Por Saulo Silva1
A universidade pública vem sofrendo um amplo processo de sucateamento. É amplo porque é composto de um complexo de variantes e visa efeitos diversos, mas complementares. Em aproximadamente seis anos, a universidade brasileira tem passado de ser o foco do interesse das pessoas em ingressar nessas instituições como uma forma de ascensão social, seja na área acadêmica ou profissional, por meio da aprendizagem de conhecimento de alto nível, para se tornar o alvo de grupos detratores poderosos. São eles, as elites empresariais e os setores reacionários da sociedade, este último multifacetado entre religiosos ignorantes, políticos autoritários e todo tipo de terraplanismo possível.
Um
dos ataques mais tradicionais à universidade sempre foi oriundo dos setores
empresarias que veem na estrutura acadêmica um grande filão de negócios;
afinal, imaginem vocês, um grande grupo empresarial da área da educação se
apossando da estrutura humana, física e espiritual das universidades públicas,
transformando-as em instituições privadas com mensalidades cobradas de todos
que ali visem ingressar? Pois é, um grande negócio, não? Mas a quem ele
interessa? Pode ter certeza, esse antigo projeto que volta e meia reaparece de
privatizar as universidades somente interessa aos empresários, mas sempre foi
repudiado pela sociedade brasileira, por toda a comunidade acadêmica e por quem
vê na universidade pública o caminho do desenvolvimento presente e futuro. Em
outras palavras, esses grupos, com influências nos governos, sempre atuou com
todo lobby possível para adquirir a
universidade pública e transformá-la em um grande balcão de negócios que
solapará tanto a sua produção científica quanto afastará cada vez mais os
filhos e filhas da classe trabalhadora desses espaços fundamentais de formação
emancipatória e produção científica.
Com o advento do crescimento da influência do
discurso reacionário e anticientífico no Brasil, os detratores das universidades
públicas ganharam um importante aliado. Agora, não se trataria apenas de
privatizar para fazer um bom negócio, mas também para moldar as universidades
nos padrões completamente contrários à liberdade de pensamento, pesquisa,
ensino e extensão. Domesticando as pesquisas e enquadrando sua comunidade em uma
espécie de puritanismo neopentecostal que, perseguindo a diversidade na
academia, seja social ou de orientação acadêmica e áreas de pesquisas, visa
substituir artigos e livros acadêmicos por discursos embebecidos por uma visão
torpe do livro mítico das religiões do troco judaico. Como se essa releitura
empobrecida de um mito distante fosse capaz de reencaminhar o conhecimento
científico para as cucuias do obscurantismo de pastores preconceituosos e ignorantes.
Essa vertente de ataque é a mesma que está na origem da desvalorização da
escola e de seu papel fundamental para a formação intelectual e o
desenvolvimento socioemocional das crianças.
Por razões estapafúrdias, como, a previsão de ensino de educação sexual,
biologia darwiniana e filosofia social. Contra as escolas, fundaram os
movimentos da escola sem partido e, mais recentemente, a insistência na imposição
do ensino doméstico (homeschooling).
Com
o advento do atual governo federal, ganhou força o também conhecido ataque
autoritário a essas instituições, que visa preliminarmente açodá-la, e impedir
a autonomia acadêmica por compreendê-la como perigosa e demasiadamente crítica
para conviver com um governo cuja base é a violência do autoritarismo. Assim,
advogam que a universidade não pode se ampliar com o ingresso de indivíduos das
camadas mais populares e nem ter como base de escolha de dirigentes mecanismos
democráticos. Esse projeto acaba por capitanear todas as outas vertentes de
ataques às instituições acadêmicas brasileiras porque ele possui simplesmente a
força contra a liberdade, e como a força não convence ninguém, somente coage,
utiliza então o apelo à privatização e ao controle ideológico dessas
instituições.
Como
podemos perceber, o ataque atual à universidade brasileira é uma tentativa de
desorganização da produção científica no Brasil, haja vista que são essas as
instituições responsáveis pela formação e a produção de conhecimento, segundo
qualquer ranking que o leitor queira consultar. Para privatizar e inviabilizar
essas instituições, é preciso sucateá-las, desacreditá-las, persegui-las.
Acaba-se com sua democracia interna, mentem sobre suas qualificações,
inviabilizam-nas com cortes e mais cortes.
Os
últimos desses cortes, anunciados em junho, segundo o Portal G1 (em 03/06/2022), é em torno de 7,2% o que equivale a
cerca de R$ 1,6 bilhão, e afeta decisivamente os minguados recursos de custeio
e investimento das universidades, e a mesma orientação de ampliação de cortes e
desinvestimentos já foi noticiada para os institutos federais. No âmbito do Estado
de Sergipe, a UFS já anunciou, por meio de entrevista coletiva da atual
administração, medidas cada vez mais drásticas e que visam impedir a
inviabilidade de seu funcionamento que já conta em 2022 com cortes de 15
milhões, segundo divulgou a própria universidade.
Triste
cenário que traz a tentativa oficial de destruição de instituições fundamentais
para o futuro do país, porque não existe futuro soberano que não seja mediado
pela formação de sua população e pela produção de conhecimento que sempre é
revestido em prol da sociedade e do desenvolvimento nacional. Portanto, atacar
a universidade pública é também um gesto de lesa-pátria.
[1]
Professor de
Filosofia do Colégio de Aplicação da UFS e integrante do Grupo de Ética e
Filosofia Política da mesma instituição.

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