Por Marcelo Primo*
*Dr. em Filosofia, Professor do Colégio de Aplicação da UFS.
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| [Um Caracol) |
Revisitando o texto “A gênese da burrice”, último texto do livro Dialética do esclarecimento, escrito a quatro mãos pelos filósofos alemães Adorno & Horkheimer, me deu o que pensar acerca do atual cenário político brasileiro. Mais especificamente, no sentido de que para ser político e, consequentemente, fazer política, o critério último – e de sucesso – é simplesmente não saber nada da função a qual se foi elevado e designado. Em outros termos, o que predomina e está capitaneando a nação é uma burrice política e, convenhamos, nada tímida à medida que se aproveita da velha e crônica tendência brasileira a perceber e a agir lentamente quando se trata de se opor a tudo que denigre e atrasa o país.
Pensemos à luz do breve texto supracitado: a metáfora usada pelos autores é a do caracol, cujo símbolo da inteligência seria a sua antena e que, perante algum obstáculo, ela se retrai. Somente a duras penas virá à tona novamente para ousar ser autônoma. E se o perigo ainda pairar, ela se encolherá até o momento de não mais se valer de nenhuma tentativa. O sentido do caracol é dependente do músculo, e este enfraquecendo-se, seu desempenho fica comprometido, deixando o corpo inoperante por uma ferida física e o espírito petrificado pelo temor.
Ora, o cenário não é nada otimista: se os animais mais desenvolvidos são o que são devido a seu grau maior de liberdade, a sua existência evidencia que, em outros tempos, as antenas foram voltadas para outras direções sem serem suprimidas. Cada uma de suas espécies representa a frustração de infinitas outras espécies que malograram quando quiseram avançar, espantadas quando uma de suas antenas direcionou-se rumo à sua evolução. As suas potencialidades, sendo impedidas pela resistência imediata do habitat que as cercam, fizeram com que essa repressão natural se espalhasse interiormente em seus organismos, atrofiando órgão a órgão pelo medo. Mais do que isso: não é a determinação natural do animal que o deixa sob a tutela de sua própria condição, mas a força exterior que o enfrenta poderosamente existe desde os primórdios da existência. Deixou-o estagnado em sua fase evolutiva, bloqueando-o sucessivamente quando ele deseja superar tal fase. Um primeiro olhar frágil, meramente curioso, segundo Adorno & Horkheimer, mesmo tendo boa vontade e esperança mínimas, não é suficiente já que carece de uma energia permanente. Assim, por potências externas, esse olhar é impedido de ir mais além, transformando o animal – no nosso contexto, esse zoo politikon enfatizado com todas as letras por Aristóteles - em uma criatura acanhada e burra.
A desinteligência significa que os músculos foram imobilizados logo de saída, ao invés de se desenvolverem e evoluírem. Sendo impedidos, repetiram, como Sísifo, sem êxito inúmeras vezes as suas investidas para se superarem. Para pensarmos além do texto que inspirou essas linhas, a burrice inicial no decorrer da existência permite ver – se ainda tivermos a esperança em um olhar crítico, não de caracol - além da gênese da burrice, uma história e o empoderamento de outras burrices que não são sinônimo de timidez, mas, muito pelo contrário, que estão longe de uma retração muscular inibida por aquilo que se lhes opõe. Movidas e legitimadas por outras burrices que, saídas da casinha, movem-se com seus tentáculos tentando engolir toda e qualquer resistência. Se a burrice é uma cicatriz, ela ficou uma marca indelével tanto naqueles que a empoderaram e agora não tem a mínima coragem de fazer uma mea culpa e, pior ainda, nos que se antenaram e, desde a sua gênese, tentaram lutar contra ela.
*Dr. em Filosofia, Professor do Colégio de Aplicação da UFS.

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