Por Ivan Fontes Barbosa (DCS/UFS) e
Vilma Soares de Lima (DCS/UFS)
Gera perplexidade quando nos deparamos com o conjunto de obstáculos que as políticas públicas relacionadas ao trabalho impõem aos comerciantes informais da cidade de Aracaju, em especial, alguns dos comerciantes da vulgarmente denominada praia da Cinelândia: os trabalhadores que comercializam na areia da praia são obrigados a desfazerem as barracas e retirarem as cadeiras e mesas todos os dias, enquanto que os donos de trailers são coagidos a manterem seus empreendimentos abertos 24 horas sob a pena de vê-los apreendidos.
Não precisa ser um
estudioso do campo da sociologia do trabalho para perceber que estamos
atravessando uma nova forma de reorganização da produção, vulgarmente conhecida
como quarta revolução industrial, e ela tem implicado um aumento substancial do
trabalho morto sobre o trabalho vivo. Em outras palavras: as máquinas estão
substituindo os trabalhadores formais e a informalidade e o trabalho precário,
constantes variáveis para entender a formação da sociedade brasileira pós-escravocrata,
parece ser o refúgio que tem implacavelmente abraçado todos, dos possuidores de
capital econômico e cultural às classes populares.
O crescimento deste
fenômeno no âmbito das relações de trabalho em escala mundial tem sido parte da
agenda dos interesses da sociologia e dos debates sobre o mundo do trabalho
desde o fim dos anos 1990. A constatação era que a ampliação da formalidade com
garantias trabalhistas, ligada ao aumento e a consolidação da produção
industrial, estava comprometida ante o paradoxal avanço do desenvolvimento
tecnológico. Este fenômeno foi cognominado de desemprego estrutural e
contemporaneamente tem sido representado pelos termos quarta revolução
industrial ou indústria 4.0.
No âmbito brasileiro e
latino-americano, marcado por modalidades coloniais e dependentes de desenvolvimento,
a existência de tipos de trabalho e de relações específicas de inserção no
âmbito da economia capitalista, gerou um conjunto de reflexões e estudos sobre
esse fenômeno. Trabalhador marginal, massa marginal, polo marginal,
informalidade e mais recentemente os debates sobre o precariado, pejotização e
uberização, são momentos importantes do processo de explicação e esclarecimento
acerca da existência e crescimento exponencial dessas modalidades de trabalho e
da importância do reconhecimento dessas atividades por parte dos órgãos competentes.
Orbitam estudos da
sociologia do trabalho brasileira em torno da questão dos trabalhadores não
incorporados ao rol das relações de assalariamento desde o fim da década de
1960. As primeiras pesquisas constataram que a oposição entre trabalhadores
marginais (informais) e assalariados nada tinham nada a ver com a suposta
dualidade que confrontava duas formas produtivas, uma dinâmica e outra que
constituiria um “peso morto” no processo de geração de riquezas. Os resultados
indicaram a existência de uma lógica estrutural de tipo capitalista, que reunia
formas desiguais e combinadas de atividades, e que, ao se expandirem, recriavam
modalidades produtivas “arcaicas” (principalmente o artesanato e a indústria a
domicílio), criando também novas formas tradicionais na divisão social do
trabalho (notadamente o trabalho autônomo no setor terciário da economia).
O debate contemporâneo, acerca
das especificidades das novas relações de trabalho, e a necessidade de
ampliação e atualização das categorias de pensamento da sociologia do trabalho,
encontra abrigo nos inúmeros usos do conceito de precariado. Esta noção tem buscado
explicar a emergência de novas formas de trabalho e seus efeitos na vida das
pessoas. Para uns, não se trata da “classe média oprimida” ou de um a “classe
baixa”, tampouco da “classe trabalhadora mais baixa”. Ela tem um fardo
distintivo de insegurança e terá, igualmente, um conjunto diferente de
reivindicações. Além da falta de garantia no emprego e da renda social
insegura, aqueles que fazem parte do precariado carecem de uma identidade social
e coletiva baseada no trabalho. Quando estão empregados, ocupam empregos
desprovidos de carreira e sem tradições de memória social, ou seja, não sentem
que pertencem a uma comunidade ocupacional imersa em práticas estáveis e códigos
de ética, normas de comportamento, reciprocidade e fraternidade.
Outros pesquisadores
encaram que o precariado não pode ser entendido como uma nova classe social e
sim como uma parcela do proletariado precarizado. É constituída pelos excluídos
(tanto o lupemproletariado quanto a população pauperizada), sendo a fração mais
mal paga e explorada do proletariado urbano e dos trabalhadores agrícolas.
Outra linha de
investigação procura salientar o precariado como sendo, não uma nova classe
social, mas sim uma nova camada da classe social do proletariado com
demarcações categóricas bastante precisas no plano sociológico: é a camada
média do proletariado urbano precarizado, constituída por jovens-adultos
altamente escolarizados com inserção precária nas relações de trabalho e vida
social.
Se o precariado é um
conceito marcado pela polissemia, apresentando múltiplas instruções de como
circunscrever a diminuição significativa dos postos de trabalho formal e o
desenvolvimento de novas relações de emprego, as noções de uberização e
pejotização encontram mais consenso em torno de sua delimitação. A primeira é entendida
com um processo contemporâneo que afeta diretamente as relações de trabalho implicando
uma maior individualização e invisibilidade do trabalhador, pois vem assumindo
a aparência de prestação de serviços e obliterando as relações de
assalariamento e de exploração do trabalho. Já a segunda é utilizada para
traduzir um instituto da prestação de serviços via empresa individual
(Microempreendedor Individual—MEI) marcado pela descaracterização do vínculo
empregatício a partir dessa contratação de serviços de forma interorganizacional
(de empresa para empresa).
As mudanças que desde a
década de 1990 marcam o cenário da economia brasileira apontam para o
vertiginoso incremento dessas modalidades de relações de trabalho. A nostalgia
do fordismo, que remete a um tempo em que o trabalho assalariado representava o
modelo de sociedade inclusiva, perde espaço para um conjunto de constatações
que apontam para a diminuição drástica de postos de trabalhos formais e o
aumento significativo do desemprego.
Diante desse cenário, é
mister que as políticas públicas encarem essa configuração de forma serena e
objetiva. Não dá pra oferecer obstáculos às estratégias de manutenção dessa
população pauperizada e excluída das benesses da sociedade do trabalho. É
necessário dar apoio e intensificar ações que visem garantir as condições de sobrevivência
dessa ampla e crescente parcela da classe trabalhadora.


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