terça-feira, 23 de agosto de 2022

O CASTIGO EDUCACIONAL

 Por Marcelo Primo1 

(Professor da UFS) 


Desde o mês de maio passado, lei e projetos na direção da aprovação do controverso homeschooling ganham força para a sua implementação, autorização e regulamentação aqui no Brasil, escancarando a desigualdade e dando livre curso a recursos jurídicos para que não seja oferecida uma educação pública minimamente decente. Foi aprovado em caráter de urgência na câmara dos deputados o Projeto de Lei no 2.401/2019 acerca da educação domiciliar por 264 votos a 144 e ainda podendo ser votado este ano no Senado Nacional. Tal celeridade só mostra o quanto grupos conservadores religiosos e políticos endossam e investem maciçamente no negacionismo científico e na deslegitimação pedagógica dos saberes necessários que devem ser ensinados nas escolas.

Pois bem. A novidade do momento foi um curso promovido online pela ANED (Associação Nacional de Educação Familiar) em parceria com as empresas “Família que educa” e a “Homeschoolarizando”, a “Comunidade Educação no Lar” e a “Kairós”.  O curso supracitado defende que castigos físicos têm um objetivo claro, que, (pasmem!) deve ser feito com calma e paciência, apoiados nos “direitos” da família e, claro, com a devida fundamentação bíblica que não hesita em incitar a usar a vara como repreensão vendida como sabedoria para que as crianças não fiquem entregues a si mesmas e envergonhem suas genitoras. Indo às raias do absurdo, os treinamentos virtuais— que são vendidos para as famílias— ainda sugerem que a disciplina seja incutida em áreas onde as marcas corporais não fiquem à mostra e, se as crianças perguntarem acerca da necessidade de castigos físicos, a resposta de bate-pronto é que isto é um assunto privado. Afinal de contas, disciplinem seus filhos e filhas em nome de um deus, mas não para matar, só tornem seus corpos dóceis. E, sem sombra de dúvida, não mostrariam nas escolas o que Foucault pensou em seu Vigiar e punir sobre o que significa realmente disciplinar os corpos por meio da autoridade, violência, obediência e correção.

 Na absoluta contramão dessa pedagogia grosseira e fundamentalista promovida por esses verdadeiros ativistas de um ultraconservadorismo religioso, político e educacional, sugiro aqui um belíssimo livro intitulado Filhos sem deus: ensinando a criança um estilo ateu de viver, escrito a quatro mãos pelo casal argentino Alejandro Rozitchner e Ximena Ianantuoni.  Lá eles argumentam com consistência em diversos momentos que valores convencionais não são dependentes do que se crê ou descrê. Os valores provêm de consensos sociais entendidos como preciosos acordos que a humanidade estabeleceu no decorrer dos tempos oriundos de diversas experiências vividas e do conhecimento de certas leis naturais que não podem ser descartadas. Mais do que isso, se faz necessário o entendimento que a crença na existência de um deus não é uma experiência universal, sendo que algumas pessoas precisam disso, outras não e que ninguém é pior moral ou eticamente devido a isso.

Assim, esta leitura de mundo, enquanto proposta pedagógica, não exige uma educação impositiva que dogmatize preceitos para enveredarmos pelo caminho do bem-estar social para nós e para a coletividade. O mais fundamental é esclarecer acerca do que é necessário para isso sem tomar como ponto de partida carolices religiosas mercadológicas características do tal de homeschooling. Este, que se arroga a pretensão de ser nos tempos atuais uma instituição moralista e moralizadora, paradoxalmente, não possui escrúpulo moral algum para educar, precisando primeiramente seus fomentadores serem educados ao invés de quererem educar os educadores. 


[1] Professor de Filosofia do Colégio de Aplicação da UFS e integrante do Grupo de Ética e Filosofia Política da mesma instituição.



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