Por Saulo H. S. Silva*
![]() |
| (Transporte-público-metrô [Estação da Sé] de São Paulo) |
"[...] esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação
permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as
precedentes".
(Marx, Karl. Manifesto comunista)
Vivemos a
tentativa de solapar a ideia de uma sociedade estruturada em conteúdos
moralizantes abrangentes, por uma sociedade plural, na qual os valores morais autoritários sejam pulverizados, e a Grande Ética concebida como a aceitação razoável do diferente?
O ritmo
estabelecido pelo modo de produção capitalista, ao aprofundar sua determinação
dos valores culturais e subjetivos das sociedades, tem reificado, padronizado e
criado um modelo de percepção e comportamento verificáveis nas pessoas. Esse
processo de padronização impõe às consciências uma transitoriedade irrefletida porque
traz consigo a negação da própria individualidade, enquanto singularidade social e
intelectual da sociedade plural, cosmopolita e tolerante. Os
fenômenos de massa, cada vez mais comuns nestes tempos fugazes, têm transformado
em tarefa difícil o emergir das consciências presas a tal rotina embriagante dos
dias corridos. Sobreviver a essa dualidade, entre ser uma individualidade e possuir comportamentos padronizados, requer efetivamente uma postura
heroica.
A promessa era justamente outra, e esse é o grande dilema.
Se em um primeiro momento a filosofia moderna instituiu o primado da
consciência, da subjetividade, o aprofundamento das opressões econômicas e sociais
acabou por anular qualquer possibilidade das individualidades imergirem do sútil
encantamento da massificação social e intelectual.
O emprego da concepção de consciência, nos termos da tradição influenciada pela filosofia de René Descartes, no plano social, é representado pelo conceito de pessoa, compreendido como individualidade intelectual e civil. O filósofo inglês John Locke, no Ensaio sobre o entendimento humano, obra importante para o final da filosofia do século XVII e para boa parte da que se desenvolveu no século XVIII, defendia a identificação da consciência com a pessoa individual. Segundo Locke, “pessoa, [...] trata-se de um ser inteligente pensante [...] e que pode pensar por si próprio”. Em geral, essa concepção permite afirmar a liberdade tanto do ponto de vista do movimento quanto do pensamento, termos esses importantes para a compreensão de princípios inerentes ao pensamento liberal inglês. Essas são razões pelas quais o filósofo alemão Walter Benjamin afirma em A Paris do Segundo Império em Baudelaire que “o herói é o verdadeiro sujeito da modernité. Isso significa que, para viver a modernidade, é preciso uma postura heroica” (1991, p. 98). Os tempos modernos tomam para si uma categoria bastante duradoura, na verdade é seu traço primordial, o indivíduo. Se o capitalismo é o modus operandi da sociedade burguesa, que é por excelência moderna, o indivíduo, ao mesmo tempo, está submetido a um sistema no qual a consciência de si é deformada constantemente.
Qual a saída?
Se buscarmos como
saída certa felicidade, aquela que nos tira dessa rotina alienante, cuja ação é
ditada de acordo com os gostos, os desejos e as paixões, a vida parecerá mais
tragável; desconfio que apenas pareça! Muitas vezes, as melhores coisas da vida
e as paixões que nos movimentam são simplesmente impulsos ou maneiras de nossas
consciências se resgatarem do viver automatizado. No entanto, para não se perder
em uma nova rotina alienante, aquela que diz respeito ao império dos prazeres,
às vezes, é preciso, voluntariamente, abandonar o que seria a saída e a suposta
felicidade como uma espécie de autosadismo sem o sentimento de prazer; ao
contrário, que sofresse pela atitude, sofresse pela falta.
*Dr. em Filosofia, Professor do Colégio de Aplicação da UFS.

Nenhum comentário:
Postar um comentário