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quarta-feira, 12 de junho de 2024

BALADA DO HOMEM SEM DEUS

 Versão original de Agostinho dos Santos, adaptação de Marcelo Primo


Imagem de domínio público 


Oh, deus que há tanto tempo,

Eu tenho andado a ignorar,

Conheço-te de nome,

De ouvir dizer, jamais ver nem amar,

Vejo em tuas supostas obras,

O céu, a terra,

O sol e o mar,

O choro da criança,

Desesperança, sem findar.

 

Oh, deus, deus por favor,

Prefiro estar na descrença,

Oh deus, não sou dos teus,

Mostrando em mim, tua ausência.

 

Oh, deus, deus por favor,

Prefiro estar na descrença,

Oh Deus, não sou dos teus,

Mostrando em mim, tua ausência.


 


sábado, 18 de abril de 2020

DE NICOLAS BOILEAU: CANÇÃO PARA BEBER

Poemas de Nicolas Boileau  (1636-1711) 


(Cartoon de Daniel Luiz, inspirado em Le buveur d'absinthe - Jean D'Esparbes)  


I - CANÇÃO PARA BEBER QUE FIZ COM 17 ANOS QUANDO SAÍ

DO MEU CURSO DE FILOSOFIA
[1]
(1653)
Filósofos sonhadores, que pensam tudo saber,
Inimigos de Baco, entrem em serviço:
Vossos espíritos estão mergulhados no vício,
Vão, velhos loucos, vão aprender a beber.

Se é preciso rir ou cantar em um festim,
Um doutor então acaba com o seu latim:
Um glutão tem toda a glória
Vão, velhos loucos, etc.


II – CANÇÃO PARA BEBER
(1653-1656)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

DIGA

Por, Ckelly Akin


[Canto 24 da Divina comédia, (obra prima de Dante Alighieri):
"Ladrões torturados por serpentes na sétima vala do Malebolge".
Ilustração de Gustave Doré (séc XIX)]
O preconceito vai além da raça,
A hipocrisia é o que condena a massa,
O sofrimento, tentamos esconder,
A violência faz medo,
A miséria e a fome não queremos ver!

A compaixão vai além de mim,
A desordem é o que se ver aqui.
Vivemos numa guerra onde não acaba mais,
As crianças brigam por guerra
E os adultos imploram por paz.

Vivemos nas garras da impunidade:
(e a primeira vista)
A morte é a única saída.
Vivemos nas garras da impunidade,
(e a primeira vista)
Onde está a saída?
DIGA!

Viver é fácil pra você
Se fecha os olhos e não quer ver,
Essa sociedade é normal?
Pois vivemos nela uma história real!
O que prefere? Esquecer?

A decadência humana ou o romance da TV?
O que dá para resistir?
A generosidade ou um convite para sair daqui!

sábado, 25 de outubro de 2014

APÁTRIDA


Por, Saulo H. S. Silva

(Trabalho de autor desconhecido)

Há tempos perdi a noção das fronteiras,
Das convenções e sotaques que separam
Os homens de si mesmos por bandeiras
Onde as cores do sectarismo flamulam.

Assumi como minhas todas as línguas,
Cuja naturalidade o mundo povoam,
Mas não dividem os homens em pátrias
Beligerantes que se odeiam e digladiam.

Porque é a Terra a minha nação amada,
E o nacionalismo enfadonho eu desprezo
Como uma opinião chula e interessada.

