sexta-feira, 10 de abril de 2020

A NOSSA IDADE MÉDIA

Por Marcelo Primo 
(Doutor em Filosofia e professor da Universidade Federal de Sergipe)




   De certa monta, recebo pelo whatsapp um cartaz no mínimo, curioso. Tratava-se de um evento anunciando um colóquio católico universitário, com o claro e dogmático intuito de combater a “ideologia universitária” agindo por várias frentes: contra o aborto, contra o feminismo, contra o ateísmo e contra tudo que seja suspeito de heterodoxia libertária no métier acadêmico. E mais: foi denominado como um evento científico [pasmem!].
  Quando volto ao passado e penso nas aulas de história que tive sobre a idade média e nas aulas que tive de filosofia medieval, penso que a tão famosa “noite de mil anos” ou “era das trevas” era muito mais sofisticada e intelectual do que esse proselitismo religioso travestido de ciência, querendo vincular coisas que nada têm a ver com outras. Não que eu incorra na inocência de querer que ressurjam novos Rogers Bacons, Marsílios de Pádua, Nicolaus Copérnicos e outros autores medievais que souberam separar claramente o que é do âmbito científico e o que é do âmbito da crença, mesmo acreditando em um deus. Mas se existe uma era das trevas soberba e vulgar, incauta e empedernida, essa era, sem dúvida, é a nossa, que de moderna e racional não tem absolutamente nada. Quando o historiador francês Jacques Le Goff nos instigara com o título do seu livro Pensar a idade média, deu uma sugestão inconsciente de refletir – enquanto nos permitem nos supostos redutos do livre-pensamento e da crítica – acerca da NOSSA idade média, em particular sobre como velhos fantasmas do fanatismo e da intolerância agora voltam com toda a força, por meio de uma ignorância nada douta.
   Penso aqui em um outro episódio. Uma vez aqui na cidade ocorrera um encontro de ateus. Convidaram-me a comparecer e eu categoricamente recusei. Mas por que? Simplesmente pelo fato de que descrença não é doutrinamento, mas uma opinião devidamente fundamentada contra uma tradição civilizatória que até hoje – logicamente – entende que tudo deve passar sob o crivo da crença em divindades e do aval das religiões, como, por exemplo, a ciência, a política e a moral. Na verdade, quem não crê levanta problemas éticos seríssimos, como, por exemplo, questionar o frágil vínculo entre ser religioso e ser bom, entre crer em um deus e bem-agir. Em suma, coisas do cotidiano que mostram o quão abismal é a distância entre o que se prega e o que se faz.
   Voltando ao assunto que motivou esse humilde textículo, penso que todos têm liberdade de ir ao supracitado evento, onde religião e ciência caminharão de mãos dadas. Entretanto, o que pensariam se fosse realizado um colóquio, aqui na universidade, de estudiosos que vão na mão contrária, de descrentes compromissados com o saber e não com as suas opiniões particulares? Seria IDEOLOGIA, que não tardaria a levar investidas de outras ideologias oficiais que sabemos que já existem de longa data.


Boa tarde a todos. DOMINUS VOBISCUM.

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