Por Marcelo Primo
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| [Gravura do pintor espanhol Francisco de Goya, O sono da razão produz monstros] |
Revisitando o texto sempre atual de Immanuel Kant “O que é esclarecimento?”, nos deparamos ao final do escrito com uma resposta do filósofo alemão quando supostamente lhes perguntassem se já vivemos em sociedade esclarecida: a resposta é NÃO, afastando qualquer otimismo sempre associado ao seu pensamento crítico em relação à evolução moral da humanidade. No máximo, ele faz uma tímida concessão afirmando que é longa e vagarosa a caminhada em direção a um objetivo maior e deveras nobre que é a tão almejada emancipação intelectual no fim do ciclo da história. O pequeno, mas poderoso texto supracitado nos dá a pensar que, se em épocas de coexistência de célebres filósofos e cientistas, esclarecer-se não era coisa fácil, imaginemos nós hoje, estando no olho do furacão de negacionismos de todo tipo e a certeza e evidência dando lugar à convicções sem fundamento mínimo. Em outros termos, fazemos parte de uma sociedade que faz questão de estar nos antípodas do esclarecimento.
Sendo assim, como encontrar sentido
ou como confiar em um arranjo histórico universal e providencial que justifique
a avalanche de absurdos anti-científicos e morais que nos assolam
cotidianamente? Um suposto todo caminhando para o melhor atenua o claro e
dogmático retrocesso cognitivo que agora é a marca de determinados contextos?
Seria-nos um prêmio de consolação o pensamento de que, por mais que seja negada
a ciência em situações específicas, o curso da história prossegue vendo o que a
contraria como um mal menor para obtermos um bem maior? Estas são questões
perturbadoras inevitáveis quando nos apercebemos que, do jeito que as coisas vão,
podemos estar sendo levados a qualquer coisa, menos em direção ao nosso pleno
acabamento para nos tornamos seres perfeitos. Diante dos obstáculos, não é mais
questão de vagarosidade em direção à autonomia do intelecto, mas um combate
aberto contra justamente a ousadia de elevar-se a uma melhor condição
existencial.
Eis-nos então ao ponto inicial e com uma
questão a ser colocada: e quando,
querendo ser maiores, estamos cercados de empoderados descompromissados em
esclarecer toda uma nação e que nos apequenam deliberadamente? Quem ganha em
repudiar a ciência, substituindo-a por crendices carentes de método, de
reflexão e de ética? No turbilhão de invectivas contra o livre-pensamento e a
práxis científica, parece-me que o esclarecimento agora é uma chama lá no fim
do túnel, fraquinha, quase esmorecendo perante seus detratores implacáveis.

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