Assim, sou como um verdadeiro apátrida,    
E o olhar internacionalista que tanto prezo
Deve desdenhar costumes, cores e língua!  

quinta-feira, 15 de maio de 2014

GRILHÕES


Por Saulo H. S. Silva

(Trabalho de autor desconhecido)

São diversos os grilhões que nos sufocam
Às vezes amarram as mãos e atam os pés
Outras prendem a consciência e o pensamento
Com resistentes correntes imperceptíveis.
Em ambos os casos, somos tomados de assalto,
Imobilizados por diversos tipos de cadeados
Que, quando prendem demasiado nosso corpo,
Dar um passo à frente é tarefa muito difícil.
Porém, mais sútil e tenaz é o que encerra o pensar!
Desde então, nem se percebe que se está preso
E o pensamento cativo apenas observa a vida...
Passando por entre os dedos que mesmo libertos
Não consegue tomar para si seu próprio destino.  

sábado, 23 de fevereiro de 2013

CARNE, OSSOS E CARTILAGENS



Por, Saulo Henrique Souza Silva


Pintura do inglês William Hogarth (1697-1764)


Eu sou demasiadamente homem
Sou carne, sou ossos e cartilagens,
Sentimentos, raivas e angustias.
Sou a vaidade, às vezes o desânimo!

Eu sou completamente matéria
E espero estar bem certo disso,
Pois desprezo a ideia do espírito,
Quero somente a plenitude do agora!

De que me vale todas as falsas ideias,
O confabular renitente com o imprevisto?
Não sou luz, nem sou trevas ou nevoeiro:
Eu quero sim é dos rótulos estar liberto!

Afinal, de que me vale tantas vãs palavras,
Quando a morte não margeia minha porta?
Não sou a empáfia, sou adepto do razoável:
E aquilo que me desperta é meu único alvo!




quinta-feira, 15 de março de 2012

VIANDANTE (OU CAJU ANDANTE)


 Saulo H. S. Silva



[Aracaju, visão da Av. Ivo do Prado (Rua da Frente) ao lado do Rio Sergipe.]




Como não andar?
Caminhar, caminhar, caminhando...
Sempre estou indo a algum lugar!
Passo por ruas de cheiro conhecido,
Por casas que sei de cor a cor,
Atravesso a ponte e no meio abro os braços,
Olho para os lados, a morada dos aracaju’s.
Viandante, sigo caminho rente à orla do rio
Onde vejo bocas, rostos, pessoas,  aracaju’s,
Muitos outrora vistos, agora eu os vejo de novo.
Nesse ir e vir: pessoas, rios e pontes ao largo!
Cansado, sento-me às margens do rio Sergipe
E perco meu olhar fitando as jovens de pele morena,
Tão formosas e morenas quanto a própria cidade,
A desfilar a exuberância de seus corpos bronzeados.  
Voltando a caminhar alcanço a ponte mais famosa 
A qual não é ponte, mas um imperial atracadouro!
Do outro lado, a praça e suas construções históricas,

O movimento da urbe... Eis o coração da cidade.



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

AS CIDADES E OS SEUS REGIMES


Visão aérea das ruínas da Acrópole e do Partenon da antiga Atenas, berço da cultura política ocidental.                 

                    I

A vida política é vivida em Cidades;
A alma das Cidades é a sua constituição.
A constituição é determinada pelo regime,
O regime é a organização soberana dos poderes;
Tal organização pode ser boa, como pode ser má,
Dependerá da orientação de quem controla o Timão,
Bem como da virtú daqueles para quem se governa.

Quando um governa o Estado para o bem de todos
Temos então uma verdadeira Monarquia.
Quando alguns governam visando o interesse geral
Vivemos em uma efetiva Aristocracia.
Se o povo controla o poder com vistas à satisfação pública
Estamos em uma real Democracia.

A instituição do primeiro regime está ligada à origem do Estado.
Se um único homem, por meio da força ou do respeito dos seus,
Unificou o povo num território e sobre uma única constituição
O primeiro regime instaurado foi uma monarquia.
Se os melhores e mais virtuosos dividem o poder entre eles
Eis que teve origem uma verdadeira aristocracia;
Se todo o povo, ou a maioria, controla o Estado
Esse povo, por conseguinte, fundou uma democracia. 
                         
                           II


Roda do tempo, segundo a mitologia romana, controlada pela Deusa Fortuna. 

