinheiro
público, cuja sede é nada mais, nada menos, o próprio Palácio do Planalto. Como
sabemos, esse dado foi amplamente divulgado na imprensa e objeto de
inquéritos.
Nesta bolha, quase impenetrável, parece não haver argumento
suficientemente forte que faça alguém mudar de ideia, por mais real e evidente
que demonstrem os fatos e que sintamos as suas consequências em nossas vidas
quotidianamente.
Quais são os fatos? Diante da pandemia, o Brasil beira 600 mil mortos,
em números oficiais. O mandatário do país, como é largamente conhecido, é contra
a ciência e defensor de tratamento ineficaz para os acometidos do COVID-19. No
plano econômico, ainda segundo números oficiais, temos 14,7 milhões de
desempregados. A gasolina bate 7 reais e a inflação obriga a população
pobre a comprar osso, no lugar de carne. Mas, o espantoso, é que este governo
foi eleito com a bandeira de acabar com a corrupção, a tal ponto que o seu
primeiro ministro da justiça ficou conhecido como o “justiceiro de Curitiba”.
E o que vemos, atualmente, graças à CPI da COVID? Compra de vacinas
superfaturas, 3 bilhões em emendas para os membros do Centrão, suspeita de
superfaturamento de produtos agrícolas em 259%...A lista é grande e, ao que
tudo indica, o lema “a mamata acabou” foi apenas o slogan de campanha
eleitoral.
Um dos fundamentos da filosofia política clássica moderna é de que o
Estado, enquanto artifício humano, só existe em função da preservação da vida
de seus cidadãos. Mas, o atual mandatário do país ataca o seu próprio povo e
ainda cerca de 30% desse mesmo povo continua a chamá-lo de “mito”. Como, em sã
consciência, apoia-se um governo que, no lugar de preservar e cuidar da
saúde de seu povo, o incentiva para a morte?
Para quem não confunde ciência com opinião, “patriota” é aquele ou aquela
que tem profundo vínculo com a terra onde nasceu, sua pátria. Trata-se de um
sentimento de pertencimento a um lugar, a um povo, a uma cultura, razão pela
qual se preocupa com todos que nela vivem de forma crítica
Assim, quem é patriótico quer que seu país melhore; quer lutar
pela vida de seus concidadãos; quer promover a justiça social para todos,
e não apenas para a sua classe de pertencimento. Quem é patriótico quer
defender a natureza, quer preservar a Amazônia e as terras dos indígenas –
sempre ameaçadas por grileiros, garimpeiros e gente do agronegócio.
Quem é patriota defende as instituições políticas, a democracia, a
justiça e a vida de todos para que ninguém seja ameaçado de morte. Quem é
patriótico defende o alimento, o feijão, e jamais, o fuzil. Que tipo de
patriota foi às ruas no último 7 de setembro? Das duas, uma: ou não sabe o que
significa patriotismo ou, se sabe, delira com as fake News. Se sabe
o que é ser patriota, por que não defende os que passam fome neste país?
Apiedar-se com quem tem fome não é tarefa apenas de política pública, mas de
todo ser humano, inclusive aquele que se diz cristão.
Mas, se sabe o que é ser patriota e ainda assim defende um governo
que mata de fome ou de doença esse mesmo povo, então, só pode ser delírio. Na
linguagem acadêmica, delírio vem do latim, delilare, donde vem a
expressão lera. Quem é do campo, sabe.
A lera é a preparação da terra em fileiras para que a semente caia sobre elas. Mas, no momento de semear, há sempre algumas que caem fora da lera e, com isso, ficam sem pátria e jamais frutificarão. Quando não morrem por inanição, viram erva daninha.
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*É Professor de Ética e Filosofia Política da UFS e Líder do Grupo de Pesquisa em ética e filosofia política da mesma instituição.

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