Na teoria, a monarquia é exercida em prol da justiça.
Respeitando devidamente a constituição outorgada,
A intenção do monarca e tornar a vida dos súditos feliz.
Mas, quando o governo se alonga durante os anos,
Passando a reger o Estado como se fosse sua casa,
É sinal que algo degenerou a virtude política da realeza.   

O reflexo mais claro da corrupção monárquica
É a hereditariedade que impõe ao povo seu rei:
Seus filhos tornam-se os herdeiros da pátria;
Qual virtude? Quem dará valor ao que tão fácil conseguiu?
Excede-se em luxo e ócio e todos os tipos de paixões;
Não tardará à realeza corromper-se em detestável tirania!   

Ah! Tirania filha ingrata da monarquia.
Não respeita as leis, seu princípio é o despotismo,
Sustentas o poder sob o medo e a agressão.
Do governo de um para o interesse de todos
Ao governo de um só para seu bem estar pessoal,
Ignoravas que de tais atitudes brotaria sua própria ruína!

Contra a injustiça dos tiranos muitos se revoltam,
Os homens começam a aprender como mudar a história;
Os valorosos aristois não suportam tal vida criminosa
Seguidos pelo povo, os fies escudeiros, compõem a revolta.
Ao destituir o tirano indesejado dão origem ao novo governo.

A aristocracia é promovida pela indignação à tirania nefasta.
É o governo dos melhores, dos mais justos, dos mais virtuosos,
Pois conformam suas condutas às leis devidamente promulgadas,
Preferem sempre o bem público ao invés da vantagem própria.
Porém, o governo dos melhores é também o dos mais ricos!

Com passar do tempo o dinheiro torna-se a arma de um grupo.
Esse grupo já não é necessariamente composto pelos melhores,
Mas pela família e pelos amigos dos antigos aristocratas.
Os mortos não ressuscitam; os vivos degeneram o governo!
Que igualdade civil, se a ganância dos ricos detém o poder?
A aristocracia corrompe-se na avarenta e ambiciosa oligarquia!

Ah! Avarento e ambicioso espírito oligárquico
Só queres roubar, confiscar e tornar-te mais rico.
Prejudicando muitos e premiando uma minoria,
Desrespeitando as leis e maltratando os cidadãos,
Tu mostras também desconhecer a história,
Ignora a força humana, o desejo popular de mudança.

O fim da oligarquia é um levante popular.
O povo vai às ruas e vinga-se de seus opressores
Grita em favor da liberdade, dos bens confiscados.
Então instaura a democracia, o Estado popular.
Neste a multidão detém soberanamente o poder,
Louva a liberdade e estende a decisão a todos.

Por isso mesmo o Estado popular está fadado à vida curta.
Deixando as decisões aos caprichos da grande maioria
O governo do povo paulatinamente também se corrompe,
Haja vista que se desenvolve uma situação de licença
Na qual ninguém reconhece as leis, nem a autoridade.
Dessa forma, a democracia degenera em licenciosidade!

                           III

Frontispício da obra História em geral do historiador
grego, radicado em Roma, Polibio.

A história apresenta esse constante vir a ser:
A alteração dos regimes e constituições de um Estado,
O eterno devir das formas no decorrer de sua existência
Sempre movido pelo eterno desejo humano de mudança;
Até que morra de uma vez o Estado, degenerando-se no nada
Incapaz de sobreviver várias vezes às mesmas vicissitudes.

 Por outro lado, a história que apresenta o ocaso da política,
Também traz consigo os fatos que nos dão o ensinamento
Capaz de elucidar o presente e dar estabilidade à nação.
Traz a grande lição de como evitar o fracasso, orientar a ação,
Instigando-nos a escrever o que ainda não está escrito,
A inventar o novo, pois nem tudo é eterno retorno do mesmo!




(Por, Saulo Henrique Souza Silva)



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O HOMEM. A SOCIEDADE DE HOMENS

 Frontispício do Leviatã de Thomas Hobbes, 1651,



Somos a unidade dialética;

Há a guerra em nós mesmos.

Mas, também, somos seres gregários,

Vivemos em sociedade, criamos Estados.

O homem é o resultado do conflito que lhe é interior,

A síntese entre a guerra das paixões internas.

O Estado é o que resulta da disputa entre os homens,

A síntese que regula a guerra das vontades em choque!

A primeira síntese é obra da natureza;

A segunda é arte humana.

Como ser natural o homem é determinado:

Biologicamente, geograficamente e culturalmente.

Como obra humana, a sociedade é determinada pelo homem,

Sua liberdade de ação torna possível o desenrolar da história.

O indivíduo é o resultado do conflito interno,

Cego, às vezes incontrolável.

O Estado é o resultado racional da guerra entre os homens,

O acordo entre as vontades de um e de outro!


(Por, Saulo Henrique Souza Silva)

domingo, 18 de dezembro de 2011

O XADREZ MIMETIZA A VIDA


Por, Saulo H. S. Silva




Os peões partem irresolutos na dianteira, 
Pois os mais fracos formam a linha de frente.
Já o ousado cavalo ataca a rainha que recua,
Enquanto o rei na espreita apenas observa.
No xadrez saber qual o lance inicial é fundamental
E perspicaz é quem está sempre a antecipar a jogada
Para chegar ao seu alvo mais rápido que o oponente,
No fundo no fundo é somente isso que interessa.
Afinal, se o objetivo almejado é a vitória
Todas as estratégias são apenas os meios,
De modo que conhecer o adversário é essencial,
Mas saber a hora exata do xeque mate é crucial!
Ao observador a posição das peças aponta o vencedor,
Mas, nem tudo que aparenta ser, é de fato o que é!
Por isso devemos constantemente nos armar,
Ameaçar nos flancos com torres bem apoiadas,
E nas diagonais com os bispos com alvo definido.
Assim a configuração do jogo prontamente se delineia,
A melhor estratégia e melhor jogador vão se sobrepondo,
Até que o derradeiro golpe se aproxima...
E o jogo acaba com a cabeça do rei na bandeja.
               Dessa forma, o xadrez mimetiza a vida:
o mau jogador sempre acaba na ruína!





segunda-feira, 31 de outubro de 2011

GUERRA

Por, Saulo  H  S Silva



A unidade se faz na diversidade,
Como corpos disputando o espaço,
Como duas paixões antagônicas.
Qual deles ocupará o espaço?
Qual paixão dominará o espírito?
Sem definição não há paz
Apenas guerra, confusão!
Qual o resultado do conflito?
No indivíduo é a personalidade,
Entre os indivíduos a sociedade!



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

NOSSA RES PÚBLICA


Por Saulo H. S. Silva



Vejam nossa triste República:
Apodrece como um corpo sem vida,
Desfigura-se como um rosto em chamas,
Cambaleia como um bêbado que não sabe onde pisa.
Em que transformaram a senhorita Coisa Pública?
Já não garante a liberdade,
Esta se tornou licenciosidade.
Rouba quanto podes carregar,
Quem há de te impedir?
Fazes o que queres, esta é a lei!
E assim o poder coletivo se degenera,
Paulatina e sorrateiramente.
Adoece infectado pela corrupção
Que destrói seu sistema funcional,
E assim uma a uma suas instituições vão ruindo,
Como a ação de um vírus em um corpo.
Defender-se fica cada vez mais difícil,
Afinal, o valor político se corrompeu!
Ah, triste República brasileira!
Em seu lema ordem e progresso,
Mas não existe ordem e sim licença,
E o progresso desistiu do Brasil
Progredimos ao avesso, à ruína.
Decrépita agoniza nossa República,
Infectada pela corrupção
Que penetrar sorrateiramente na vida civil.
Semelhante a um terrível vírus
A destruir os glóbulos brancos de um corpo,
Como um impetuoso exército inimigo
A atacar as guarnições adversárias,
A corrupção degenera imperiosa
As instituições civis mais necessárias!

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